MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O Brasil enfrenta problemas que vão muito além das dificuldades econômicas, das desigualdades históricas e das deficiências estruturais que atravessam gerações. Há uma crise mais profunda, corrosiva e constrangedora: a distância entre aquilo que se proclama e aquilo que efetivamente se pratica. Uma crise de identidade moral, de coerência institucional e de responsabilidade pública. Transformamos palavras nobres em instrumentos de conveniência. Fala-se em justiça enquanto se toleram privilégios; em liberdade enquanto se relativizam direitos; em democracia enquanto se tenta desqualificar o questionamento; em defesa dos pobres enquanto nem sempre se priorizam as condições necessárias para que conquistem independência econômica. A hipocrisia raramente se apresenta com o rosto descoberto. Prefere vestir a toga da virtude, ostentar a gravata da respeitabilidade e pronunciar discursos impecáveis diante das câmeras. Seu talento consiste em transformar a própria contradição em argumento de autoridade. Quem questiona é inconveniente; quem exige explicações é acusado de hostilidade; quem pede resultados recebe uma nova coleção de justificativas. Eis uma das perversidades da vida pública brasileira: exigir que o cidadão confie, enquanto nem sempre se demonstra disposição para merecer essa confiança.

A democracia não é propriedade de ninguém: Democracia não é um amuleto verbal. Pronunciar a palavra não torna ninguém democrata, assim como exibir uma bandeira não comprova, por si só, amor à pátria. Democracia exige eleições livres, pluralismo, liberdade de expressão, independência institucional, devido processo legal e respeito aos limites constitucionais. Esses princípios não podem mudar de significado conforme a conveniência de quem exerce o poder. Se determinada conduta é autoritária quando praticada pelo adversário, não se torna democrática quando beneficia um aliado. Se a liberdade de expressão é um direito fundamental, não pode ser tratada como concessão de governantes ou autoridades. Se a separação entre os Poderes é indispensável, não pode ser defendida apenas quando produz decisões favoráveis às nossas preferências. O princípio democrático não possui partido, não veste uniforme ideológico e não se curva aos resultados de uma eleição. Entretanto, o debate público frequentemente se transforma numa contabilidade moral de conveniência: o erro do adversário é uma prova de perversidade; o erro do aliado exige contexto, paciência e uma quantidade industrial de relativizações. A coerência tornou-se artigo de luxo. Discordar é legítimo. Criticar é necessário. O problema começa quando a divergência cede lugar à demonização e a fidelidade a uma liderança passa a valer mais do que a fidelidade aos princípios. Uma democracia não é uma torcida organizada. O cidadão não precisa defender todas as decisões de seu candidato, nem abandonar suas convicções para reconhecer um acerto do adversário. A maturidade política começa precisamente onde termina a submissão automática. Quando os princípios se subordinam à conveniência, a democracia pode continuar viva nos discursos, mas começa a adoecer nos costumes.

A toga não é um escudo contra a crítica: O Poder Judiciário desempenha uma função indispensável: aplicar as leis, proteger direitos, resolver conflitos e assegurar o cumprimento da Constituição. Sua independência é essencial para impedir que a Justiça se transforme em instrumento dos interesses de quem detém maior poder político ou econômico. Mas independência não significa infalibilidade. Tampouco significa imunidade à crítica. Nenhuma instituição democrática deve ser transformada em território sagrado, inacessível ao questionamento público. Quanto maior a autoridade, maior deve ser a responsabilidade associada ao seu exercício. A toga não é autorização para a arrogância, assim como o conhecimento jurídico não constitui certificado automático de superioridade ética. É necessário distinguir a crítica legítima da intimidação, a contestação fundamentada da ameaça e o questionamento de uma decisão da tentativa de destruir as instituições. Defender o Estado de Direito exige reconhecer todas essas diferenças. Os números também merecem atenção. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, o Judiciário brasileiro encerrou 2025 com aproximadamente 75,5 milhões de processos em tramitação e despesas totais de R$ 164,6 bilhões, conforme o relatório Justiça em Números 2026. Esses dados não comprovam corrupção nem autorizam condenações generalizadas. Revelam, porém, a dimensão de uma estrutura pública cuja eficiência, duração dos processos, acessibilidade e relação entre custos e resultados precisam ser continuamente avaliadas. Por trás de cada processo há pessoas aguardando respostas, famílias enfrentando conflitos e cidadãos que, muitas vezes, não dispõem de recursos para suportar anos de incerteza. A Justiça tardia pode comprometer o próprio direito que pretende proteger. Uma decisão que chega depois de anos de espera pode ser juridicamente correta e, ainda assim, deixar uma sensação devastadora de impotência. O cidadão não financia instituições públicas para contemplar a solenidade de seus rituais. Financia-as porque espera competência, imparcialidade, celeridade e responsabilidade. O respeito institucional não deve ser exigido como tributo à autoridade. Deve ser conquistado pelo exercício responsável dela.

