Recebeu na pia batismal da comarca de Flores de Ingá o nome de Maria Clotilde Nascimento Neves, Cotinha para os íntimos. Desenvolveu-se bela moça, com os seus etcéteras e tal, talqualmente uma tanajura, daquelas que tem seus avantajados do de baixo, amarrados nos do de cima, apenas por um nó que parecia tolete de taquara.
Cidade pequena onde todo mundo se conhece, Maricota foi o sonho e o patuá de muitos moleques de sua mesma idade, e quando ficou mais taluda, foi a responsável por muita espinha de adolescente e braço forte de muitos marmanjos. Não era a garota de Ipanema decantada por Tom Jobim, como naquela música, emboramente relembrasse aquela moça, já que aquele sujeito fez despertar muita lascívia Pindorama afora, em homens machos de todos os quadrantes, e fora do Brasil também.
Ganhara duas vezes o prêmio de miss Flores do Ingá, com seu porte chamativo e dois mimosos que sempre estavam bispando o universo, nunca para o horizonte e muito menos para o inferno. Esse era seu maior chamativo. E, como toda moça recatada vivia do grupo escolar para casa, desta para igreja e depois para casa novamente. Nunca se soube se teve namoricos escondidos, embora houvesse um magote de pretendentes, a maioria não era para casamento, como sempre ocorre nesses casos.
Mas, casou-se, e bem casada, diga-se passagem. Um médico novo, apessoado, afamado na cidade pela competência e maestria na composição de beberagens e sinapismos que expulsava as mazelas dessaúde daquele burgo pequeno, mas bem arrumado.
Como todo casamento bem ajustado vieram os filhos: duas meninas e um menino. As filhas herdaram a mesma beleza da mãe, a mesma exuberância, só que com cabelos loiros como os do pai, embora naquela época cabelo loiro, ou era de gente importada do estrangeiro, ou comprada na botica. O filho já nasceu taludo e foi encompridando até ficar tão alto quanto o pai.
E, como sempre, a vida vai passando. Como sempre, a areia do tempo vai escorrendo devagar por aquela ampulheta. Os filhos cresceram, foram estudar fora onde se casaram, construíram vida e foram rareando as visitas na cidade de nascença. O marido, já encanecido pelo tempo, certo dia, tomou uma facada de um vento encanado, bem no vazio das costelas e partiu numa noite de dezembro chuvento nas asas de um caburé.
Dona Cotinha ficou sozinha em um casarão que, de repente ficou grande demais para uma saudade e uma vida sozinha. Os filhos longe, o marido no barro do cemitério. E foi ficando tristenta, calada, quase sem sair de casa, recebendo visita quase nenhuma. Só a missa era espaço frequentado. Passado um tempo, nem isso. E, como toda cidade que evolui Flores do Ingá também evoluiu, perdendo a memória das gentes antigas.
Cheia de viver, não suportando mais a solidão, Dona Cotinha, certo dia, deixou seu exílio voluntário e foi ao médico. A aparição da velha teve parecença de um fenômeno celeste não esperado. Chegou ao consultório do novo doutor e fez os exames normais para uma senhora de sua idade, Na saída foi específica.
– Doutor, me responda uma coisa: onde fica o coração?
– Bem, Dona Cotinha, nas mulheres, geralmente o coração fica na altura do bico dos seios, mas por quê?
– Nada não, só para saber! E foi embora para casa.
No outro dia, notícia do jornal da cidade espantou todo mundo: “Idosa de 89 anos tenta suicídio dando um tiro no próprio joelho!”
… traduzindo, caro Roque,
a dona Cotinha era Calipígia em contínuo Telotismo.