ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Esta semana que passou o Brasil comemorou seus 520 anos de descobrimento. Todos os alfarrábios, pergaminhos e papiros que se puder encontrar vão datar esse feito nesse dia. Até mesmo se sairmos, como Diógenes à busca de um homem, e perguntarmos a qualquer curiboca, respondem sem pestanejar: Foi Pedro “Arves Cabrá” no dia 22 de abril de 1500. Alguns historiadores apontam controvérsias nessa data, dando, inclusive que os primeiros a botar os pés na Terra Brasilis, foram os navegantes fenícios da Corte de Hirão, rei de Tiro, mil anos antes de Cristo.

Eu, particularmente discordo de todas essas versões, e quiçá, num futuro distante, mas bem distante mesmo, os historiadores me darão razão e esta gazeta será o centro das atenções. Mesmo havendo toda uma “história oficial” que imputa a “Arves Cabrá” a honra de ter descoberto o Brasil, não comungo dessa visão. Na verdade, o dia exato do descobrimento do Brasil eu não sei, mas posso dizer que o ano é o Ano de Nosso Senhor Jesus Cristo, no mês de março de 2020, e explico os motivos, e, coisa incrível, ajudado por um vírus. Isso mesmo, um ser que não se pode dizer que está vivo, ou não, encapsulado em um envelope de proteína e que possui, no máximo, oito moléculas de RNA, o Ácido Ribonucleico.

Essa é a data que, com certeza, o Brasil descobriu o Brasil.

O Brasil que discute se a melhor tecnologia de “infernet 5G” é a japonesa, ou a europeia, ou a norte-americana descobriu que existe um Brasil com mais de 40 milhões de pessoas que sabem o que é um telefone, ou mesmo um CPF, e se calou, pois os seus argumentos foram atropelados por um fato vergonhoso. O de haver quase quatro Bolívia, ou seis Paraguai dentro desta terra que não tem nada daquilo que eles discutem como sendo “o melhor”. E essa discussão fez um silêncio ensurdecedor, pois foi descoberto um Brasil miserável que mora em taperas, verdadeiras “bibocas de bosquímanos”, que “obra de coca” no meio do mato, ou na beira de “corgos” e rios, e depois bebe dessa mesma água, sem filtro, sem tratamento, sem esgoto.

O Brasil que decanta em prosa e verso de possuir o sistema eleitoral e de apuração de votos mais rápido e seguro do mundo descobriu um Brasil em que honra, lealdade, limites, moralidade, ética, altruísmo, solidariedade em política são palavras vazias e que não resistem a dez segundos de ambição por cargos e verbas públicas. Sir Winston Churchill dizia que a missão de todo estadista é trair. E nossos políticos traem, não a partir dessa visão de Churchill, pois faltam a eles um bem maior que justifique a traição e chegar ao posto de estadistas. Não são nem uma coisa, nem outra.

O Brasil descobriu que existe um Brasil encastelado em cargos eletivos que se dividem em correntes ideológicas de diferentes graus e que estão pouco ligando se há pessoas morrendo. O que importa é faturar o mais alto possível com a pandemia. Vê-se político da extrema esquerda, à extrema direita vociferar brados de luta pela patuleia, mas saírem do circo que eles armam e irem comer juntos, rindo e zombando da cara do Brasil que está passando fome. De ex-presidente ex-presidiário, a ex-presidente donatário de estado, a presidente que se comporta como um malabarista com granadas sem pino de segurança nas mãos, a ministros e secretários de Estado que se comportam como bonecos de mamulengo, todos, sem exceção, vivem nesse Brasil que ainda não descobriu aquele outro Brasil que trabalha, paga imposto e está morrendo em hospitais.

O Brasil que frequenta hospitais do tipo Rede D’Or, Sirio-Libanês e Israelita Albert Einstein descobriu que existe um Brasil com um sistema chamado SUS, e que foi louvado nesses trinta anos como fator de equidade na distribuição de saúde, estar ajoelhado por causo do velho amigo “calangovírus”, mesmo tendo baixo índice de contaminação e menor ainda, índice de mortalidade. Estados como Amazonas, Ceará, São Paulo e Rio de Janeiro tem menos gente com a gripe chinesa do que com sarna e tuberculose. Mas, sarna e tuberculose não geram “compras sem licitação”, então não vale a pena falar delas.

