Um amigo meu relata sofrer dor de árvore. Ele sempre acorda com pássaros a solfejar ventos, pousados em seus cabelos desgrenhados, ou a declamar brisas e cantar chuvas leves e serenas no caule de seu corpo, como a levar-lhe os nutrientes e seivas para sustentá-lo. Disse-lhe que essa dor eu quero ter. Sofrer de árvore deve ser tão doce quanto padecer de flor, coisa que bem conheço por comigo acontecer sempre. E desperto cantando aromas e cheirando amores, misturados com sorrisos alegres e coloridos, regando-me desde a raiz. Outro dia também senti dores de mar: ondas e marés suaves e ternas embalaram meu despertar e ensolararam meus pés ansiosos por andar por todas as ilhas, de areia em areia, de grão em grão, até o paraíso de uma floresta verde enfeitada por rios e riachos, árvores e frutos, borboletas e pirilampos. Mas bom mesmo é ir ao encontro do bom padecimento que só encontro na dor de flor. E se me oferecem um analgésico, aceito e o enterro, escondendo-o no primeiro jardim, cova funda, perto da roseira mais bonita. Deixem-me a dor de flor. Ela me ajuda a viver a vida com todos os cheiros e bem-aventuranças que me são permitidos …
XICO COM X, BIZERRA COM I

Nem todas, mestre Xico. A Flor do Baobá, por exemplo, cheira tão mal que chega a dar tonteira. Melhor esclarecer, esse ponto. Viva.
Meu caro Doutor José Paulo,
até a flor do cacto, planta dura, resistente, mas nem por isso menos elegante, é branda e terna como qualquer outra flor. A do Baobá, não conheço, mas não deve fugir à regra no quesito beleza. Pelo que você diz, deve ser contemplada à distância ou, de preferência, de narinas tapadas.