DEU NO JORNAL

Francisco Razzo

Lula participa do congresso da UNE, em Brasília em 13 de julho de 2023.

Lula participa do congresso da UNE, em Brasília em 13 de julho

Em eleições para presidente, a narrativa criada pelos petistas é a de que só Lula, e mais ninguém, unificaria e pacificaria o país depois do pesadelo Bolsonaro. “União e reconstrução”, dizia o slogan de campanha. Nas redes sociais, a expressão “o amor venceu” inundou postagens de uma esquerda que não teme mais dizer o seu nome.

Depois da vitória petista, a expressão “o amor venceu” tem sido adotada para satirizar o método de perseguição, que não prescinde de apoio institucional, contra tudo aquilo que não é espelho da esquerda petista. Ciro Gomes que o diga. Durante a campanha, sua reputação foi devidamente destruída por tal amor reconciliador. Se são capazes de fazer isso com os amigos, imagine a disposição para redimir inimigos? O amor petista não abre mão da política como guerra por outros meios. Trata-se, como já escrevi aqui, de uma forma muito específica de democracia domesticada. Nada há mais ingênuo do que cair nesse tipo de retórica.

A paz imaginada pela atual esquerda no poder é uma paz que só faz sentido com a ideia de que o inimigo precisa ser identificado, perseguido e destruído. Infelizmente, essa forma de se fazer política não é privilégio da esquerda no poder. Entretanto, o que chama atenção nesta esquerda no poder é o caráter vingativo. A política como vingança não é novidade no mundo político. A novidade, no nosso contexto, é o apoio social, institucional e até midiático que esta esquerda recebe para identificar e caçar suas bruxas. Mesmo depois de derrotar Bolsonaro nas urnas, a impressão que fica é de que Lula não descansará enquanto não expurgar o país do bolsonarismo. O problema é o que ele entende por “bolsonarismo” e, a partir disso, o que estará disposto a fazer para destruí-lo.

Em recente pronunciamento durante o 59.º Congresso da União Nacional dos Estudantes, Lula afirmou que os presentes “conheceram em quatro anos o nazismo e o fascismo e viram como pode-se destruir a democracia neste período”. Não citou Bolsonaro, claro. O recado fora dado com clareza:

“Voltei à Presidência pela luta de vocês junto a mim, para recuperarmos este país. Vocês precisam compreender a importância da democracia. Vocês conheceram, em quatro anos, o nazismo e o fascismo. Viram como pode-se destruir a democracia em quatro anos. Aprendemos que a democracia pode não ser a coisa mais perfeita, mas não há nada como ela, em que podemos ver a pluralidade. É na democracia que vemos as manifestações. Voltaremos a fazer mais escolas técnicas, laboratoriais e universidade.”

Para ser democrática, a experiência política precisa incorporar em seu interior a dissidência e o contraditório. O bolsonarismo já foi vencido nas urnas. O que mais o petismo deseja? Minha pergunta aqui foi retórica. Eu sei o que o petismo deseja.

Recentemente, terminei de ler o excelente O império do politicamente correto, do filósofo canadense Mathieu Bock-Côté. Para termos uma visão mais ampla do que está acontecendo no mundo das ideologias, eu recomendo muito a obra. Nas últimas páginas, Bock-Côté traz uma visão muito boa a respeito do valor genuína da democracia. Reproduzo na íntegra:

“A democracia não poderia prescindir do conflito, mas deve civilizá-lo, a fim de torná-lo criativo. A conversa cívica não é uma simples discussão civilizada, e quem sonha em reduzi-la a isso quer na realidade torná-la asséptica. Alain Finkielkraut nos põe na pista correta: ‘deixei de conceber a política como um face a face entre a humanidade e seus inimigos’. Toda a genialidade da democracia liberal consiste em evitar a conversão do adversário em inimigo. Não se deve descartá-la, e sim restaurá-la. Seria preciso reaprender a refletir sobre um conflito político real, substancial, e até passional, mas emancipado do imaginário da guerra civil e capaz de levar os homens a prosseguir, apesar de tudo, a obra comum que torna possível a comunidade política.”

Na verdade, o maior risco para a democracia consiste em identificar adversários políticos como a encarnação do mal absoluto. No imaginário público, os termos “nazismo” e “fascismo” se referem à presença desse mal, e a banalização desses termos se presta justamente a esse propósito. Por esse aspecto, quando Lula ataca seus adversários como “fascistas” e “nazistas”, ele não defende a democracia – ao contrário, ajuda a intoxicá-la.

3 pensou em “DEMOCRACIA INTOXICADA

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