CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Existem muitos talentos nordestinos fazendo artes pelo Brasil. Emigraram para ter sucesso no Sul Maravilha. Deodato, por exemplo, o maior escultor do Brasil, santeiro de alta cepa, Só tornou-se celebridade depois de se fixar em São Paulo

Meu amigo nasceu e se criou na Levada, tomou banho na lagoa Mundaú. Moleque andarilho na cidade de Maceió dos anos 40. Ainda menino, crescidinho, tinha apelido de varapau, por sua altura. Seu primeiro emprego, aos 12 anos foi no matadouro municipal como espantador de urubu. Passava o dia com uma palha correndo, enxotando urubus famintos nos restos de comida.

Despontou seu talento artístico nas brincadeiras. Deodato costumava moldar barro, construindo casinhas e bonecos. Certo dia foi vender sua escultura de barro na Feira de Passarinho, arranjou clientes e alguns trocados. Dr. Théo Brandão descobriu o menino escultor e incentivou-o a continuar seu belo trabalho em barro, depois esculpiu na madeira. Graças ao Dr. Théo seu trabalho começou a ser conhecido. Foi convidado para uma exposição em São Paulo, onde ficou. Foi entrevistado nos programas de TV, ficou famoso. Vez em quando retornava a Maceió, me procurava, eu amava as histórias de Deodato, sua maneira engraçada de conta-las.

Quando o Brasil entrou na II Guerra Mundial, Deodato prontamente se apresentou para lutar contra os Fascistas. Por sua infelicidade, aliás, felicidade, não foi escolhido pela Força Expedicionária Brasileira-FEB. Contudo, deixou seu nome na história do 20º Batalhão de Caçadores sediado em Maceió. Fez curso, foi promovido a cabo, ficou conhecido como Cabo Vareta, tornou-se uma lenda.

Durante a Guerra fez parte de um Pelotão Especial organizado pelo Sargento Madalena para patrulhar a zona do meretrício de Jaraguá. Resolviam os casos sem armas, acabavam brigas na porrada. Naquela época havia muitos soldados americanos destacados na base militar, os maiores encrenqueiros, mas, tinham medo do Pelotão Especial. Diz Deodato: “Dei muita porrada em americano folgado.”

Certa vez o quartel estava acampado perto da Lagoa Mundaú. Numa madrugada, Deodato e o soldado Zé Miguel estavam de serviço, faziam ronda numa noite escura de verão, Perto da margem da lagoa ouviram vozes, cantoria. Chegaram perto, era uma ladainha. As rezadeiras velavam o corpo de um rapaz afogado. Eles se aproximaram, foram recebidos pela família, tomaram alguns goles de cachaça. Zé ao verificar o sapato do morto ficou interessadíssimo, novinho em folha. Quando a reza acabou, os amigos do defunto se recolheram, ao amanhecer levariam o corpo para o cemitério, deixaram o cabo e o soldado à vontade. Zé Miguel ficou, de olho no sapato do defunto. Deodato continuou a ronda sozinho. Certo momento parou, ficou escondido atrás de um pé de pau, observando. Quando Zé Miguel iniciou a desatar o cadarço do sapato, Deodato atirou uma pedra, passou zunindo na cara do amigo. Zé ficou assustado, continuou a desatar o sapato. O cabo Vareta atirou outra pedra, acertou na barriga do defunto, Zé se assustou. Deodato lançou a terceira, a pedra maior apagou o candeeiro ao lado do corpo, Deodato aproveitou o escuro, gritou com voz cavernosa:

– Tire a mão do meu sapato cabra safado!!

Zé Miguel desembestou numa disparada sem parar, cabelos arrepiados. Uma hora depois Deodato chegou ao acampamento, perguntou com a cara mais lisa: “Que brancura é essa, Zé?”.

Zé Miguel estava ensanguentado, com o uniforme rasgado. Apavorado havia atravessado um obstáculo militar, cerca de arame farpado.

– Vareta, o defunto falou, me esculhambou!

Chorava o Zé ainda tremendo de medo, olhos arregalados.

– Bem feito, quem mandou mexer com almas do outro mundo!!!!

Disse Deodato, enquanto discretamente voltava para o local onde estava o velório vazio. Chegou sorrateiro, aliviou ο incômodo peso do sapato no defunto, experimentou.

– Era número 43, caiu como uma luva em meus pés.

Contou-me Deodato às gargalhadas. Saudades de meu amigo que hoje deve estar no céu esculpindo e os santos posando.

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