Karina Michelin
O clima interno no IBGE entrou em estado de rebelião aberta. O que está em curso é um desmonte técnico, com forte contorno político, às vésperas da divulgação do dado mais sensível da economia brasileira: o PIB.
Desde que o petista Márcio Pochmann assumiu a presidência do Instituto, servidores de carreira vêm alertando para a erosão da independência técnica do órgão responsável pelas estatísticas oficiais do país. Em 2024, técnicos redigiram uma carta formal manifestando preocupação com o rumo do IBGE, endossada por ex-presidentes da instituição. O alerta foi ignorado.
Agora, o risco se materializou.
Em 19 de janeiro, de forma silenciosa, foi exonerada Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais há 11 anos e referência técnica no cálculo do PIB. A decisão desencadeou uma debandada inédita: Cristiano Martins, coordenador da área de bens e serviços, deixou o cargo; Cláudia Dionísio, responsável pelas contas trimestrais, saiu em seguida; Amanda Tavares, do mesmo núcleo estratégico, também foi afastada.
Na prática, o núcleo técnico responsável pelo PIB foi esvaziado semanas antes da divulgação oficial, marcada para 3 de março. Um órgão de Estado ficou subitamente órfão de seus quadros mais experientes, sem explicações públicas e sem transição transparente.
A substituição ocorreu internamente, mas o problema não é o nome – é o método. Exonerações em série, no apagar das luzes, em um instituto cuja credibilidade é seu principal ativo, às vésperas da divulgação de números que são marcadores fundamentais para o Brasil, são escandalosas.
Dados econômicos só têm valor quando são confiáveis. O mercado, investidores e agentes econômicos não precificam discurso político; precificam confiança. E essa confiança, assim como a credibilidade, acaba de ser colocada em xeque.
O IBGE não é instrumento de governo, nem trincheira ideológica. Transformá-lo em um pardieiro aparelhado compromete não apenas um número, mas a credibilidade do país inteiro.