JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Lisboa. Mais conversas, hoje só com religiosos e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Volto a explicar. Estamos bem perto do fim. Os originais do livro já estão com a editora Topbooks, no Rio. Para revisar a ortografia (escrevo ainda pela velha), preparar o índice onomástico, definir capa, essas coisas de sempre. Ando já com saudades, ao perder esse encontro mensal com o leitor neste espaço.

Dom AGNELO ROSSI, cardeal. Foi visitar Fortaleza e o Bispo local perguntou

‒ Vossa Eminência está cansada?

E ele, que jamais teve familiaridade com as concordâncias do português,

‒ Morta…

ALBERTO TRABUCCHI, presidente do Círculo dos Juristas Católicos da Itália e ministro do Tribunal de Justiça da União Europeia. Ao ver homens procurando comida, no lixo da feira de Jaboatão (Pernambuco), me perguntou

– O Brasil é um país católico?

– Claro, professor, maior país católico do mundo.

E ele, sem alterar a voz, repetiu

– O Brasil é um país católico?

– Não.

Dom BASÍLIO PENIDO, Abade (o título vem do hebraico abbá, pai) do Mosteiro de São Bento (Olinda). História contada por Irmão José. Um frequentador da igreja reclamava das famílias de pedintes que ficavam assediando os fiéis ao chegar nas missas, mostrando filhos pequenos e dizendo que teriam doenças graves

– O pior, Dom Basílio, é que eles mentem muito.

– Não é tão grave, meu filho.

– Como?

– É que mentem para comer.

Padre EDWALDO GOMES, da paróquia de Casa Forte. Numa festa da Vitória Régia por ele fundada em 1978, tão popular que hoje é Patrimônio Oral e Imaterial do Recife. Luciana, nossa filha menor, depois de ouvir uma fala sua, decidiu elogiar

– Arretado!

– Cuidado com esse palavreado, Lulu.

– Padre Edwaldo, arretado pode?

E ele, depois de pensar um pouco:

– Poder pode, minha filha. Pode até mais. Pode arretado, merda, bosta, porra e puta que o pariu. Mas só isso, viu? Que, passou daí, é pecado.

* * *

No Hospital Memorial São José, parecia estar bem disposto

– Maravilha, pastor. Parabéns.

– Por quê?, amigo, estou aqui cheio de fios…

– É que o senhor passou a vida inteira se preparando para encontrar o Pai Eterno. E agora, quando isso é iminente, deve ser o homem mais feliz do planeta.

Vade retro, José, que não tenho pressa.

E se benzeu Pai, Filho, Espírito Santo.

Dom HÉLDER CÂMARA, arcebispo de Olinda e Recife. Algumas vezes ligava convidando para falar sobre algum tema que ainda não conhecia bem. Por querer sempre saber mais. Já em seu quartinho na Igreja das Fronteiras, e antes de entrar no assunto daquele dia,

– Pois é, meu filho, o homem troca de time de futebol mas não de opinião.

Achei graça porque se alguém havia mudado de opinião, pela vida, era o próprio Dom. Mas isso não disse, por muito gostar dele (tanto que celebrou nossas Bodas de Prata). Fosse pouco, também nunca vi ninguém trocar de time. Por isso, preferi observação mais amena

– Diga assim não, dom Hélder. Diga que o homem troca de mulher, mas não de opinião.

– O problema, meu filho, é que de mulher eu não entendo.

– O problema, meu dom, é que o senhor não entende nem de mulher, nem de futebol.

* * *

Pedinte bateu na sua porta, querendo roupas, que as dele estavam rasgadas. Dom Hélder lhe deu uma calça. Zezita, que foi sua guardiã (por toda vida), o censurou

– Mas dom Hélder, o senhor tem só duas calças.

– E o pobre, Zezita, que não tem nenhuma?

* * *

Esperando conferência que fariam no Porto Digital (Recife), os dois foram encaminhados a uma saleta. Dom Hélder disse estar cansado e pediu licença para cochilar um pouco. Acabou dormindo mesmo, e tão profundamente, que foi difícil de acordar. Silvio Meira, que não dorme fácil, pediu que dissesse como conseguia. E a explicação foi

‒ Fecho os olhos e penso no dedão do pé esquerdo. Em seguida, nos outros dedos. O mesmo no pé direito. E vou subindo. Quase nunca chego no joelho.

Se o amigo leitor quiser experimentar, fique à vontade.

JESSIER QUIRINO, poeta. Toda vez que vê avisos nos murais das igrejas, vai anotando. Segue relação que mandou de algumas dessas conversas paroquianas

‒ Para todos que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

‒ O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, que vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

‒ Na sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

‒ Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!

‒ Assunto da catequese de hoje, Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã, Em busca de Jesus.

‒ O coro dos maiores de sesse nta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

‒ O mês de novembro finalizará com missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

‒ O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.

‒ Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem sejam lembrados.

JESUS DE RITINHA (mãe) DE MIÚDO (pai), doutor em Ciência Política. Igreja (hoje Basílica) Nossa Senhora da Guia de Acari (RGN). Em sermão dominical na grande seca de 82/83, o padre Deoclides de Brito Dinis levantou as mãos para o céu e gritou

‒ Deus, eu peço que o Senhor mande uma chuva que cada pingo seja uma lata d’água.

