CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Gravura do cabaré de Maria Bago Mole em noite de gala

No início dos idos dos anos trinta, enquanto Lampião e seus comparsas incendiavam a caatinga, tocando o terror nos vilarejos por onde passavam, matando gente inofensiva, saqueando armazém e bodegas, estuprando mulheres indefesas, Maria Bago Mole, inspirada pelos deuses, se preparava para promover mais uma festa de arromba no cabaré para homenagear todos os trabalhadores que participaram da construção da ferrovia “Great West”, cujo local se transformaria numa autêntica Fladstone.

Seria uma noite inesquecível na visão de Maria Bago Mole, até porque ela aguardava a chegada de dois ilustres convidados: o famoso jornalista carioca d.Matt., que já havia entrevistado a diva do jazz, Sarah Vaughan, uma das vozes mais maravilhosas do início do Século XX e se encontrava na Zona da Mata Sul para entrevistar a cafetina que transformou um vilarejo inóspito num cabaré afamado no mundo todo pelas suas “meninas” e suas ancas, e o mais afamado entregador de coco em lombo de jumento, Sir Sancho Panza, um letrado de mão cheia, conhecedor afamado de todos os cabarés de cegos, aleijados, mocos, mudos e surdos de beira de estrada, mais ativos no sexo e na birita local do que jumenta no cio.

Já estava ficando tarde, as meninas já tinham acendido os lampiões a querosene, espalhando algumas tochas nos janelões do cabaré, com o pátio todo enfeitados de bandeirolas coloridas. Criação das meninas. Em cada canto do salão via-se um rosto de mulher maquiada ao melhor estilo da casa, esperando seu cavalheiro. O local estava mais animado do que as quermesses patrocinadas pelas igrejas católicas em épocas de festejos juninos.

Maria Bago Mole, como sempre inspirada, vestia seu novo vestido vermelho de seda, modelo surgido com a chegada da ferrovia. Quando veio descendo as escadas do seu aposento, todos os homens que estavam bebericando no salão do cabaré perderam a concentração, ficaram hirtos, extasiados com tamanha desenvoltura e formosura! Ali estava uma divindade feminina!

Numa postura de dar inveja a qualquer Carlota Joaquina, patroa do Rei Dom João VI, a cafetina descera a escada firme, imponente, atenta ao comportamento das meninas que pareciam não estarem alegres como deviam e ela procurava as incentivar. Os convidados estavam chegando aos montes e o bar regurgitava de cavalheiros vestidos com suas fatiotas domingueiras e
fazendo poses de elegância, com seus sapatos engraxados, seus bigodes finamente aparados à lá Salvador Dali, e degustando do conhaque e da aguardente da casa, que tinham fama de serem os melhores da área circundante.

Estavam todos na expectativa dos acontecimentos, quando avistaram um grupo ao longe, parecia uma procissão, mas na verdade era um tropeiro que vinha arrastando atrás de si uma tropa de jegues carregados de cocos verdes para abastecer o cabaré, que tinham sido encomendados por Maria Bago Mole para servir aos convidados da noite, pois alguns deles gostavam de ser servidos com conhaque ou birita da casa, servidos com água de coco verde.

O tropeiro era um tal de Sancho Panza, um sujeito alto, esguio como o roqueiro Chuck Berry, vestindo uma espécie de farda surrada e puxando a tropa com os cocos por uma corda e, gesticulando e rindo ironicamente pelo canto da boca, dizia ao colega que caminhava ao seu lado, um tal de d.Matt., carioca da gema como Sancho, para ficar esperto, porque aquela turma do cabaré não dava moleza, tinha a fama de bairrista, e brigava por qualquer motivo, e quase sempre alguém era despachado à cidade de pés juntos, depois da quinta dose.

Mal desceu do seu aposento onde estava com o amado Bitônio Coelho, Maria Bago Mole, ela própria, fez questão de servir os tropeiros com uma dose de conhaque local, mais forte do que gasolina premium, o qual estava sendo consumido pelos homens corajosos da ferrovia e os capangas da cana, dentro do cabaré.