O Brasil descobriu que o Brasil que ensina como administrar o que é dos outros viu como governadores, ou postulantes aos cargos de governador, prefeito, deputados, ou vereadores, ou coisa que valha a pena que os mandatários que hoje, têm a caneta têm a competência de um louco de carteirinha, e que aquele discurso de “lutar pelos mais pobres”, “defender os direitos dos oprimidos”, etc, na verdade não passa de engodo, de safadeza para poder chegar aos cobiçados cargos e suas mamatas, e depois esquecer esse palavrório sem sentido.

O Brasil descobriu que existe um Brasil estatal que se importa mais com um pedaço de papel do que com uma criança morrendo sem atendimento médico enquanto suas entranhas são comidas por lombrigas, sua pele é devastada por sarna e seu estômago pela fome. E descobriu que esse mesmo Estado brasileiro que inventa mil lorotas para mais dinheiro tomar, é o mesmo que leva três semanas para avaliar se 600 reais está de bom tamanho para ser devolvido a quem não tem o que colocar na boca de seus filhos.

O Brasil que vota começou a descobrir que ele mesmo, votante, é quem tem sabotado, desde a época que “Arves Cabrá” chegou por aqui, o seu futuro e seu desenvolvimento. E vem descobrindo que tem idolatrado, reverenciado e paparicado aquele tipo de político que mais lutou pelo progresso do subdesenvolvimento e da miséria nacional, tomando o dinheiro dos desdentados e descamisados, que “obra de coca” no mato, para dar para aqueles que só andam de jatinho particular e nunca colocaram os pés nas taperas em que os primeiros vivem.

O Brasil natureba descobriu, finalmente, que leite não cresce em balcão refrigerado de supermercado e nem macarrão nasce nas gôndolas de massas das conveniências e “patissserie” das esquinas chiques dos bairros nobres. O espectro do desabastecimento e da fome, que já grassa nas taperas e choças dos miseráveis da nação começa a bater palmas nos portões de condomínios fechados e bairros nobres. Descobriu que a tal agricultura “orgânica” – como se todo produto que tem carbono em sua molécula não fosse orgânico – é uma farsa grotesca que, se implantada mataria todos os pobres do planeta de fome. E essa fome acabaria com eles mesmos sendo vítimas, já que não sabem a diferença entre um ancinho e um notebook.

O Brasil que gritava “pela liberdade do baseado”, “meu corpo, minhas regras”, “homo, hétero, bi, trans, ou porra nenhuma” tem o mesmo direito descobriu que as relações e perpetuação humana é mais complexa do que a satisfação de seus egos, e deixaram de olhar para o próprio umbigo e passaram a se ver como parte de uma humanidade que não tem fronteira, cor, sexo, nacionalidade, identidade, ou ideologia. Todos estão morrendo da mesma forma, afogados em seus fluidos que enchem os pulmões e os médicos e enfermeiros só podem olhar e se resignar com isso.

Os fieis do Brasil descobriram que existe um Brasil de charlatães, de milagreiros, de apóstolos da mentira e pregadores de falsidades. Cadê os milagreiros que curavam câncer, AIDS, ressuscitavam mortos, solucionavam problemas financeiros, prometiam casas, carrões, mansões, empresas? Estão todos quietos, com medo do “calangovírus”, debaixo de suas camas, pois suas mentiras foram expostas em praça pública. E foram reprovados no teste da fidelidade.

Mas, o Brasil também descobriu um Brasil empresarial que sempre foi acusado de ser ganancioso, sem coração, cruel, fominha, avarento, abrir suas burras empresariais e ajudar aqueles que mais precisam de ajuda, modificando a produção de suas fábricas para fornecer álcool, máscaras e equipamentos de proteção individual, além de construírem hospitais, doar alimentos e tempo para os demais, enquanto a classe política discute se, para devolver o dinheiro que a todo momento o Estado toma, na mão grande, do cidadão, este precisa ter o CPF regular, ou não. Além de ter descoberto também que existe um Brasil solidário, onde aquele que também tem pouco, divide esse pouco com quem nada tem, mesmo que seja um sorriso ele faz essa divisão

Todas essas descobertas trazem um ensinamento pedagógico que pode levar a um aprendizado duradouro e positivo para esta nação. Nação que acaba de ser descoberta, ou melhor, de se autodescobrir e, nessa descoberta quase diária, não está gostando do que está descobrindo. Torço para que esse o primeiro passo para uma mudança profunda e o país possa, finalmente encontrar o seu caminho de desenvolvimento.

2 pensou em “DESCOBRIMENTO

  1. Magnífico, Roque.

    Mas olhe, não é todo o Brasil que descobriu isso tudo não. Ainda tem muita gente fazendo força para manter os olhos fechados e acreditar que tudo isso que você falou é intriga da oposição.

Deixe uma resposta