CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Parecia uma baleia mostrando a cauda

No verão de 1974, 11 de setembro, através do Repórter Esso, edição matutina, da PRL-6 – Rádio Jornal do Commercio, se ouviu a notícia de que na madrugada chuvosa um avião de grande porte havia saído da pista, derrubara o muro e foi parar na Estrada da Batalha, no Recife, com sérias avarias, mas todos os passageiros se salvaram.

Estando de férias do Banco, peguei a bicicleta, mesmo com a placa vencida, pois nessa época todos os biciclos tinham que ter matrículas no Detran, como os demais veículos.

Mandei-me para a região do Ibura, deslocando-me pelos 6 km. da Avenida Mascarenhas de Morais, até as proximidades do Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife. Eu era aspirante a repórter do Diário de Pernambuco e vivia ansioso para dar um furo jornalístico.

Durante o trajeto fui pensando nas aulas de jornalismo que frequentei no Ginásio Pernambucano, as principais delas, versando sobre manchetes, legendas e as descobertas após as primeiras publicações, que poderiam conter assuntos importantes, depois do “furo” das primeiras notícias.

Sob a inspiração de repórter-investigativo, cheguei bem perto do acidente e me surpreendi com a brutalidade do desastre. Vi logo a parte alta daquele trijato da Varig e pedaços da fuselagem por todos os lados.

De início minha impressão de espanto, surpresa e lamento, sem entender o porquê da falha, quantos passageiros e tripulantes haviam escapado. Surgiram em mim, no silêncio da rodovia sem trânsito, os questionamentos.

Parecia a cauda de uma baleia, fora do mar. A aeronave não estava ainda isolada com aquelas fitas amarelas que costumamos ver em acidentes. Podia se chegar mais perto. Até tocar no avião, como se fossem todos os espectadores, chorar com aquela viatura feita para voar e pousar com a maior precisão.

Fui rodeando o avião, como quem fareja. Fui dominado por uma certa tristeza. Como aquele veículo tão grande e tão moderno que eu via sempre nas nuvens, poderia ter escorregado pela pista, furado o muro indo parar na Estrada da Batalha ?! Muitas dúvidas ainda sem respostas.

O “Repórter Esso” havia dado o “furo” através de um hábil “Repórter de Setor”, aquele que atravessa as madrugadas de plantão na Polícia, no porto e no aeroporto, mas caberia ao menino-repórter levantar os detalhes: as causas principais, os porquês, a falha mecânica e a Diógenes Montenegro acionar sua “Laica”, a fim de colher várias fotografias.

Para isso eu estava ali, pronto para a tarefa que Nilo Coelho, professor de jornalismo, me ensinara: descobrir os detalhes importantes ocorrido nos bastidores, depois do “furo”, após o acontecimento, documentar nas horas seguintes o que aconteceu: em suma, escavacar. Fazer o exame detalhado que as primeiras notícias não haviam ainda informando os leitores.

O boeing 727-100, prefixo PP-VLU esparramara-se, ocupando a estrada, de uma calçada à outra. Procurei ver o nome e o símbolo da aeronave, mas soube que haviam pintado os dois lados, para evitar a exposição do nome famoso: Viação Aérea Riograndense – VARIG.

Um trijato da Varig preparando-se para voar. Foto de Vito Cedrini.

Senti-me jornalista. Comecei a anotar alguns detalhes para compor minha reportagem, que poderia ser sensacional. Pedalei para o quartel da II Zona Aérea mas, ainda muito jovem, fui barrado na Portaria. Deram-me pouca importância porque estava sem a credencial. Notei que nada sobre o assunto poderia ali obter.

Toquei para o Hotel Boa Viagem, depois de ouvir dois vigilantes noturnos, responsáveis pela segurança de lojas, sediadas ali perto do aeroporto e pessoas de um prédio onde funcionava um departamento da Varig. No hotel tomei conhecimento de outros fatos não anunciados pelo noticiário radiofônico.

Durante o pouso sob forte chuva, baixa visibilidade e com a pista muito escorregadia o “bicho” passou direto pela cabeceira da pista do aeroporto, quebrou o muro e invadiu a área urbana.

O fato: o avião escorregou no final da pista, ao pousar, e foi parar sobre a antiga Pracinha da Madeireira, cruzando o acesso à avenida, que era a saída para a BR 101. Todos os 79 passageiros e 14 tripulantes escaparam apenas com ferimentos leves.

Curioso como todo repórter novo, fui ouvir meu amigo Avanildo Maranhão, presidente do Grêmio dos Funcionários da Varig, por qual razão pintaram o nome prefixo da aeronave, ao que ele me adiantou:

É uma prática comum na aviação comercial. Para mitigar danos à imagem, as equipes técnicas do aeroporto, pintavam o avião para apagar a logomarca da proprietária na fuselagem e a iniciativa ocorre logo nas primeiras horas após acidentes, para evitar fotos associando o nome das proprietárias aos acidentes.

Mesmo permanecendo no restaurante do hotel até quase meio dia, visando entrevistar alguns passageiros, não consegui e tive que ir para o jornal e escrever o que observei de mais importante. Jamais esquecerei daquela reportagem!

As imagens históricas mostravam a cauda característica, em “T”, do Boeing 727 atravessado no meio da estrada, cercada por curiosos, ciclistas e caminhões de carga que não puderam passar.

Meti o pé na bicicleta, fui pra casa tomar banho, me vestir feito gente e me mandei para a Redação do jornal, onde havia máquina de escrever. Meti os dedos no teclado, narrando tudo que vi e ouvi.

No entanto, o Redator-chefe já recebera oficiais da Aeronáutica para explicar detalhes do acidente, possibilitando que o noticiário fosse o mais aproximado da realidade possível e se evitasse especulações.

Escrevi três laudas e a manchete: Pássaro pintado pousa na Estrada da Batalha.

Mas a manchete não foi publicada daquela forma. Fiquei triste por que se tivesse aparecido meu nome e a poética manchete, acho que o relato do jornal teria sido menos dramático.

Mas, em alguns dos meus parágrafos foi publicado que parecia uma baleia em terra. Meu esforço pessoal valeu, porque consegui explorar direitinho as melhores histórias.

A operação de resgate foi feita no próprio local para retirar o avião da rua, pois ele não ficou simplesmente além do muro do aeroporto: sua posição comprometeu a passagem pela estrada, exatamente a única que, na época, dava acesso à saída Sul do Recife. A técnica das equipes foi importante, porque não foi fácil liberar a via e remover um avião daquele porte.

Ao que se sabe o avião foi totalmente recuperado no Recife e meses depois estava voando normalmente. Pouco se sabe a respeito do que apurou o setor especializado da Aeronáutica sobre a ocorrência, o que vale ser melhor explorado, noticiando-se os fatos depois do “furo” radiofônico.

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