Não demorou muito, quando o Sancho Panza, que estava segurando o seu copo de vidro vermelho e levantou o braço para dar um brinde, empinando o copo, quando ouviram-se vários tiros no pátio externo. Um dos tiros entrou pela porta adentro e quebrou o copo do Sancho que gritou “arre égua!” Estremeceu de raiva, menos pelo susto, e mais pelo desperdício da boa bebida. Foi até a porta de entrada e deparou-se com dois homens caídos ao chão e já com o passa porte de viagem eterna. Ele disse simplesmente que foi uma sorte que os dois “shitheads”, que estavam discutindo sobre jogo de cartas tinham sido despachados sem maiores prejuízos para os demais.

Tudo foi resolvido numa rapidez dum busca pé e os dois corpos imediatamente despachados numa carroça de burro pelo coronel Bitônio Coelho sem os exames cadavéricos. Mal os corpos saírem do local a diversão continuou como se nada tivesse acontecido. A festa era mais importante do que a disputa entre dois idiotas por causa de jogo de baralho.

d.Matt. e Sancho Panza ficaram bebericando em seus respectivos lugares. O primeiro esperando Maria Bago Mole abrir a boca para lhe conceder a entrevista histórica e o segundo, esperando-a pagar seus caraminguás pelos cocos trazidos nos caçoas dos jumentos. Curioso é que eles não tinham pressa, pois o cabaré lhes favorecia um ar de calmaria feminina tão interiorano que não perceberam que a dama já havia se despedido do seu amado para com eles conversar sobre tudo de sua vida, da formação do cabaré até a famosa entrevista e o pagamento dos cocos.

Quando iam saindo, depois de uma longa conversa com a dama do cabaré, um gaiato, ao sair do quarto onde havia passado a noite com uma das meninas, perguntou à protetora de sexo frágil:

– Foi verdade que aconteceu um tiroteio aqui ontem onde morreram dois idiotas por causa de um priquito, foi? – perguntou o cliente meio cambaleante da farra da noite, regada a sexo e birita com água de coco.

Maria Bago Mole, com a experiência e o talento de uma empreendedora/gerenciadora de carne mijada, se antecipou a qualquer “disse me disse” e respondeu ao curioso em tom firme:

– Meu filho, o que aconteceu aqui ontem foi o estampido de dois foguetões por mais um cabaço quebrado no cabaré. Quem quebrou o “selo” da xereca da menina já se comprometeu a se casar com ela e me pagou a recompensa como nos filmes de faroeste. Meu cabaré transa tudo que é feminino. Macho aqui só serve para pagar as contas do consumo e despachar seus desafetos, se for macho!

Nesse momento, d.Matt. e Sancho Panza se olharam extasiados com a resposta certeira da cafetina e ficaram pensando como se comportaria aquela famosa dama com a presença de suas deusas do blue cantando no cabaré. E voltaram a bebericar.

O carioca d.Matt argumentava que estava faltando alguma coisa para completar melhor “a noite” e sugeriu que fosse colocado na vitrola o disco da bluseira e ativista dos direitos civis, Nina Simone, cantando o seu maior sucesso “NE ME QUITE PAS.”

Luiz Carlos, também carioca, concordou, mas exigiu que em seguida fosse ouvida a sua musa Sarah Vaughan, apelidada de “divina” pela crítica mundial, cantando e encantando a todos com a letra sugestiva para a ocasião, da famosa Jazz Music “Send in the clowns.”

E assim, terminou mais uma noitada cabaretiana nos salões engalanados do Cabaré de Maria Bago Mole, já uma verdadeira celebridade nas noites festivas do Nordeste e do mundo!

