Urna eletrônica atual
Votei pela primeira vez para Presidente da República, em 1960. Votei em Jânio Quadros.
Sempre votei de acordo com minha consciência e conhecimento das qualidades dos candidatos. Nunca nas promessas que eles fazem. Jânio enfrentou (e venceu) Henrique Teixeira Lott.
Hoje, com vividos 83 anos, a legislação brasileira já me faculta o direito de não “precisar mais votar” – mas, como o jovem que votou pela primeira vez em 1960, vou votar. Entusiasmado!
Vou fazer como faz a abelha em discussão com a mosca: mel é mel, e outra coisa é outra coisa!
Como o voto ainda é secreto, não direi em quem vou votar. Diria, isso sim, em quem não votarei. Mas, com a eleição polarizada, dizer em quem não votarei, é o mesmo que dizer em quem vou votar.
Nos anos das décadas de 50 e 60 – antes do que resolveram chamar de “Ditadura” – votar era um ato de patriotismo. Ato conquistado, diga-se de passagem. Dava gosto votar.
Lembro bem que meu Avô materno, João Buretama, antecipava as tarefas domésticas no sábado, véspera do domingo da eleição. Selava os animais e carregava a água necessária para as tarefas. O açude não ficava tão distante. Era pouco mais de dez léguas a distância que percorria.
Cheios os potes e as terrinas, faltava cortar a lenha para Vovó usar no fogão que faria o dicumê.
No domingo acordava cedo. Soltava as cabras solteiras e ordenhava as que estavam paridas e produzindo leite. Tarefas cumpridas.
Selava o jumento e seguia para a votação – que acontecia no Salão Paroquial da única Igreja daquelas paragens. Votava e voltava para casa com o semblante e o sentimento de dever cívico cumprido, e a palavra empenhada ao patrão.
Os anos se passaram. Saí de Queimadas e fui morar em Fortaleza, onde votei pela primeira vez. Mudei para o Rio de Janeiro, onde me graduei em Comunicação Social (Jornalismo-Radialismo). Casei, tive filhas, separei e divorciei. Mudei para São Luís e comecei a exercer o Jornalismo.
Certo dia fui escalado para fazer parte da equipe jornalística que cobriria a eleição e as apurações. Contagem de votos feita manualmente e pouco fiscalizada, ou, digamos, apuração com cartas marcadas.
Eleição encerrada às 17 horas. Apuração encerrada às 23 horas.
Foi quando constatei que de nada valera o sacrifício de João Buretama, pretendendo cumprir o dever de cidadão, ou, digamos, constatei que, para alguns a grama nunca deixou de ser azul.
Vi, com esses dois olhos que a terra vai comer quando eu voltar ao barro: um candidato a deputado estadual, após o horário estabelecido para o encerramento da apuração, abrir o porta-malas do veículo pessoal e tirar de lá muitas urnas onde estavam depositados os votos de outros João Buretama.
Justificativa: o TRE “esqueceu” de recolher aquelas urnas, e ele, como bom cidadão e honesto, as trouxe para o local da apuração. Trouxe todas intactas.
