JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A história todos conhecem. Reunidos em Socó de Judá, cada qual em uma colina no vale de Elá, estavam filisteus e, com tropas menores, israelitas. A guerra estava por começar. Foi quando o campeão dos filisteus desafiou Israel para combate individual, com a vitória de um significado qual exército se tornaria servo do outro.

Esse guerreiro era Golias (em hebraico exilado), da cidade de Gate, com cerca de 3,51 metros (6 côvados e 1 palmo) de altura. Usava malha de bronze que pesava 57 quilos (5 mil ciclos), caneleiras de bronze, um grande escudo e lança cuja ponta pesava 6 quilos.

Por estarem com medo, todos os soldados, seu opositor acabou sendo Davi ‒ um jovem pastor ruivo e mirrado, irmão mais novo de Eliabe, Abinadade e Samá. Recusou a armadura que tentava o rei Saul lhe por, dado que com ela quase não podia se mover. Indo, ao combate, armado só com seu cajado e uma funda, a mais primitiva das armas de arremesso da humanidade, que usava no pastoreio contra leões e ursos que ameaçavam suas ovelhas; além de 5 pedras lisas que apanhou num rio próximo e guardou no alforge.

Ao se aproximarem, Davi usou sua atiradora e atingiu Golias de tal modo que a pedra ficou encravada em sua testa. Caindo, esse gigante, com a face na terra. Mas ainda vivo. Por pouco tempo. Que Davi usou então a espada, que tinha na cinta o gigante, cortando sua cabeça. E, com ela, entrou triunfante em Jerusalém. Mais tarde governou Israel por 40 anos, sendo sucedido por seu filho Salomão, mas essa é outra história.

Uso essa quase parábola ao refletir sobre a Copa do Mundo. Porque vimos jogos que lembravam o que aqui se contou. Com seleções que, por dinheiro e tradição, eram gigantes como Golias. Enquanto outros países, pequenos Davis, ali estavam apenas pela honra de defender suas bandeiras, o que os tornou muito especiais.

Para uma ideia das distâncias, o prêmio que Cabo Verde concedeu ao goleiro Vozinha, por sua participação na Copa, foi de apenas 10 mil dólares (dos quais 5 mil logo doados para instituições de caridade).

Só que, diferente da história bíblica, os fortes aqui vencem (quase) invariavelmente. No jogo contra a Argentina, o Egito teve anulado gol pois seu jogador teria pisado, 3 minutos antes, no pé de um argentino. A mesma jogada que já antes havia acontecido, umas 40 vezes, e nem faltas foram marcadas.

Em outro jogo, a Suíça empatava com a Inglaterra. Dominava e todos sentiam iminente o gol da vitória. Até que, em jogada no meio do campo, um jogador suíço se jogou no chão. Longe da área, sem perigo de gol, a bola já saindo pela lateral. E foi expulso. Por simulação. Dá para acreditar? O sistema é forte. Duvido que decisões como essas acontecessem no sentido contrário. Em favor dos Davis, contra os Golias.

Comparando com o Brasil, e para ficar só em um exemplo, nosso Supremo é guardião da Constituição. Deveria ser. Mas vejam o que diz o art. 37, XI: “A remuneração… da administração pública… não poderá exceder o subsídio mensal dos ministros do Supremo”. Pode haver dúvida? Quem quiser enriquecer, vá para a iniciativa privada.

Pois bem. O Supremo acaba de autorizar penduricalhos corporativos em até 35% a mais que esse limite. Mas, se era limite, como pode ser ultrapassado? E a Constituição?, senhores. Que se lixe!, parecem sugerir, com suas decisões monocráticas, nossos bravos ministros. Tornando atual a frase de Valery (Caderno B), “O poder sem abuso não tem charme”. A turma de Golias por aqui se considera virtuosa, invulnerável, eterna e onipotente. Deus, que protegeu Davi, tenha pena dos brasileiros.

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