JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Continuando essas conversas que começaram no São João, com cantadores e afins, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Encerrando a série.

GERALDO AMÂNCIO PEREIRA, cantador (de Cedro, Ceará). Casa de Lourival Batista, em são José do Egito. Numa noitada cantador conhecido como Pereira estava dando alterações, no recinto, por conta de ter na cabeça mais Pitu do que devia. Foi quando Raimundo, filho mais velho de Louro, virou-se para Geraldo e, brincando com seu nome, disse

‒ Geraldo, amanse o Pereira.

OLIVEIRA DE PANELAS, de Panelas (Pernambuco), conhecido como o Pavarotti dos Cantadores. No Bar Savoy, onde Carlos Pena Filho escreveu seu famoso poema Chope

– Por isso no bar Savoy
  O refrão é sempre assim:
  São trinta copos de chope,
  São trinta homens sentados,
  Trezentos desejos presos,
  Trinta mil sonhos frustrados.

Cantoria com Otacílio Batista, irmão de Dimas e Lourival (Louro do Pajeú), para Manuel Bandeira A voz do Uirapurú. Ali, fui testemunha de uma cena inacreditável, envolvendo a bandeja em que os apreciadores depositam dinheiro para a dupla. E, na hora, lhe mandei esse bilhete

– Meu amigo Oliveira
  Pare, sinta, escute e veja
  Otacílio pegou 20
  Quero que Deus me proteja
  Mas nunca vi cantador
  Roubar a própria bandeja.

 Pois no calor da peleja
 Como quem bebe aguardente
 Comeu o teu queijo frio
 Bebeu o teu café quente
 E o que era teu e dele
 Ficou foi dele somente.

* * *

Cantado desde o Século XIX, O que é que me falta fazer mais no início era só mais um mote de décima, em dez sílabas, até ser transformado em gênero pelo cantador Ivanildo Vilanova. Nele, ganha quem inventar mais, mentir mais, se cobrir de mais honrarias; seguindo-se estribilho cantado, em conjunto, pelos dois cantadores. Oliveira, numa cantoria, fez essa maravilha

– Certo dia eu estava em Hollywood
  Em Marlboro, ou talvez no Arizona
  Foi então quando encontrei-me com Madonna
  Que convidou-me para um banho de açude.
  E se a galega mostrou ter muita saúde
  Eu também lhe mostrei ter muito gás
  E nos domínios das táticas sensuais
 Tudo quanto ela quis, fiz em inglês
 E depois perguntei em português
 O que é que me falta fazer mais.

PATATIVA DO ASSARÉ, cantador e cordelista (de Assaré, Ceará). Sua casa fica a 18 quilômetros da cidade e precisava falar com o prefeito. Só que foi várias vezes à Prefeitura e o homem nunca estava. Por isso deixou em sua mesa bilhete, como se fosse um cordel, que acabava assim

‒ Ainda que alguém me diga
  Que viu o mudo falando
  Um elefante dançando
  No lombo de uma formiga.
  Não me causará intriga
  Escutarei com respeito
  Não mentiu esse sujeito
  Muito mais barbaridade
  É haver numa cidade
  Prefeitura sem prefeito.

Resultado, acabou preso. Na cela, encontrou gaiola com uma patativa – que é ave de belo canto. Então escreveu versos que ganharam o mundo

‒ Linda vizinha pequena
  Temos o mesmo desgosto
  Sofremos da mesma pena
  Embora em sentido oposto.

  Meu sofrer e teu penar
  Clamam a divina lei
  Tu presa para cantar
  E eu preso porque cantei.

PELEJA DO CEGO ADERALDO (de Crato, Ceará) COM ZÉ PRETINHO (de Tucum, Paraná). Assim, como Pelejas, são conhecidos os grandes desafios entre os cantores. Mais famosa delas é a do Cego Aderaldo contra Zé Pretinho. Com o desafio já ganho, e para encerrar com brilho, o Cego tripudiou

Cego – Amigo José Pretinho
            Eu não sei o que será
            De você no fim da luta
            Porque vencido já está
            Quem a paca cara compra
            Paca cara pagará.