A assistência social deve libertar, não aprisionar: Poucos assuntos são tão deformados pelo oportunismo político quanto a assistência social. Uma sociedade civilizada não abandona seus vulneráveis à própria sorte. A fome não pode ser utilizada como instrumento de disciplina econômica, e pessoas incapacitadas para o trabalho não podem ser tratadas como inconvenientes orçamentários. Programas de transferência de renda podem proteger famílias, reduzir privações e assegurar condições mínimas de dignidade. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre amparar alguém durante uma fase de vulnerabilidade e administrar essa vulnerabilidade como se fosse uma condição permanente. O benefício social pode ser uma ponte. Não deve ser apresentado como destino final. Uma política pública verdadeiramente comprometida com a população precisa perguntar o que acontece depois do auxílio. O jovem consegue formação profissional? A mãe encontra vaga em creche para trabalhar? O trabalhador consegue emprego digno? O pequeno empreendedor dispõe de condições para desenvolver sua atividade? A família conquista oportunidades que lhe permitam planejar o futuro com maior autonomia? Essas perguntas são menos convenientes para os palanques porque não podem ser respondidas apenas com anúncios de pagamentos e números de beneficiários. O Brasil não precisa escolher entre combater a fome e estimular o trabalho. Precisa fazer as duas coisas. É necessário, contudo, evitar uma acusação igualmente simplista: receber assistência não significa ser preguiçoso, estar desempregado ou viver deliberadamente à custa do Estado. Tampouco a existência de benefícios comprova um plano político de produção de dependência. Afirmações dessa natureza exigiriam evidências específicas.

A crítica séria é outra: nenhum programa deve ser considerado plenamente bem-sucedido apenas porque distribui recursos. É necessário avaliar seus efeitos sobre a pobreza, a educação, a inserção produtiva e a mobilidade social, preservando a proteção de quem ainda necessita dela. É profundamente desrespeitoso imaginar que uma pessoa pobre esteja satisfeita em permanecer pobre desde que receba o suficiente para sobreviver. A pobreza não elimina a inteligência, a ambição, o desejo de independência ou o direito de construir um futuro diferente. O Estado deve proteger quem precisa, mas também criar condições para que mais pessoas possam caminhar com as próprias pernas. Educação de qualidade, qualificação profissional, infraestrutura, creches e oportunidades de emprego não são acessórios: são componentes essenciais de uma política de emancipação. Um Estado que protege cumpre uma obrigação. Um Estado que amplia a autonomia de seus cidadãos fortalece a liberdade. Transformar a necessidade alheia em instrumento de poder, porém, representa uma perversão da finalidade pública. A questão não é se devemos amparar os pobres. É se estamos fazendo tudo o que podemos para que a pobreza deixe de determinar o horizonte de suas vidas.

