A postagem acima é de 31 de outubro, mas eu só a vi essa semana. A idade não altera o seu significado.
Nos primeiros tempos da internet, no século passado, um escritor americano chamado Mike Godwin criou o que ficou conhecido como a Lei de Godwin: “À medida em que um debate na internet prossegue, a probabilidade de que alguém faça uma comparação envolvendo Hitler ou o nazismo cresce até chegar a 100%.” Em pouco tempo, generalizou-se na internet a idéia de que quem recorre a este tipo de comparação está demonstrando não ter argumentos e deve ser visto como derrotado no debate.
Com a facilidade das redes sociais, esse tipo de consenso tornou-se impossível, até mesmo porque a grande maioria das pessoas que posta nas redes sociais não está interessada na opinião dos outros. Mas em se tratando de um jornalista com décadas de carreira como Kupfer, o apelo ao Reductio ad Hitlerum, como foi jocosamente batizado o ato descrido por Godwin, traz implicações importantes.
O senso comum predominante é que fascismo e nazismo são ruins. Compreensível, já que Itália e Alemanha perderam a guerra e a tradição diz que são os vencedores que escrevem a história. Menos disseminado é o fato de que Mussolini, na Itália, e Hitler, na Alemanha, chegaram ao poder de forma legal e democrática. Então, estaria Kupfer dizendo que não acredita na democracia? Ou afirmando que o povo não sabe escolher?
Provavelmente sim. Trata-se de uma “pirueta retórica” muito comum nos dias de hoje: a palavra “democracia” significa, literalmente, “poder do povo”, em contraste com “aristocracia”, que significa “poder dos melhores” ou “burocracia”, que significa “poder dos escritórios”. Mas nos dias de hoje estamos mais interessados em narrativas do que em fatos, e tornou-se trivial “ressignificar” as palavras, substituindo seu significado original por outro, geralmente carregado de influência ideológica.
Assim, a palavra “democrático” deixou de indicar um sistema de governo e transformou-se em um elogio universal, uma característica quase sagrada e que não pode ser questionada. Se algo é democrático, é porque é bom, é justo, é correto, é – repito – inquestionável. Só que esse “democrático” não tem nada a ver com o povo.
O povo não foi consultado sobre um fundo eleitoral de seis bilhões, mas falar mal dele é antidemocrático. O povo também não é a favor dos milhares de salários acima do teto constitucional ou dos milhares de cargos inúteis e bem remunerados distribuídos aos parentes e amigos dos políticos, mas questionar isso também é antidemocrático. E por aí vai. Todo mundo defende a democracia, desde que ela não obedeça à vontade do povo. Afinal, o povo não sabe escolher, não é mesmo?
Ao mesmo tempo, todo governo, por pior que seja, tem seus simpatizantes, que têm se tornado cada vez mais parecidos com torcidas de futebol; para estes simpatizantes-barra-torcedores, tudo que o governo fizer está certo e quem discordar é antidemocrático. A cada dois anos temos eleições e assim a cada dois anos, com a troca de alguns políticos, o que era correto e democrático pode virar errado e antidemocrático. E assim continua a briga entre torcidas adversárias, todas brigando por uma palavra que na verdade ninguém sabe o que significa.
P.S. O tema deste pitaco foi escolhido (também) por uma razão histórico-sentimental. Vinte e tantos anos atrás, quando a internet estava nascendo, havia um portal chamado No Mínimo, onde José Paulo Kupfer era um dos colunistas. Certo dia ele resolveu “abrir um espaço” para os leitores publicarem suas idéias e o primeiro a aparecer foi justamente esse pitaqueiro que vos fala. Foi a primeira vez que alguma coisa que eu escrevi foi publicada na internet.

Texto muito bem escrito, bem argumentado e trazendo uma visão espetacular sobre a democracia.
Traz ao sujeito a compreensão que nem tudo que é escolhido na democracia pode ser bom.