E o outro, sem entender esse trava-língua, piorou sua desgraça

Zé Pretinho – Cego, estou apertado
                       Que só um pinto no ovo
                       Estás cantando aprumado
                       Satisfazendo ao povo
                       Este seu lema de paca
                       Por favor cante de novo.

A partir daí, foi um desassossego

Cego – Digo uma e digo dez
            No cantar não tenho pompa
            Presentemente não acho
            Quem esse meu mapa rompa
            Paca cara pagará
            Quem a paca cara compra.

Zé P. – Cego, teu peito é de aço
            Foi bom ferreiro quem fez
           Pensei que o cego não tinha
           No verso tal rapidez
           Cego, se não for massada
           Repita a paca outra vez.

Cego – Arre com tanta pergunta
             Deste negro capivara
             Não há quem cuspa pra cima
             Que não lhe caia na cara
            Quem a paca cara compra
            Pagará a paca cara.

Zé P. – Agora cego me ouça
            Cantarei a paca já
            Tema assim é um borrego
            No bico de um carcará
           Quem a cara cara compra
           Caca caca cacará.

E Zé Pretinho, depois desse desmantelo, colocou sua viola na bandeja como sinal de que reconheceu a derrota.

PINTO DO MONTEIRO (de Carnaubinha, distrito de Monteiro, Paraíba) e LOURIVAL BATISTA (Louro do Pajeú, de São José do Egito, Pernambuco), dois gênios. Os desafios, entre eles, foram sempre de empenar. Como esse, em que Louro começou

‒ Isso foi naquele tempo,
   Quando você era macho.
   Porém, um cabra valente
   Passou-lhe o facão por baixo,
   Que o sangue correu na perna
   E o gato comeu-lhe o cacho.

E Pinto

‒ Por isso é que me rebaixo
   Em cantar com cabra bruto,
   Pois quando correu notícia
   De que eu perdi esse fruto,
   Sua mãe chorou de pena
   Nunca mais tirou o luto.

* * *

De outra vez, Pinto preparou armadilha para Louro

‒ Eu saí de Caicó
   E fui bater em Tabira
   De Tabira prá Penedo
   De Penedo a Guarabira
   Chegando lá eu comi
   O mocotó de traíra

Como traíra é peixe, Pinto jamais poderia ter comido seu mocotó. Então, certo de ter ganho a peleja, Louro respondeu

‒ Eu já vi muita mentira
   De Adão até Aló
   De Aló até Isac
   De Isac até Jacó
   Mas nunca houve quem visse
   Traíra com mocotó.

Só para ver, desolado, Pinto cantar

‒ Pois eu vim de Caicó
   E fui até Guarabira
   Lá vi uma vaca velha
   A quem chamavam Traíra
   E agora você me diga
   Se é verdade ou se é mentira.

SANTANA CANTADOR, grande forrozeiro. No Colégio Boa Viagem (Recife), prova sobre Diversidade Cultural, a pergunta era “Concorda que o forró seja patrimônio imaterial do Brasil?”. Maria Clara, 10 anos e neta de Santana, respondeu

‒ Sim, pois se eu responder “não” meu avô me mata e tem um enfarte antes de morrer.

ZÉ LIMEIRA (de Teixeira, Paraíba). Cantador meio doido, andava a pé pelos sertões do Nordeste (por considerar carro coisa do demo), sempre com lenço de seda vermelho no pescoço, óculos escuros (mesmo à noite) e anéis em todos os dedos. Seus versos, com frequência, não faziam sentido. Mais famoso deles, do próprio Limeira (ou talvez de Otacílio Batista, que o terá dado ao outro de presente), os apreciadores sabem de cor (com pequenas variações). O mote era poético, Os anos não trazem mais, para falar do passado, da nostalgia e da saudade. Só que Limeira se perdeu, no meio, e teve que dar uma volta na décima para findar no tal mote. Não custa repetir

‒ O velho Tomé de Souza
   Imperador da Bahia
   Casou-se e no mesmo dia
   Passou o pau na esposa.
   Fez que nem uma raposa
   Comeu na frente e por trás.
   Depois na beira do cais
   Onde o navio trafega
   Comeu o pobre Nobréga
   Que os anos não trazem mais.