O emprego que falta e a propaganda que sobra: O debate sobre emprego exige honestidade intelectual. Segundo o IBGE, a taxa anual de desocupação brasileira foi de 5,6% em 2025, a menor da série histórica iniciada em 2012. A população ocupada chegou a aproximadamente 103 milhões de pessoas. Negar esses resultados por conveniência política seria desonesto. Mas utilizá-los como prova de que todos os problemas do mercado de trabalho foram resolvidos seria igualmente equivocado. A taxa anual de informalidade foi de 38,1% em 2025. Esse indicador não significa que todos esses trabalhadores estejam desempregados ou sem qualquer proteção, mas evidencia a dimensão dos desafios relacionados à estabilidade de renda, à formalização e à segurança econômica. Um país pode registrar avanços no emprego e continuar enfrentando dificuldades estruturais. Pode ampliar a ocupação e ainda oferecer oportunidades insuficientes de mobilidade social. Quantos jovens encontram trabalho compatível com sua formação? Quantos trabalhadores conseguem planejar o futuro sem temer a perda repentina da renda? Quantas pequenas empresas enfrentam custos, burocracia e dificuldades de crédito que limitam sua capacidade de crescer? O desenvolvimento não pode ser medido por um único indicador, muito menos pela propaganda oficial. Governos precisam criar condições para que o investimento se transforme em atividade produtiva, a educação se converta em oportunidades e o trabalho proporcione renda sustentável. Isso exige responsabilidade fiscal, segurança jurídica, infraestrutura, produtividade, concorrência e simplificação administrativa, sem abandonar os direitos fundamentais dos trabalhadores. O auxílio pode impedir uma tragédia imediata. A proteção social pode salvar uma família da miséria. Mas o desenvolvimento de uma nação exige uma estratégia mais ampla, na qual educação, emprego, inovação e produtividade ocupem posição central. O cidadão não deveria precisar escolher entre a segurança de um benefício e a esperança de uma carreira. Deveria encontrar instituições capazes de protegê-lo nas dificuldades e ampliar suas possibilidades de prosperar. A pobreza não pode ser um projeto de governo. A necessidade humana jamais deveria constituir um ativo eleitoral.

A ética seletiva e a República dos discursos: Existe uma forma sofisticada de desonestidade política que não consiste apenas em mentir. Consiste em apresentar uma parcela da verdade como se ela fosse a verdade inteira. Selecionam-se os indicadores favoráveis, omitem-se as dificuldades, atribuem-se os avanços exclusivamente aos próprios méritos e transferem-se os fracassos para adversários ou circunstâncias externas. Quando a realidade melhora, o mérito é pessoal. Quando piora, a culpa é alheia. A propaganda transforma-se, então, em instrumento de autopreservação narrativa. O importante deixa de ser resolver os problemas e passa a ser controlar a maneira como a população os percebe. Mas a honestidade intelectual não pertence a uma corrente política. A fiscalização não pode ser seletiva, o combate à corrupção não pode depender da identidade dos envolvidos e a defesa das instituições não pode desaparecer quando surgem falhas entre os próprios aliados. Se um grupo condena privilégios, deve condená-los também quando beneficiam seus integrantes. Se exige transparência, precisa aceitá-la para si. Se reivindica respeito aos direitos fundamentais, deve defendê-los inclusive para aqueles cujas opiniões considera inaceitáveis.

A hipocrisia não consiste apenas em dizer uma coisa e fazer outra. Consiste também em exigir dos outros uma integridade que não se está disposto a praticar. A consequência é a deterioração da confiança pública. A lei passa a ser percebida como arma, a fiscalização como perseguição e a crítica como ameaça. A sociedade deixa de discutir soluções e passa a disputar versões convenientes da realidade. Uma República respeitável precisa de cidadãos capazes de examinar os fatos, representantes dispostos a prestar contas e instituições que não confundam autoridade com superioridade moral. Não basta anunciar boas intenções. É necessário demonstrar resultados, reconhecer falhas e aceitar correções. A realidade não tem obrigação de caber nas conveniências partidárias.

