JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Homem vestindo linho puro

“As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar

Hoje à noite, namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo ainda era flor”

Fortaleza, capital cearense. Anos 50 e 60. Juventude de comportamento efervescente que funcionou como rastilho de pólvora e acabou “provocando” o governo do regime militar – diferente da juventude de hoje, um alto percentual de baitolas, drogados e tatuados. Incapazes de perceber a vida presente e futura que lhes rodeia. Um dia o boleto chega, e exigirá pagamento.

Bailes noturnos, festas, tertúlias animadas por Ivanildo e seu conjunto e Sávio Araújo – que nos remetia aos tempos de Paulo Moura, Louis Armstrong e, vez ou outra, Cauby Peixoto procurando a Conceição. Até hoje não foi encontrada. Provavelmente está na ZBM ou comendo fava rajada na feira de Casa Amarela.

Os jovens aderiram à moda das calças Lee (tinham que ser importadas, por valorização e imposição da moda vigente) e vestiam camisas sociais “volta ao mundo”, mangas compridas. Como ainda não aparecera o desodorante, os meninos usavam talco Cashemere bouquet nas axilas – e aquilo, quando o corpo suava com a movimentação do corpo dançando “oh, cupido, vê se me deixa em paz, oh, oh”, aparecia a lama e manchava a camisa. As moças, usando vestidos elegantes sem mangas, mostravam o lamaçal feito pelo suor descendo do sovaco.

Longe dali, nos SECAIs ou no Romeu Martins da vida, ou, ainda, nos luxuosos salões do Ideal Clube e do Náutico, orquestras refinadas tocavam até tango argentino.

Rapazes vestiam camisas sociais, de linho puro.

Camisa lavada pela manhã, com o acréscimo do anil e do grude de goma. Colarinho caprichado. Exageradamente bem passada, a ponto de transformar qualquer jovem num príncipe das Astúrias.

Transporte: Aero Wyllis ou Fusca. O Jeep nem tinha o privilégio do estacionamento nas dependências do clube. A Vemaguette, pelo barulho provocante saído do cano de descarga, era inoportuno. O carro da moda era o Simca Chambord.

Aquelas noites….. deixemos pra lá, né!

Saudade também mata – e os modernos resolveram rotular de depressão.

Depressão, uma porra!

Vivência. Prazer de relembrar as coisas boas vividas.

Depressão é viadagem de quem nunca comeu mucuim de galinha e os dois pés da mesma galinha, com a mão e lambendo dobrinha por dobrinha dos ossos.

3 pensou em “DE LINHO, NO ANIL E NO GRUDE

  1. Prezado ZéRamos, só quem viveu os anos 60 em Fortaleza é capaz de entender esta bela fase de nossas vidas, você descreve de forma lírica o que éramos, na forma de vestir (camisas engomadas e secadas no quarador coberto de folhas de coqueiro), confesso que não lembrava do Romeu Martins, as matinais nos clubes da orla ferviam, além das camisas volta ao mundo, tinham também as banlon e sandálias japonesas. O carro, era um jipe DKV Modelo Kandango(motor dois tempos) sempre com excesso de passageiros, tatuagens, só em marinheiros e ex-presidiários Que bom que vivemos estes tempos!

    • Marcos, obrigado amigo e conterrâneo. Você teve a sorte da viver a vida simples e honesta. Deus continue nos abençoando para que possamos transmitir aos que vieram depois, a felicidade da vida.

  2. Pingback: BONS TEMPOS | JORNAL DA BESTA FUBANA

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