* * *

É dele o (talvez) mais famoso mote das cantorias

‒ Morri o ano passado
   Mas esse ano eu não morro.

* * *

O poeta JESSIER QUIRINO até escreveu esses versos, no estilo de Zé Limeira

‒ Frei Henrique de Coimbra
  Sacerdote sem preguiça
  Rezou a primeira missa
  Na beira de uma cacimba.
  Um índio passou-lhe a pimba
  Ele num quis aceitar
  Hoje vive a lamentar
  Junto dum pé de jurema
  E um bom pescador não tema
  As profundezas do mar.

‒ Pedro Álvares de Cabral
  Inventor do telefone
  Resolveu tocar trombone
  Na volta do Zé Leal.
  Mas como tocava mal
  Arrumou dois instrumentos
  Aí chegou um sargento
  Querendo enrabar os três
  Quem tem razão é o freguês
  Diz o velho testamento.

* * *

Por falar em Jessier, numa conversa, lembrei Sérgio Buarque de Holanda; que considerava palavra mais bonita, na língua brasileira,

‒ Libélula.

Perguntei, a ele,

‒ Compadre Jessier, e qual a mais feia que você conhece?

‒ Fome.

7 pensou em “CONVERSAS DE ½ MINUTO (43) ‒ CANTADORES (II de II)

  1. Já comigo foi muito diferente
    do ocorrido com esse Vilanova:
    encontrei Bayoncê em minha alcova,
    dei-lhe um beijo tão forte e ardente
    que ardeu do dedão do pé ao dente,
    fiz carinhos pela frente e por trás
    dum jeito que ninguém hoje mais faz;
    bebericamos suco de caju,
    disse a ela o maior ailóviú,
    O que é que me falta fazer mais?
    XB

  2. Outra noite encontrei com a Tieta
    Bela musa de um certo Jorge Amado
    Agarrei-lhe num abraço arretado
    De tão forte ela fez uma careta
    Foi quando ela pediu: – meu fí, meta!
    E eu não nego pedido, se bem feito
    Aí dei-lhe um arrocho do meu jeito
    Que duvido que ela ainda preste
    Desde então, lá pras bandas do Agreste
    A Tieta não se aprumou direito …
    XB

  3. Tereza Batista Cansada de Guerra
    Passou mais de um ano descansando
    Acordei-me com ela me chamando
    Pra brincar lá naquele alto da serra
    Brincadeira que aqui na nossa terra
    Só se brinca em tempos de Paz
    Rapaz com muié, muié com rapaz
    E a Tereza ficou descadeirada
    Eu brinquei, deixei ela mais Cansada
    O que é que me falta fazer mais?
    XB

  4. Outra vez, u’a tal de Gabriela
    Morenaça metida a gostosa
    De presente mandei-lhe uma rosa
    Não me lembro, vermelha ou amarela
    Quando vi ela tava na janela
    Vestindo um vestido cor lilás
    Decote indo do sertão ao cais
    Porém mais lindo o que tava por baixo
    Foi ali que me achei e inda me acho
    O que é que me falta fazer mais?
    XB

  5. Brinquei com outras baianas
    Jorge nunca censurou
    Com Amália, com Amélia
    Até Brigite Bardot
    Quando quis brincar com Zélia
    Seu Amado desamou
    Mandou que eu fosse brincar
    Com u’a tal de Dona Flor …

  6. Eita, isso vai acabar num livro a ser feito pelo mestre Xico Bizerra. Maravilha. Viva!!! Há braços fraternos. Amigo querido.

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