ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Este fim de semana eu se me peguei pensando em duas coisas distintas: o caso do senador com chumaços de dinheiros na bunda e no meu velho pai. Tudo bem! Tudo bem! Sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra, aparentemente. Mas, se formos olhar lá no fundo, mas no fundo mesmo, e não me estou referindo aos fundos do senador, mas no fundo da razão, as duas coisas se tocam.

Quando eu era criança, a gente comia arroz de terceira. Aquele tipo de arroz mais quebrado que mulher de malandro depois que chega da balada, com os cornos cheios de cachaça. O feijão era do tipo que a gente colocava as seis da manha no fogo, para, ao meio dia ficar mole. O café era aquele que tinha gosto de milho torrado, feijão torrado, cevada torrada, soja torrada, menos o de café. Nas nossas farras de fim de tarde, a brincadeira erra de guerra. Cada grupo com seus bodoques e cachos de semente de mamona a tiracolo. Até hoje, ao passar perto de uma plantação de mamona e ver aqueles cachos de semente, penso logo: olha, munição!

Nossos banhos eram aqueles banhos de moleques, molhava a frente da cabeça e a barriga, mas as costas ficavam aquele caminho de formiga todo encardido. Quando a mãe resolvia dar banho na gente, usando bucha vegetal ela executava três ações: desencardia a molecada, dava banho e, de quebra, dava uma surra. Aquela bucha vegetal molhada fica mais pesada que chinelo feito de aço. Mas, a gente saía com uns três quilos a menos, porque a esfregação e a surra que a mãe dava retirava de nosso couro esse peso em terra e encardume que ficava quando tomávamos banhos sozinhos.

Naquele tempo, se saíssemos de casa e chegássemos com algo diferente, até as coisas ficarem esclarecidas, passávamos por um IPM – Inquérito de Perguntas da Mãe -. Quem te deu? Por que te deu? O que você fez para ganhar isso? Caso ela não se satisfizesse com as perguntas, tínhamos que voltar ao local onde tínhamos ganho o mimo, para que a pessoa que nos deu, explicasse os motivos que geraram esse mimo. Mesmo pagando esses micos, a criação dada só deu bons frutos. Hoje, aqui na gloriosa Campo Grande, até de passar no sinal vermelho altas horas, eu fico-se-me avexado. Isto porque a própria polícia de trânsito havia dado essa instrução em função de muitos assaltos alta horas da noite, quando se parava o carro no sinal vermelho.

Com o pai era diferente. Papai era homem de poucas palavras. Homem duro, de mãos gretadas de calo, aturando chifre de boi no pasto e enterrado igual a mourão na terra alheia. Quando ele ia para cidade, se me alembro bem. Pegava sua viola de doze cordas, ou mesmo sua sanfona e costumava tirar modinhas antigas no degrau da porta de casa. Quando ele se zangava com alguma coisa, chamava o moleque que havia sido pegado em delito e sentenciava: sente aqui e vamos conversar. Essa palavra era nosso terror. O homem nos quebrava só na conversa. Tinha horas que dava vontade de falar: pai, pega a cinta, dá uma surra e esquece a conversa! Mas, o velho era reimoso. Conversa dele doía mais do que uma surra com couro cru.

Mas nisso eu fico me perguntando: onde foi que esse tipo de criação desandou? Onde foi que perdemos o senso de moralidade, ética, respeito, civilidade, urbanidade? Hoje vejo muitas pessoas gritando que tem vergonha da política. Que na política só tem ladrão e corrupto. Que só tem sem-vergonha nos postos chaves deste país. Mas, aí eu me pergunto: e quem foi que colocou esse povo lá? Vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores nada mais são do que espelhos da nossa própria sociedade. Hoje, a criação de nossos filhos é feita na base da corrupção e da venalidade.

Meus pais me deixaram como tesouro uma educação formal clássica. E olha, minha saudosa mãe estudou até o segundo ano do antigo primário e meu pai até o quarto ano. Todavia, eles sabiam o valor da educação e sempre nos diziam que esse era o único legado que poderiam deixar, pois, nem ouro e nem prata e nem cobre tinham a deixar. E nós estudávamos porque, segundo meu pai, caneta não calejava mão e livro não fazia você chegar com os lombos moídos no fim do dia, em casa.

Atualmente, eu vejo pais prometerem ao filho, se ele passar de ano vai ganhar uma viagem para a Disneylândia. Se ele passar no vestibular vai ganhar pum carro. Se tirar boa nota na prova vai ganhar um troco a mais para passear no fim de semana. Isso meus senhores, se chama corrupção. Os pais estão ensinando os filhos a serem corruptos, venais, vendidos e interesseiros. Aquilo que deveria ser fruto de uma consciência: estude porque isso será sua garantia de homem livre em uma sociedade livre, tornou-se parte de um processo de apodrecimento dos pilares da sociedade.

De certa forma, eu não culpo o PT pela corrupção sem limites. Não. Eles não criaram esse modelo de corrupção. Apenas abriram as comportas para uma criação humana que já estava corrompida, mas ainda represada por alguns pilares da civilização. Ao detonarem esses pilares, com a sua venalidade e desfaçatez, o PT mostrou o que era a sociedade brasileira fruto das duas últimas gerações criadas à base da troca interesseira.

