MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Havia um silêncio que não era ausência de som, mas presença do infinito.

Sentado à beira de um balcão esculpido em matéria que jamais conhecera a erosão do vento ou o abraço da chuva, ele segurava um copo de whisky que parecia conter, além do líquido âmbar, a própria memória das estrelas. À sua frente, não havia cidade, não havia ruas, não havia história humana — apenas a vastidão mineral e silenciosa de um mundo antigo, imóvel, quase eterno.

O chão sob seus pés era feito de pó milenar, fino como pensamento, acumulado ao longo de eras por impactos incessantes, cicatrizes de um passado violento que já não fazia barulho algum. Ali, o tempo não corria — ele repousava.

À esquerda, um risco súbito cortou o negro absoluto. Um meteorito atravessou o vazio com a urgência de algo que desconhece o destino. Segundos depois, o impacto: seco, definitivo, irreversível. Uma nova cratera nascia, mais uma assinatura do caos no rosto sereno daquele mundo. Ele observou sem sobressalto. Havia algo de belo naquela violência — uma lembrança de que até o silêncio carrega vestígios de movimento.

À direita, suspensa como uma joia improvável, estava ela: a Terra. Azul. Branca. Viva.

Girava lentamente, como se dançasse para um espectador solitário. Nuvens desenhavam formas efêmeras sobre oceanos profundos; continentes repousavam como pensamentos antigos; luzes insinuavam civilizações que jamais cessavam completamente. Era, ao mesmo tempo, distante e íntima. Um lar visto de fora — talvez, pela primeira vez, verdadeiramente compreendido.

Ele levou o copo aos lábios, demorando-se no gesto. O sabor era quente, familiar, quase humano demais para aquele lugar. Havia conforto ali — um elo invisível com tudo o que ficara para trás.

E então, sem pressa, como quem formula uma pergunta antiga demais para exigir resposta imediata, ele murmurou:

— Haverá vida inteligente lá?

A frase não carregava ironia, nem desprezo. Era, antes, uma contemplação serena — uma dúvida nascida não da ignorância, mas da observação. Afinal, daquele ponto de vista, tudo parecia tão frágil, tão improvável… tão caoticamente belo.

Quantas decisões, quantos conflitos, quantas paixões se desenrolavam naquele pequeno globo azul? Quantas vozes gritavam, discutiam, amavam, criavam, destruíam? E, sobretudo, quantas compreendiam verdadeiramente o milagre de existir?

Ele apoiou o copo no balcão e continuou a olhar.

Talvez a inteligência não estivesse na tecnologia, nem nas construções grandiosas, nem na capacidade de alcançar outros mundos. Talvez estivesse na habilidade — rara, delicada — de reconhecer a própria pequenez diante do universo e, ainda assim, encontrar sentido.

Talvez estivesse no riso.

Talvez estivesse na dúvida.

Talvez estivesse naquele exato instante: um ser, em um lugar impossível, olhando para seu próprio mundo e perguntando-se, com uma leveza quase melancólica, se ali, entre bilhões, havia de fato consciência suficiente para perceber o quão extraordinário tudo aquilo era.

O meteorito já era passado. A cratera, mais uma entre incontáveis. A Terra continuava a girar.

E o silêncio — aquele silêncio vasto, antigo, absoluto — permanecia, envolvendo tudo, como se aguardasse, paciente, que alguma resposta finalmente surgisse.

Mas ela não veio.

E, talvez, nunca venha.

Ele sorriu.

E bebeu mais um gole.

4 pensou em “DO OUTRO LADO DO SILÊNCIO”

  1. Dileto amigo filósofo, astrônomo, cientista, escritor, professor etc Maurino, na minha opinião, o silêncio da floresta diz mais que o barulho.
    Fraternal abraço, parabéns e obrigado pelo texto!

    • Eu que agradeço por ter lido meu texto, Nonato.
      E nesse caso, eu estava me imaginando em outra localidade que não é aqui na Terra. Ao longe, observando o planetinha onde tudo ou nada, pode acontecer.
      Saudações cordiais.

  2. E então, sem pressa, como quem formula uma pergunta antiga demais para exigir resposta imediata, o filósofo, astrônomo, cientista, escritor e professor Maurino murmurou após escrever a “preciosa e imperdível” crônica:
    – Vou à rua.
    Saiu cantarolando. E, ao dobrar a esquina, viu um diretório político pintado de vermelho e murmurou uma vez mais, de si para consigo:

    — Haverá vida inteligente lá?

    A frase não carregava ironia, nem desprezo. Era, antes, uma contemplação serena — uma dúvida nascida não da ignorância, mas da observação. Afinal, daquele ponto de vista, tudo parecia tão frágil, tão improvável… tão caoticamente vermelho.

    Quantas decisões, quantos conflitos, quantas paixões se desenrolavam naquele rubro lugar? De repente foi surpreendido por repentina gritaria vinda do interior da casa rubra. Janelas se estilhaçaram, adeptos do time vermelho voaram pela janela e se estatelaram na rua. A porta de entrada voou para o meio da rua. Uma confusão dos diabos.
    Constata o cronista Maurino que a derrota nas urnas, em primeiro turno, começa a derrubar o barraco rubro… A pergunta valendo milhão: Sobrará alguma viga de pé?

    • Agradeço muito sua gentileza e sua criatividade.
      Confesso que sorri ao acompanhar as aventuras desse suposto “filósofo, astrônomo, cientista, escritor e professor Maurino” diante do misterioso diretório vermelho. A cena foi construída com leveza, humor e aquela tradição das boas crônicas brasileiras que observam as paixões humanas sem perder o tom literário.
      Quanto à pergunta final — se sobrará alguma viga de pé —, a História costuma ensinar que partidos, movimentos, ideologias e governos vêm e vão, mas as instituições permanecem (Permanecem? Veremos). Uns reformam a casa, outros a derrubam, outros ainda tentam reconstruí-la. No fim, as vigas mais importantes são aquelas que sustentam a democracia, o diálogo e o respeito entre pessoas que pensam diferente.
      E, se me permite uma observação de cronista para cronista, continuo achando mais fácil encontrar respostas para algumas questões astronômicas do que para os mistérios da política humana.
      Receba meu abraço e meus agradecimentos pelo comentário espirituoso.

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