JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Eu sou um homem vivendo do que levo no alforge do meu coração, e não no bolso. E quando olho para trás, até me parece, que sempre foi assim.

Porque eu já passei alguns momentos… Se eu não vivesse pelo que molha meu coração transbordando pelos olhos, teria sucumbido à secura do bolso.

Um dia eu percebi que a minha roupa estava desbotada. Podia ter ficado envergonhado. Mas, olhei para o meu interior e enxerguei meu peito inflando. Não era orgulho. Eu não tinha muito do que me orgulhar. Era de consciência! Era de dignidade!

Naquele dia, especialmente, eu andava por um corredor de shopping ignorando o meu saldo bancário negativo.

Olhei-me na vitrine espelhada de uma loja, e lá estava minha camisa desbotada. Sentei. Ao meu redor passavam homens de ternos impecáveis. Eu me perguntei “esses caras têm alma?” Porque me pareceu, observando-os, que suas almas na verdade eram de livros-caixa passeando apressados. Talvez mentalmente contassem dinheiro e, em breve, eu pensei, poderiam estar contando infartos.

Naqueles dias eu não contava nada. Apenas sentia. Sentia o mundo.

Sentia o amor copulando com a esperança, para gerar fé. Sentia a minha dificuldade e a dificuldade de algumas pessoas ligadas a mim. Mas eu não estava alheio a outros sentidos e percebia o sofrimento do menino no sinal, por exemplo, calção desbotado, nu da cintura para cima, descalço sob os calcanhares. Eu tinha minha camisa desbotada, porém estava calçado.

E ali, diante de outros “sentidos”, eu raciocinei que a humanidade moderna não perdoa o luxo das emoções. O único que eu podia ter naqueles dias. Afinal, quem vive apenas de sentimentos, vive à margem.

Para o gerente da loja de marca cara, à minha frente, encarando-me desconfiado, talvez eu fosse uma aberração ambulante, ou um cadáver social mal vestido no caixão das elegâncias.

Eu ri para ele e pensei que, naquele mesmo instante, muitos ricos estavam afogando suas angústias em uísque doze anos, embebedando suas úlceras nervosas.

Eu não! Eu apenas sangrava sentimentos pelas feridas do que havia dentro do meu peito, com a sensação de uma dignidade exasperante que o dinheiro é incapaz de comprar e, quando a falta dele deixa de importar, passa a ser só uma sensação gelada no que os olhos veem. O coração só esfria se for fraco.

Eu sou um homem vivendo do que tenho no coração, e não no bolso. Sou para mim mesmo – e isso me basta – um herói respeitado, porque já vivi o trágico, quase obsceno para a minha época e, também, para o meu lugar. Essa província de tantas exposições financiadas.

E eu ainda cometo o maior dos pecados modernos: a audácia de ser sentimental numa sociedade que só aprendeu a contar. E a contar vantagens que, às vezes, nem existem.

Nem por isso eu deixo de buscar aquilo que os antigos celtas vaticinavam às pessoas próximas e amadas: caminhar com “o coração leve e o bolso pesado”.

Somente para o que for necessário.

Talvez para não andar mais desbotado.

Talvez. Afinal, eu nunca liguei para isso mesmo.

Porque o importante eu levo dentro do peito.

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