Lisboa. O título é só uma citação de Flaubert (Correspondência), fundador do realismo, “Le bon Dieu est dans le détail”. Poderia também citar o romântico Prosper Mérimée (Mentira), “Toda grande mentira precisa de um detalhe”. Ou mesmo Pessoa (Espírito), direto e duro, “O detalhe é sempre mau”.
Indo até a mitologia grega veremos não haver, para esses “detalhes”, um deus específico. Embora estejam, alguns deles, próximos. Como Atena, dos 12 olímpicos, deusa da Estratégia. Ou Harpócrates, deus do Segredo e do Silêncio. Mas não precisaremos ir tão longe que uso, essa referência, tão só para lembrar um caso banal.
Tudo começou quando Mike Tyson estava sendo acusado de ter estuprado, em 19/07/91, uma estudante de 18 anos, Desiree Washington, no Canterbury Hotel (Indianópolis). A defesa do lutador sustentou ter sido uma “relação consensual”. Sob o fundamento de que mulher alguma se dirige ao quarto de um homem, alta madrugada, senão com o fim de seduzi-lo.
Enquanto os advogados da jovem se limitaram a exibir o pijama que usava naquela noite. Longo, fechado e com desenhos de Pluto ‒ aquele cão alesado, amigo do Pato Donald. O argumento era de que lá foi apenas para conhecer o lutador de box. Sem nenhuma outra intenção. Tanto que não usava “roupas sedutoras”, como baby-dolls. Resultado, Mike Tyson acabou condenado a 6 anos na prisão.
Agora esqueçamos escritores, deuses e esse episódio sexual para examinar o caso do Banco Master. Porque o ministro Alexandre de Moraes está sendo acusado de ter firmado em 16/01/24, com o banqueiro Daniel Vorcaro, contrato de quase 130 milhões. Afora mimos de várias naturezas como viagens internacionais; farras com whisky Macallan (segundo Google, vinte e oito mil a garrafa); sem contar cartões de crédito com limites mensais de 300 mil, para cada filho.
Sua defesa é que contratado não foi ele, mas o escritório de mulher e filhos. Não é fácil de acreditar. Porque, com esse valor astronômico, poderia o banqueiro contratar bancas bem mais experientes e com advogados já consagrados. Em vez de recorrer a senhora, pós-graduada em marketing e sem maiores qualificações jurídicas, além de jovens que se iniciavam no ramo. Sem contar que o contrato foi revisado pelo próprio ministro, prova de seu interesse pelos valores em jogo.
A questão é relevante porque, sendo mulher e jovens filhos efetivamente seus advogados, teríamos apenas uma escolha ruim por parte do banqueiro. Enquanto, seja o ministro esse advogado, mulher e filhos funcionariam como laranjas no contrato. E teríamos, então, vários crimes. A começar pelo de responsabilidade, que autoriza impeachment pelo Senado (art. 52 da Constituição) ou pelo próprio Supremo (art. 102).
Nesse ponto da conversa, volto ao caso de Mike Tyson. Porque, nele, fundamental foi o detalhe de Pluto no pijama. E no caso do ministro Moraes? O decisivo, aqui, será para quem ligava o banqueiro Vorcaro. Na fase mais crítica do caso, dois dias antes de ser preso, pensava fugir do país e deu 53 telefonemas. Para quem?, amigo leitor. Nenhum para mulher e filhos. Mas todos, repito, TODOS, para o ministro Moraes. Seu verdadeiro advogado, tudo sugere.
Não se trata de uma questão apenas ética. É também ética, sem dúvida. Mas vai além. Algo que deve ser investigado pelo próprio Supremo. Tem que ser. É inconcebível não seja. É indecente não seja. Mesmo com seus parceiros corporativos, naquele plenário, decididos a não permitir. Praticando sem vergonhas aparentes a “Lei da Máfia”, diz um deles. Irá cair tão baixo nosso Supremo?, eis a questão.
Para encerrar, creio que essa referência final permite invocar o famoso monólogo de Shakespeare, em Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão:/ Será mais nobre em nosso espírito sofrer?”. Porque, enquanto alguns enriquecem, parece que vai ser mesmo esse o destino reservado a todos nós, tristes brasileiros, o de “em nosso espírito sofrer”.