FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Nos meios universitários, os posicionamentos e análises docentes e discentes devem ser expostos das formas as mais diferenciadas, desde que possibilitem a ampliação da consciência crítico-construtiva dos envolvidos. Os alunos, na grande maioria ainda quase adolescente, portadores de ousadias múltiplas, sonhos desmedidos, egolatrias narcísicas e um só-eu-salvarei-o-mundo quase sempre refletido em barzinhos de musiquinha para brothers, muito ampliado após duas boas lapadas de uma caipirinha porretamente acompanhada de um tira-gosto frito em óleo às vezes já saturado.

Entretanto, diante de uma crise universitária que persiste há mais de uma década, onde professores insatisfeitos, em inúmeras instituições públicas, já superam mais da metade do quadro docente, já é de percepção fácil a substituição daquela postura acadêmica lucidamente crítica por raivosidades esquerdeiras ou por justificativas liberais petrificadas, ficando os distanciados dos patológicos extremos numa situação incômoda, como se estivessem em cima do muro, buscando agradar simultaneamente Deus e o diabo.

O binômio causador dos posicionamentos extremistas – individualismo de intelectual todo liberal x submissão a uma partidocracia hierarquizada por palavras de ordem e colocações estapafúrdias – indica claramente uma fase de transição nacional, um período que deverá ser longo, certamente caótico e ultra-incerto. Tudo provocado pela ausência de dois indispensáveis insumos: bom senso analítico e cultura humanística bem consolidada.

Outro dia li um ensaio de James Petras, autor de nomeada, com alguns livros já traduzidos no Brasil: Brasil de Cardoso: a Desapropriação do País (Vozes) e Armadilha Neoliberal e Alternativas para a América Latina (Xamã) são dois deles. Encartado no volume Combates e Utopias, Record 2004, organizado por Dênis de Moraes, o título de um texto é por demais oportuno: Os Intelectuais de Esquerda e sua Desesperada Busca por Respeitabilidade. E ele não titubeia quando identifica quatro estratégias de carreira das proclamadas mentes progressistas: 1. abordagem de conservação a frio, mantida a discrição por muitos anos para adquirirem prestígio e estabilidade, quando se tornam radicais; 2. aquisição de uma aura de prestígio através da combinação pesquisa convencional e magistério com horas de papo radical após expediente; 3. utilização de esforços desproporcionais entre trabalho acadêmico convencional e escassa dedicação intelectual aos movimentos populares; 4. postura de desempenho acadêmico desinteressado, divorciado de lutas, movimentos e compromissos políticos. E o Petras vai mais fundo: é impressionante, nos chamados intelectuais esquerdeiros, “a suspensão de críticas aos patrocinadores, fundações e personalidades burguesas que financiam amplas agendas de pesquisa para perpetuar e estender o poder imperial”.

Bom demais para todos seria a leitura do livro de Paulo Freire Pedagogia da Autonomia, onde ele proclama que ensinar possui uma série de exigências: a da rigorosidade metódica, a da pesquisa, a do respeito aos saberes do educando, a da criticidade, a da estética e ética, a da corporificação das palavras.

Ensinar, segundo Paulo Freire, exige risco, aceitação do novo, rejeição às discriminações, reflexão crítica sobre a prática, bom senso, curiosidade, apreensão da realidade, alegria e esperança, além da convicção de que a mudança é possível. Além de saber escutar, disponibilidade para o diálogo e um imenso querer bem para com os educandos, sem populismos nem dogmatismos cavilosos nada convincentes para os que sabem pensar..

Perceber-se sempre inconcluso já é um grande passo. Reconhecer-se uma metamorfose ambulante é compreender-se ainda mais docente. Endurecendo às vezes, sem perder a ternura jamais.

PS. Para a educadora Edla Soares, admiração minha de longa data, competência, compromisso e alegria, o abraço fraternal, sempre recheado de muita estima fraternal.

3 pensou em “CRITICIDADE E PARANÓIA

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