MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Dizia Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você quer mandar em mim.” Ao que parece este é o lema que atingiu países da América do Sul e Central nos últimos 40/45 anos. Anastácio Somoza, então governante supremo da Nicarágua, foi o último dos integrantes da família Somoza a governar o país, coisa que se arrastava desde 1936. Embora seu governo estivesse envolvido em corrupção – ele próprio foi acusado de desviar dinheiro que seria usado para reconstrução de Manágua que havia sido abalada por um terremoto que deixou 10 mil pessoas mortas – o governo contava com o apoio dos Estados Unidos e quando Jimmy Carter assumiu o governo americano, condicionou este apoio à observância dos direitos humanos.

Somoza, no ano de 1979, devido ao avanço das forças sandinistas que tinha Daniel Ortega como um dos líderes, renunciou à presidência e fugiu para Miami em busca de asilo político, mas foi no Paraguai que ele encontrou abrigo e em setembro de 1980, o carro no qual ele estava foi atingido por um tiro de bazuca, matando-o. O movimento sandinista foi louvado numa música de Ivan Lins: “na Nicarágua, capital Manágua…”

Naquela época, muitos jovens acreditavam que o caminho mais fácil para redemocratização dos países era através da luta armada e as pessoas acreditavam – pelo menos, eu – que tais revoluções tinham por objetivo principal a condução do povo para uma sociedade justa, livre, com saúde, educação e segurança para as pessoas. O fato é que todo “revolucionário” acabou se tornando um ditador. Foi assim em Cuba, quando Fidel Castro e Che Guevara implantaram a revolução e promoveram prisões e mortes de qualquer um que se colocasse contra o novo regime.

A Venezuela começou com Hugo Chavez. Primeiro assume um mandato de 6 anos e depois muda a constituição para permitir reeleição. Um pouco depois, outra emenda constitucional para referendar que não haveria limites para reeleição e ele só foi freado por um câncer devastador, mas Nicolás Maduro deu segmento a este tipo de prática. Até o momento, o que se percebe é que a chegada ao poder de um salvador da pátria implica na permanência dele no poder. A coisa é mais ou menos assim: ou eu governo ou os destruidores do país, voltam.

O bravo Ortega, que salvou o povo nicaraguense, fechou igrejas, prendeu religiosos, calou a imprensa, prendeu opositores ou pessoas que fizessem quaisquer denúncias em organismos internacionais. Esta semana, Ortega declarou que não haverá eleições para que não se corra o risco de a oposição ganhar. Eu creio que isso tem uma conotação fora do comum, tipo aqueles casos de violência contra a mulher no qual o cara diz “se não for minha, não será de mais ninguém.” Não se dá a população o direito de escolher. Em outras palavras: a população deve agradecer por ter um líder dessa natureza no poder. Um líder tão capaz que cancela eleições para eliminar a possibilidade de o povo escolher outro presidente.

Cada vez que vejo ações dessa natureza, entendo que a democracia é um conceito frágil, adaptável, que atende um grupo político e que oprime que está fora dele. Agora, o que mais me impressiona é a leniência da população. Se a maioria da população é contra um determinado governante, por que simplesmente não o tira? O que fizeram com Kadafi e Ben Ali, mostra que a população enfurecida pode provocar reações inimagináveis. Eu prefiro as ações negociadas, mas anos e anos de opressão geram um estopim fácil de explodir.

O conceito básico de democracia, trata da alternância do poder. E não se trata apenas de trocar um cara de um partido por outro cara do mesmo partido. Não se trata de perpetuar um partido no poder de modo indefinido, até mesmo pelo fato de não se ter quadros suficientes para esse tipo coisa. A alternância precisa ser de ideias, de propostas, de metas, de programas diversos.

A revista The Economist, calcula um índice chamado “índice de democracia” que se baseia em cinco critérios: processo eleitoral e pluralismo, funcionamento do governo, participação política, cultura política e liberdades civis. Atribui-se uma nota de 0 a 10 a cada item e pondera-se para determinar o índice. A Noruega, por exemplo, tem nota 9,81 e o Afeganistão, 0,26. Com notas maiores ou iguais a nove, tem-se: Nova Zelândia, Islândia, Dinamarca, Suécia, Suíça, Finlândia e Países Baixos.

Nesse ranking, o Brasil ocupa a 57ª posição com nota 6,49 e caiu 6 posições. Das notas atribuídas aos itens, 6,11 foi a maior. Acima do Brasil, há países com representatividade econômica menor. Somos considerados uma democracia imperfeita. Nesse contexto, me digam por favor, o que danado significa defesa da democracia.

