MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Já algum tempo temos acompanhado notícias complicadas em relação a sustentabilidade do varejo no Brasil. No início do governo Lula, Luiza Trajano – fervorosa eleitora – foi às redes de televisão pedir que os clientes comprassem na Magazine Luiza porque o “velho carnê” estava de volta. Acho que todos se lembram das vendas através de um carnê de pagamentos das lojas de departamento. Mas, o que estava por trás disso era os sintomas de uma crise que já se desenhava naquela época.

Luiza sabia do endividamento, crescente, das famílias, das restrições ao crédito bancário – só o empréstimo consignado tinha, relativo, fôlego –, do comprometimento das pessoas com cartão de crédito, visto que a maioria possui mais de um cartão e estes estavam no limite, dentre outros fatores. Com isso, a venda através do carnê da loja, tinha por objetivo atingir o cliente com restrições no mercado financeiro. Para ela era simples, vender através de CDCI – Crédito Direto ao Consumidor com Interveniência, ou seja, o volume de vendas seria repassado pelos bancos para o Magazine Luiza, que assumia a responsabilidade pela liquidação do crédito.

Passa o tempo e a gente vê outras grandes empresas do setor varejista entrarem em colapso. O Grupo Mateus, com sede no estado do Maranhão, espalhado por vários estados nordestinos, anunciou o encerramento de suas atividades em diversas localidades, com redução de 6 mil empregos. O grupo alega que o encerramento se deu devido a reestruturação financeira e que as lojas fechadas não traziam o retorno financeiro desejado.

As Lojas Americanas passaram por um problema sério de fraude envolvendo mais de R$ 20 bilhões. Contabilmente, os empréstimos bancários não apareciam no passivo da empresa, então gerava-se um resultado contábil positivo. Até que contrataram um CEO que percebeu tudo isso e desistiu do cargo. As Lojas Americanas entraram em Regime Judicial e, dizem, está conseguindo equalizar o seu caixa.

Em meio a tanto desgraça, vem o anúncio do encerramento das atividades das Casas Bahia. Os sinais econômicos já apontavam que haveria problemas e algo assim era esperado, o que foi surpresa foi o anúncio do encerramento das atividades, ou seja, os gestores perceberam que solicitar um regime judicial com projeto de recuperação econômica, seria mais dispendioso do que, simplesmente, encerrar. Demitiram os funcionários e para surpresa de muitos, a justiça do trabalho mandou recontratar.

Quando você procura entender o que há por trás de tudo isso, os argumentos são aqueles percebidos por Luiza Trajano já em 2023. Juros altos que restringem o acesso ao crédito, que encarecem o capital de giro das empresas, que oneram substancialmente as contas correntes garantidas. Vai perceber que o endividamento das famílias continua sendo algo em níveis absurdos, só não vai encontrar uma palavra do governo sobre a responsabilidade de tudo isso. Até vai: para o governo, a culpa é dos empresários, ávidos de lucros.

Há um problema fiscal de intensa gravidade cujas efeitos começam a aparecer de maneira mais clara sobre a atividade econômica e, particularmente, sobre setores que dependem diretamente da renda disponível das famílias. O comércio varejista é um bom termômetro desse processo.

Os números mais recentes do IBGE mostram uma economia que encontra dificuldades para transformar crescimento nominal em expansão consistente do consumo. Em abril de 2026, o volume de vendas do comércio varejista caiu 1,5% em relação ao mês anterior. Em maio, houve variação positiva de apenas 0,1%. Mais importante ainda: no acumulado dos últimos 12 meses encerrados em maio, o crescimento foi de somente 1,4%. No varejo ampliado, que incorpora veículos, material de construção e outras atividades, a expansão em 12 meses foi praticamente nula: 0,1%.

Os números setoriais ajudam a compreender melhor o problema. Em maio, na comparação com o mesmo mês de 2025, equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação recuaram 4,1%, enquanto outros artigos de uso pessoal e doméstico caíram 2,6%. Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo também apresentaram redução de 0,5%. Ou seja, não se trata apenas da decisão de adiar a compra de um automóvel ou de um bem de maior valor. Há sinais de dificuldades também em segmentos diretamente relacionados ao consumo cotidiano.

Naturalmente, seria exagerado afirmar que esses números caracterizam, isoladamente, uma recessão. Não caracterizam. O próprio varejo acumula crescimento de 1,7% nos cinco primeiros meses de 2026. O problema está na trajetória: depois de crescer 0,5% em março, o comércio recuou fortemente em abril e praticamente ficou parado em maio. A média móvel trimestral, que ajuda a eliminar oscilações pontuais, ficou negativa em 0,2%.

É justamente nesse ambiente que a situação fiscal assume maior importância. Em junho de 2026, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 48,2 bilhões, acima dos R$ 44,2 bilhões observados no mesmo mês de 2025. No mês anterior, maio, o déficit havia alcançado R$ 53,3 bilhões, também superior aos R$ 40,2 bilhões registrados um ano antes. Chama a atenção que, em junho, comparativamente ao mesmo mês de 2025, a receita líquida tenha aumentado 10,3% em termos reais, enquanto a despesa cresceu 9,0%. Portanto, mesmo diante de crescimento expressivo da arrecadação, permanece enorme dificuldade para produzir equilíbrio entre receitas e despesas.

Esse quadro cria um dilema conhecido. Para financiar gastos crescentes, o governo necessita de mais arrecadação, mais endividamento ou redução de despesas. A elevação da carga sobre empresas e consumidores, entretanto, pode retirar recursos justamente de uma economia que já apresenta sinais de baixo dinamismo no comércio. O aumento do endividamento, por outro lado, amplia as preocupações com a sustentabilidade fiscal.

Não existe almoço grátis. O Estado pode gastar mais durante algum tempo, pode ampliar benefícios e pode até sustentar determinados setores por meio de incentivos. No longo prazo, porém, alguém precisa financiar essa conta. Quando o crescimento econômico não acompanha o crescimento das despesas, a disputa pelos recursos disponíveis torna-se cada vez maior.

É aí que o debate eleitoral deveria abandonar os slogans e entrar no terreno dos números. Mais importante do que saber quem promete gastar mais é saber quem consegue explicar de onde virão os recursos, quais despesas serão prioritárias e, principalmente, como criar condições para que a economia volte a crescer de maneira sustentável.

Um país não resolve seus problemas fiscais simplesmente aumentando impostos, assim como não desenvolve seu comércio apenas estimulando artificialmente o consumo. Empresas precisam de previsibilidade, consumidores precisam de renda e confiança, e o governo precisa demonstrar capacidade de administrar seus gastos. Sem esses três elementos, crescimento econômico vira promessa eleitoral, enquanto déficit, juros e baixo investimento permanecem como realidade depois que as urnas são fechadas.

Um comentário em “CRISE NO VAREJO

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