É atribuída a Henry Ford a frase “Se um dia as pessoas entendessem o sistema monetário, uma revolução começaria na manhã seguinte”.
Se as pessoas não entendem, isso certamente não é acidental. É necessário para que banqueiros e políticos possam continuar fazendo o que fazem, e existe todo um sistema encarregado de manter essa situação, do qual fazem parte a imprensa, a escola, o mundo acadêmico e as celebridades em geral. Esse sistema substitui idéias por dogmas e coloca narrativas no lugar dos fatos.
Uma destas narrativas, e uma das mais prejudiciais, gira em torno das palavras “inflação” e “deflação”. A segunda é vista como um perigo assustador. A primeira, como um perigo menor, que não traz grandes males se for pequena e controlada pelo governo.
Isso é totalmente falso. O governo é a causa da inflação, não a cura. Ao criar dinheiro do nada, o que eles não deveriam ter permissão para fazer, os governos desequilibram a relação oferta-demanda da moeda e causam a sua desvalorização. É o mais perverso dos impostos: de um lado criam uma fonte quase infinita de dinheiro para gastar, de outro lado desvalorizam as contas que devem pagar ao mesmo tempo em que valorizam os impostos que arrecadam e que são calculados pelo preço de mercado. A inflação é tão boa para os políticos que praticamente nenhum país vive mais sem ela. Alguns ainda mantém a “produção” de dinheiro em níveis baixos, o que os faz menos errados mais ainda assim errados. Outros já perderam a vergonha e inflacionam o quanto lhes dá na telha, geralmente de forma cíclica em função das conveniências eleitorais.
A ironia nisso tudo é que para tornar a inflação menos assustadora aos olhos do povo, a máquina de propaganda decidiu dizer que o contrário, a deflação, é um perigo maior e que deve ser evitado a qualquer custo. As pessoas acreditam sem questionar e se sentem seguras ao ouvir o governo dizer que está se esforçando para “manter a inflação dentro da meta”, como se fosse moralmente possível ter uma meta de inflação que não seja de 0,00 %.
Desde que a humanidade descobriu o poder da tecnologia e os ganhos de eficiência possíveis com a divisão do trabalho e a especialização, a diminuição de preços tornou-se algo natural. O progresso consiste basicamente em produzir mais por preço menor. Coisas que eram artigos de luxo no passado, privilégio dos mais ricos, hoje são acessíveis a todos.
Dados do governo dos EUA mostram que nas três décadas entre 1870 e 1900 os preços ao consumidor caíram 47% e a economia cresceu em média 4,5% ao ano, o que mostra que deflação não tem nada a ver com recessão ou crise. Claro que naquela época o governo não inflacionava o dinheiro, que tinha valor fixo em ouro (e um grama de ouro custava menos de um dólar, enquanto hoje custa mais de 150).
Ainda sobre ouro, uma curiosidade: em 1926 um Ford modelo T custava 360 dólares, o que equivalia a 540 gramas de ouro. Hoje, 540 gramas valem 80.000 dólares, o que dá para comprar (lá nos EUA) três Honda Civic zero km. Ou seja, em ouro, o preço dos carros deflacionou bastante nos últimos cem anos, mesmo com os carros de hoje sendo muito mais sofisticados que um modelo T. Nos inflacionados dólares, o preço subiu 7000%. No Brasil, apenas de 1980 para cá a inflação já acumulou 97.498.392.029.617,90%, segundo o site do IBGE.
Do mesmo jeito que a linguagem politicamente correta finge solucionar um problema chamando favela de “comunidade” e mendigo de “morador de rua”, o economês diz que o Banco Central faz “política monetária” quando na verdade o que ele faz é pura e simplesmente imprimir mais dinheiro e causar mais inflação. É curioso que mesmo jornalistas sérios acreditam (ou fingem acreditar) que o BC é um remédio quando na verdade ele é a origem da doença. É verdade que sem um BC o governo pode inflacionar a moeda do mesmo jeito, é só uma questão de organograma.
Em resumo, se voltássemos a ter moeda não-inflacionada como no passado, o progresso tecnológico se encarregaria de fazer os preços baixarem continuamente. No sistema econômico de hoje, o governo se apropria desses ganhos através da desvalorização proposital da moeda, enquanto o povo acredita que ele nos protege de ver as coisas ficarem mais baratas.