O preço de aceitar o inaceitável: As crises institucionais tornam-se especialmente perigosas quando as contradições deixam de causar espanto. Primeiro, uma prática provoca indignação. Depois, recebe justificativas. Mais tarde, transforma-se em rotina. A normalização é uma das grandes vitórias da irresponsabilidade. Isso não significa que todos os políticos sejam desonestos, que todos os magistrados sejam arbitrários ou que todos os programas públicos sejam ineficientes. Generalizar a culpa seria reproduzir, por outro caminho, a mesma irresponsabilidade que se pretende denunciar. O problema está na tolerância a práticas inadequadas, na falta de fiscalização efetiva e na cultura segundo a qual pertencer ao grupo correto vale mais do que agir corretamente. A indignação, porém, precisa estar subordinada à verdade. Sem provas, transforma-se em acusação irresponsável; sem reflexão, degenera em ressentimento. A crítica mais forte não é aquela que acusa indiscriminadamente, mas aquela que identifica contradições demonstráveis e exige providências concretas. O Brasil dispõe de recursos naturais, universidades, centros de pesquisa, trabalhadores qualificados e empreendedores capazes de contribuir para um futuro melhor. Não é um país sem possibilidades. É um país que precisa superar obstáculos históricos e aprimorar a maneira como transforma seus recursos e talentos em oportunidades. Não devemos romantizar a realidade, tampouco tratá-la como um caso perdido.

É possível defender a assistência social e exigir emancipação econômica. Defender a independência judicial e cobrar transparência. Valorizar a democracia e denunciar suas contradições. Reconhecer avanços no emprego e exigir melhores oportunidades. Isso não é incoerência. É maturidade. O que não podemos aceitar é que reconhecer um avanço signifique silenciar sobre os problemas restantes, ou que denunciar uma falha obrigue alguém a negar tudo o que funciona. Uma nação não precisa de salvadores, de devoção a personagens ou de promessas apresentadas como acontecimentos históricos. Precisa de instituições capazes de funcionar independentemente de quem ocupa temporariamente seus cargos. Uma escola de qualidade vale mais do que uma cerimônia de inauguração. Uma decisão judicial justa e tempestiva vale mais do que um discurso solene sobre o Estado de Direito. Uma política social que amplia oportunidades vale mais do que uma campanha publicitária sobre a generosidade de um governante. Um emprego produtivo vale mais do que uma promessa repetida de prosperidade. A medida da vida pública deveria ser o benefício efetivamente produzido para a sociedade, não a habilidade de transformar sua administração em capital político.

O veredicto começa na consciência: Nenhuma liderança, por carismática que seja, substitui instituições sólidas. Nenhuma retórica substitui resultados. Nenhuma vitória eleitoral transforma a conveniência em virtude. Nenhuma posição de autoridade torna alguém imune à crítica legítima. O poder é transitório. As consequências das decisões públicas podem permanecer por gerações. Por isso, a desonestidade no exercício do poder não é um simples defeito pessoal. Ela compromete recursos, enfraquece a confiança e transfere à sociedade os custos de uma irresponsabilidade que ela não escolheu suportar. A responsabilidade começa quando o cidadão recusa a mentira mesmo que ela favoreça suas preferências; quando o governante aceita a fiscalização; quando o magistrado reconhece que independência não significa ausência de responsabilidade; quando o representante compreende que o mandato não é propriedade particular. Começa também quando abandonamos a procura por salvadores e passamos a exigir instituições capazes de funcionar sob regras claras, fiscalização e respeito aos direitos fundamentais. A crise de identidade começa quando uma nação já não distingue aquilo que diz valorizar daquilo que efetivamente recompensa. A crise de desonestidade se aprofunda quando essa contradição deixa de causar vergonha e passa a ser defendida como necessidade política. Nesse estágio, o problema já ultrapassou as fronteiras dos partidos, dos tribunais e dos gabinetes. Tornou-se uma crise de consciência. O Brasil não carece de palavras grandiosas. Carece de coerência entre palavras e atos. Não carece de juramentos de fidelidade à democracia. Carece de respeito cotidiano às condições que a tornam possível. Não carece de declarações de amor aos pobres. Carece de políticas que combatam a pobreza e ampliem a autonomia de quem dela deseja sair. A grandeza de uma República não está na eloquência de seus representantes, na imponência de seus edifícios ou na frequência com que pronuncia palavras como liberdade, igualdade e justiça. Está na distância, cada vez menor, entre aquilo que promete e aquilo que entrega. Porque um país começa a perder sua identidade quando já não reconhece a própria contradição; começa a perder sua honestidade quando aprende a justificá-la; e compromete seu futuro quando exige dos cidadãos uma confiança que seus próprios representantes não se empenham em merecer.

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