JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Em 07/02/25 o eminente articulista do Jornal do Commercio (Recife), Igor Maciel, escreveu coluna sobre o mito grego de Sísifo ‒ que empurrava grande pedra até quase o topo de um monte para vê-la rolar, depois, ladeira abaixo. Obrigado como castigo a fazer isso, todos os dias, até a eternidade.

Na parábola de Igor, Sísifo seria nosso (então) ministro da fazenda, Fernando Haddad, com sua reiterada promessa, aos anjos, de cortar gastos em um governo perdulário que está se lixando para isso. Seguindo nessa trilha da mitologia grega, lembro também Cronos, filho mais novo de Urano (o céu) e Geia (a terra), pertencentes à primeira geração dos deuses ‒ anteriores, portanto, aos Olímpicos.

Senhor do Tempo (daí vem cronômetro), e Rei dos Titãs, podia tudo. E desposou Reia, uma irmã. Ocorre que seu pai, Urano, previu que seria destronado por um de seus filhos. Como acontecera com ele, a seu turno destronado pelo filho Cronos. Razão pela qual, para evitar perder o poder, passou Cronos a devorar todos os filhos que teve, à medida em que iam nascendo.

Até quando Reia, gravida de Zeus, desejou ter um filho que permanecesse vivo. E decidiu parir bem longe de casa, em Dicter. Depois, envolveu uma pedra em panos que Cronos engoliu pensando ser seu filho recém-nascido.

O final dessa lenda é que, adulto já, Zeus levou Cronos a beber uma droga que fez devolver, ao mundo, todos os filhos que tinha devorado antes – Héstia, Deméter, Hera, Plutão, Posseidon. E estes juntos, confirmando o vaticínio de Urano, acabaram derrotando o pai cruel.

Voltando ao Brasil, por aqui esse mito dos caudilhos soberbos existe por toda parte. Vamos a só dois exemplos, em Brasília. Primeiro é Lula da Silva. Nenhum filho ou agregado teve, tem, ou algum dia terá vez como seu herdeiro político. E ninguém jamais vai prosperar, no seu espectro. Como Átila o Huno, conhecido como O Flagelo de Deus, o chão em que pisa não nascerá mais grama.

Foi candidato três vezes, antes de ser presidente; e, em todas elas, acabou derrotado. Sem sequer admitir que algum companheiro de partido pudesse pensar em disputar seu lugar. Como ele perdeu, outro poderia ganhar. Que nada… A vez era dele e de mais ninguém. Até que veio 2002 e, enfim, teve sucesso (repetido em 2006).

Já na eleição de 2022, precisou que o Supremo o descondenasse para ser candidato. Algum dia, professores de Direito tentarão (vai ser difícil) explicar a seus alunos como se deu isso. Apesar da idade avançada, ou por pressão de sua jovem consorte, nem passa por sua cabeça ver algum outro personagem candidato em seu lugar. Ou ele ou o dilúvio.

Do outro lado, acontece a mesma coisa. Bolsonaro, preso, não pode ser candidato. Sabia, era evidente, que a oposição ao PT poderia ganhar a eleição de outubro. Com um nome novo, claro, escapando dessa radicalização agônica, insensata e triste que hoje degrada e deprime a política brasileira.

Há 5 governadores bem avaliados, na oposição, que poderiam ser esse candidato (de Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e, mais óbvio de todos, São Paulo). Escolhesse qualquer um, e a chance de ganhar seria enorme. Que nada…

Prefere disputar com um filho, Flávio. Egocêntrico, e mesmo perdendo, em sua visão obliterada vai sair ganhando. Com votos, dados em seu sobrenome, como um espólio, a ser depois usado em favor dele (ainda sonha com isso) ou alguém da família.

Resumindo, amigo leitor, mitos gregos como os de Sísifo ou Cronos aqui estão para nos ensinar. E nem sempre tendo final feliz. Como o dos que sonham com uma terceira via, longe do fel de nossa vida pública atual, e vão ter que esperar para outro dia. Num futuro incerto, que poderá vir ou não.

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