Foi quando o sacristão, João da Mata, puxou na batina dele e disse baixinho, só que perto do microfone e toda igreja ouviu,

‒ Padre, seria um dilúvio!

E o padre Deó

‒ João, eu tô dizendo que é uma lata mas bem pequenininha, de Vick Vaporub.

Aquele remédio vendido para congestão, dores musculares e tosse.

Padre JOÃO PUBBEN, da Igrejinha das Fronteiras. Prometi uma caixa de vinhos e ele escolheu um português, Periquita. Mandei, junto com esse bilhete

– Todo homem de valor
Se revela pecador
Quando apreciador
De coisa boa e bonita.
Mas me causa estupor
Ver alguém como o pastor
Que é quase um Monsenhor
Sendo admirador
Dessa tal de periquita.

Dom JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, que, em Lisboa, celebrou nossas Bodas de Ouro. Dia seguinte à sua posse, como cardeal, no Vaticano, ofereceu almoço para os amigos que lá estavam. Preparei discurso que começava assim:

– O treinador do Flamengo (à época), Jorge de Jesus, é também português. E hoje, no Brasil, Jesus é Deus. Os amigos de Tolentino são bem mais modestos. Não querem vê-lo como Jesus nem, muito menos, Deus. Para nós, basta que um dia ele seja Papa.

LILI FALÂNGOLA, empresária. Convidou uma parente, Madrinha Neiça, para festinha na sua casa. E a outra

‒ Sabe quando eu vou?, no dia de São Nunca.

Passa o tempo e Lili, num 1º de novembro, preparou churrasco pantagruélico. Chamou os amigos e, primeiro a chegar, foi a tal Madrinha

‒ Oi, e você não disse que só vinha no dia de São Nunca?

‒ Verdade, e é hoje, Dia de Todos os Santos.

Dom LUCIANO MENDES DE ALMEIDA, secretário-geral da CNBB. Ligou

– José Paulo, estou aqui (na CNBB) com uns sem-terra que querem conversar com o senhor. Os recebe?

– Claro, dom Luciano.

– Mas eles estão em camisas de mangas curtas, será que podem entrar no ministério (da Justiça) assim mesmo?

– Antes de responder, dom Luciano, me tire uma dúvida eclesiástica.

– Qual?

– Dar banana para bispo é pecado?

– É e você já pecou, meu filho.

– Como?, se não fiz nada.

– Pensamentos, palavras e obras, é a lei da Igreja. E acabei de receber uma banana, em pensamento.

– Mas lei tão antiga?, dom Luciano, ainda vale?

– Claro. E você por acaso pensa que a lei da Igreja é como a dos homens, mudando toda hora?

* * *

De nossos almoços, todas as quartas, guardo só lembranças boas. Como refrescos de laranja bem gelados. Ou o Bliss, que tomava sempre dom Ivo Lorscheiter no seu corpo de atleta. Ou a comida simples, com sabor caseiro

– Uma das coisas que não entendo na Igreja, dom Luciano, é a restrição à Gula. Como pode coisa tão boa, que é comer, ser pecado? E logo mortal?, um dos sete capitais.

Ele, com sua imensa capacidade de consensualizar, argumentou

– Você não conhece a Santa Gula?, meu filho.

– Que história é essa?

– É assim. Quando você come muito, e não quer que mais ninguém coma, é pecado. Mas quando você come, e quer que todo mundo coma tanto quanto você, é virtude. A Santa Gula.

MAURO MOTA, da ABL. Dona Santinha, sua irmã, tomava conta de outro irmão, Dom Mota, arcebispo de São Luís (Maranhão). Carola, quando escrevia cartas para Mauro começava dizendo

‒ São Luiz, cidade pagã…

Confessava-se todos os dias. Já meio surda, gritava seus pecados; e, o padre, a penitência. Para evitar constrangimentos acertaram que ela entregaria, no confessionário, papel com a relação dos pecados mortais cometidos na véspera. E o padre lhe mostraria placa onde estava sua pena ‒ sempre três Padres Nossos e três Ave Marias. Dando-se que certo dia Mauro furtou (subtraiu, talvez fosse melhor), de seu missal, os tais pecados e nos mostrou. Eram três

‒ Ontem, não rezei o Rosário completo.

‒ Olhei para trás na missa.

E, mais grave de todos,

‒ Tentativa de mau pensamento.

Um comentário em “CONVERSAS DE ½ MINUTO (51) ‒ RELIGIOSOS

  1. Meu inspirado Jurista Tri-Acadêmico,
    excelente, como sempre. Já com saudades da ‘pílula’ mensal aguardo, ansioso, o tratamento completo, o livro, o papel, como gosto.
    Da coluna destaco tudo, mas ressalto o sempre bom humor do Poeta Quirino e a sabedoria plena de D Hélder, o Dom da Paz. Que tenha mudado no decorrer da vida, fez muito bem. Nada mais salutar que mudar para melhor.
    Receba meu abraço desse outro lado do Atlântico e estenda-o a Dona Lecticia, sua fonte de inspiração, bem sei.
    Xico

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