Tomo como exemplo um casal conhecido meu alhures neste Brasil. Hoje o filho deste casal está com seus 24, 25 anos. Quando conheci o casal, o moleque tinha entre 5 e 6 anos. Hoje ele não consegue entabular uma conversa, porque não teve convívio humano, foi só videogame e computador. Não se relaciona. Criou um mundo que não vai além da porta do quarto. Tudo que faz para si mesmo foi na base do pai dizer… te dou isso se você fizer isso. Não vejo a hora desse moleque se filiar ao PT e começar uma promissora carreira política.

Quando alguém puxa conversa comigo e reclama do mundo político, eu retruco: formiga não vota e tamanduá não tem título de eleitor. Se há corruptos nos cargos de mando do governo em todos os níveis, foi porque nós, uma sociedade que começa a corromper os filhos no berço, e mimá-los no colo da venalidade, colocamos um representante digno de nosso caráter torto e de nossa moral de puteiro. A geração do meu pai e a minha mesmo, que chegou à casa dos 50 anos se perdeu na caminhada histórica. Hoje ser moral, ético, correto é visto como algo pitoresco, ou mesmo estranho. A normalidade é irmos corrompendo nossos filhos desde a mais tenra idade, pois isso tira de nós a responsabilidade de pais de família, com a obrigação de educar as novas gerações. Mas nós, preferimos corromper a juventude, com presentes, com dinheiros, com promessas, e repassar essa obrigação para os outros. Desse jeito, não há porque reclamar da classe política. Estamos muito bem representados. E nossos filhos serão os substitutos adequados em uma nação que tomou a corrupção como baliza de criação.

Estamos tão corruptos que dinheiro na cueca, ou no toba, dinheiro em banco, em caixa de papelão muqifado em apartamento suspeito, dá no mesmo. O importante é que, se tem pouca farinha, meu pirão primeiro. Estamos tão corruptos! Infelizmente!

5 pensou em “CORRUPTOS

  1. Roque, como se diz aqui no nordeste, você tirou a minha da boca. No bom sentido, entenda. Fiz um ontem e não mandei para Berto porque achei que precisava de uns ajustes, mas na essência se parece muito com algumas coisas que você colocou aqui. Minha mãe e meu pai eram assim. Apanhei duas vezes do meu pai e as tapas não se pareciam em nada com as surras que minha dava, com couro cru. Nenhuma mágoa de ambos, pelo contrário, choro a eterna saudade da falta. Onde desandou? Provavelmente num curso de psicologia ou de ciências sociais que propagou que palmada não educa.

    • Assuero.

      Publique-a aqui em nossa gazeta. Assim me sentirei menos João Batista, clamando sozinho no deserto. E, tenho certeza que muitos leitores e colaboradores fubânicos também se verão espelhados nesse nosso “desabafo” existencial. Publique-a, porque como você, cada tapona que minha mãe me dava e cada “conversa” que meu pai teve comigo, ajudou a formar o meu caráter e a desenhar minha vida. Hoje, quando tenho mais passado do que futuro, também ainda penso neles e sinto saudades de minha “velhinha”, que gostava de naquear seu pedaço de fumo de corda enquanto lavava roupa e cantava músicas folclóricas na língua aymará, dos altiplanos bolivianos.

      • Nada mais Sancho: Cada grupo com seus bodoques e cachos de semente de mamona a tiracolo. Até hoje, ao passar perto de uma plantação de mamona e ver aqueles cachos de semente, penso logo: olha, munição!

        Sancho não é tão bonzinho: De certa forma, eu culpo o PT, não pela corrupção sem limites (sempre houve e “harará”), mas ao ponto em que deixaram o Brasil… e lá vai a equipe do Jair tirando entulho…

        Estamos (somos) tão corruptos! Infelizmente!

        Vou logo ali tentar uma venda de cocos superfaturada e já volto…

        – Ops, quem são aqueles rapazes de colete à prova de balas e uniforme preto, gorro escrita PF se aproximando de meu caminhão, Zé Broa?

        – Corre, Sancho! Corre que deu ruim!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

        • Escreve Roque: Quem te deu? Por que te deu? O que você fez para ganhar isso? Caso ela não se satisfizesse com as perguntas, tínhamos que voltar ao local onde tínhamos ganho o mimo, para que a pessoa que nos deu, explicasse os motivos que geraram esse mimo.

          Pai de Sancho era mestre nesta arte de pegar o guri e levar até ao doador para inquirir a ambos.

          E se meu pai não ficasse satisfeito com o motivo da doação fazia devolver.

          Saudade sem fim do velho Nelson Pança.

  2. O mundo deve estar do avesso. Senão vejamos. Nos últimos quarenta anos quem realmente se desenvolveu foi a China, que hoje, outubro de 2020, tem o maior PIB do mundo. Colocou os EUA, na véspera das eleições presidenciais, no chinelo. A China é comunista, mas se tornou capitalista. E não é só isto investiu em educação básica para toda a população, investiu em infraestrutura, dando suporte para economia de mercado. E o que aconteceu com o Brasil nesses últimos40 anos? Nada, pois ficou atolado pela corrupção, mesmo sendo tido como um país democrata.

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