3 pensou em “DUELO NO PÁTIO DO CABARÉ ENTRE DOIS IDIOTAS

  1. Belo texto, seu Ciço. Em formosura e atrativos o Cabaré de Maria Bago Mole só perde pro cabaré do Berto, onde, embora lhe falte a beleza das raparigas daquele puteiro e não tenha água de Coco e conhaque para alegrar o ambiente, pelo menos jamais se ouviu o estampido de um tiro letal.

  2. Comentar um belo texto em que somos também um personagem , torna´-se um
    tanto complicado. Entretanto, as vivências ali explicitas dão muito assunto para comentar,
    Haja vista que dois cariocas , são jogados pelo estoriador para lá das
    confundas do nordeste por um passo de mágica e , como não podia deixar de ser
    dão o seu recado, prestigiando àquelas terras mágicas e cabaretianas com
    o seu jeito carioca de ser.

    É díficil ou quase impossivel de se ler nos comentários das belíssimas cronicas aqui publicadas, que outros personagens citem a sua origem, parecendo que somente os cariocas são mais metidos a se mostrarem por vaidade.
    Garanto que não meus Caros. depois da
    falência do Hell de Janeiro, continuamos acreditando que ainda voltaremos a ter o nosso passado de
    glorias, que nos foi roubado e espezinhado por um monte de politicos
    desonesto que estão sempre dando rasteiras nas nossas andanças.
    Cita-los ? Para que ? São todos, não se salva vivalma, não apenas no
    Hell de Janeiro, como também em todo o Brasil.

    Por sorte, temos textos como esse acima, que semanalmente nos direciona
    para paragens nordestinas, mais intocadas pelos viciosos e nos entretem com
    acontecimentos muito bem bolados , sem muita veracidade, mas sempre
    com um sabor de novidade.
    Tenho certeza que o meu conterrâneo Luiz Carlos , se junte a mim, nesse
    aplauso ao escritor, que teve a coragem de nos posicionar dentro do seu hoje
    famoso Cabaret de Maria Bago Mole.
    Abraços.

    PS. Um aplauso prolongado pela belíssima ilustração do seu texto acima.
    Dá uma vontade danada de participar desse Can Can afrodisíaco,

  3. Escreve DMatt…Comentar um belo texto em que somos também um personagem , torna´-se um
    tanto complicado.
    Tenho certeza que o meu conterrâneo Luiz Carlos , se junte a mim, nesse
    aplauso ao escritor, que teve a coragem de nos posicionar dentro do seu hoje
    famoso Cabaret de Maria Bago Mole.

    E lá vai o tal Luiz Carlos Sancho de Panza…

    Aí é flórida bagarai, pois depois da noitada cabarelística no recinto famosíssimo, tendo terminado a noite com duas quengas lindas a me acariciarem os “cocos do saco” (kkkkkk) e acordado com uma ressaca “didádó”,é hora de dizer a Ciço ,que sobre o balcão de mogno escrevi com meu canivete que Ciço, D.Matt, Sancho, Coelho e Maria Bago Mole são PHODDA BAGARAI. Se forem restaurar o balcão, que botem na conta do Coroné Bitônio Coelho, que dinheiro não falta ao cabra.

    É interessante que 100 anos depois deste dia, encontraremos um curioso percorrendo a internet e encontrando, talvez por acaso, este maravilhoso texto, assim como encontrei várias maravilhas ao frequentar o Sebo do Messias, lá na Praça da Sé (maior e mais popular Sebo de São Paulo, com 50 anos de existência.)

    Exclamará certamente: “Como escrevia bem esse tal Cícero Tavares”.

    Que venham mais aventuras bagomolianas, totonianas, dmettianas e sanchianas, pois eternizados estamos nesta página cicerina. VIDA LONGA AOS REIS…

    Ah, antes que me esqueça, possuo contrato vitalício, firmado através de fio de bigode do coroné, para entrega de cocos no Cabaré de Maria Bago Mole. Nada de pensar em outro fornecedor, caríssimo Cícero Tavares.

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