8 pensou em “DEMOCRATA, MA NON TROPPO

    • Ah! Millôr!!! Quando Ziraldo perguntou porque ele não deu entrada nos papéis para receber a grana do governo para os revolucionários, ele respondeu: “eu pensei que a gente estava fazendo uma revolução, não um investimento.”
      E quando perguntaram o motivo da zanga com Chico Buarque, ele respondeu: “Não nada contra Chico Buarque. O que me incomoda é quando se ganha dinheiro com o seu ideal”

  1. Meu caro Assuero e seus ótimos textos. Hoje para quem tenha pelo ao menos dois neurônios, sabemos o estamos vivendo de 2019 para cá. Se depender do sistema, o gambá de caetés, seu caixão sairá de dentro do palácio, pois com ele tudo que cada dia piora, para um certo seguimento tem a certeza que seu bem estar não sofrerá nenhuma mudança, triste país. Abraços!

    • Xavier, muito obrigado pelo carinho de sempre. Eu penso que a gente não pode deixar a coisa depender do sistema. Precisamos reiniciar como fazemos com o computador quando dá pau.

  2. Professor. – Mais uma aula de História, com senso de jornalismo; mas, principalmente, o desejo de mostrar a realidade brasileira de forma penetrante.

    É realmente impressionante constatar o que você diz:

    “O que se percebe é que a chegada ao poder de um salvador da pátria implica na permanência dele no poder. A coisa é mais ou menos assim: ou eu governo ou os destruidores do país, voltam.”

    Bem que esse doido que está voando pelo mundo às nossas ustas e, eventualmente, senta-se na cadeira presidencial brasileira, poderia ser um “Sasá Mutema” o inocente personagem da novela, que desejava ser o “Salvador da Pátria”, mas seguindo a lei!

    Mas, sob este buruçu que estamos vendo e sofrendo, só com a ajuda de “braço forte e mão amiga”, como o slogan de nossas “Frouxas Armadas”, sairemos desse buraco.

    Mas isto fará parte de um novo capítulo do livro que, sabemos, você publicará. Por hora, com minhas forças diminuidas, em face dos 90 anos bem vividos – sendo 63 de jornalismo – só me resta o comportamento de boi manso, como um “Boia fria”, porque ir para as ruas parece que em adianta mais.

    Aquele abraço do seu leitor constante e sempre fascinado por suas notas,
    Carlos Eduardo

    • Carlos, eu fico muito feliz com suas palavras. Minha competência na área é infinitamente menor do que a sua. Você produziu e produz, do alto dos 90 anos, textos memoráveis. Observe o quanto tudo é isso é preocupante: 90 anos bem vividos e onde está Sassa Mutema?

  3. “Não sei se é fato ou é fita, se é fita ou é fato… O fato é que Mauricio me fita, e eu o fito de fato!”
    Vámonos Tesoro, no te juntes con esa chusma de dictadores.
    Meu Tesoro Assuero, como aprendo com seus textos…
    ¡Qué cosas! ¿No?
    Diria euzinha: A apatia que atingiu os povos dos países da América do Sul e Central/Caribe nos últimos 67 anos (a longeva ditadura cubana surgiu em 1959). Deixa-me boquiaberta como “la gente” de tais rincões é tão passiva, tão complacente, tão gado indo para o abatedouro da extrema-esquerda. É de “cair o cu da bunda”, meu caro Assuero.
    Pasma e torcendo por dias melhores, fico aqui torcendo para a queda de ditadores e aspirantes a tal.
    Aquele beijo estalado (estralado) na bochecha envia sua leitora constante e sempre fascinada por seus textos produzidos por, pelo menos os dois neurônios que tenho certeza possuis.
    Possuidora de apenas unzinho (Tico sem Teco), sigo aprendendo com os maiorais do JBF.
    Beijo, beijo, beijo…

    • Minha cara Matilde, fico ancho, como diz Berto, com esse beijo estalado. A coisa é sempre assim: vem uma revolução, um partido domina o país, limita as liberdades, o povo empobrece e o líder da revolução fica rico. Ainda ontem, vi um vídeo onde Kennedy, se referindo ao muro de Berlim, dizia: “o melhor sistema de governo é a democracia, mesmo com suas imperfeições. Não podemos imaginar um muro que proíba o cidadão de sair de onde está”.

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