Pode-se observar facilmente que se uma pessoa disser em quem vai votar na próxima eleição, é possível adivinhar com facilidade a opinião dessa pessoa sobre assuntos tão diversos quanto mudanças climáticas, guerra da Ucrânia, idade mínima da maioridade penal, direitos dos imigrantes e o uso do banheiro feminino. É como se todos esses assuntos não fossem questões separadas, mas apenas diferentes manifestações de um mesmo conflito básico entre dois grupos. Na verdade, é isso mesmo que acontece.
O cientista norte-americano Thomas Sowell escreveu, em 1987, o livro Um Conflito de Visões. A idéia central do livro é que existem duas formas fundamentalmente diferentes de enxergar a sociedade e os problemas que a afligem. Sowell chama essas duas formas de “visão restrita” e “visão irrestrita”. A palavra “restrito” tem o sentido de acreditar que nosso comportamento é limitado, ou restrito, por defeitos que são inerentes à natureza humana. O lado “irrestrito”, por sua vez, acredita que a natureza humana pode ser “melhorada” até o ponto de se livrar destes defeitos.
A visão restrita vê os problemas sociais como resultado de características humanas básicas. As pessoas são naturalmente egoístas, o conhecimento é limitado e disperso, os bens naturais são limitados. Não podemos mudar esses fatos, podemos apenas criar instituições que se adaptem a eles. Essa visão se alinha com pensadores como Adam Smith, Edmund Burke e Friedrich Hayek.
A visão irrestrita vê os problemas como falhas da vontade ou do conhecimento. Com os líderes certos, a educação certa e o sistema certo, os problemas podem desaparecer. É a visão do “bom selvagem” de Rousseau, que é corrompido por instituições ruins dentro da sociedade.
A visão restrita acredita em uma sociedade mais livre, onde cada pessoa busca seu modo de vida, seus valores e seus objetivos. A visão irrestrita acredita em uma sociedade planejada, onde todos compartilham os mesmos valores e ideais. A visão restrita coloca o indivíduo acima do coletivo, a visão irrestrita coloca o coletivo acima do indivíduo.
Como isso se manifesta na prática? Os partidários da visão irrestrita dizem que saúde e educação gratuitas são “direitos” que devem existir para todos, e se isso não acontece é por “falta de empatia” ou ausência de “políticas públicas” adequadas. A visão restrita pergunta “quem paga”, “quem controla” e “quais as alternativas”. É óbvio que nenhum dos lados sequer entende o que o outro está dizendo, porque estão olhando coisas completamente diferentes. Um lado se preocupa com boas intenções, o outro se preocupa com consequências (intencionais e não-intencionais).
Politicamente, a visão restrita se manifesta no chamado liberalismo clássico, que defende livre mercado, livre comércio e mínima participação do estado na economia ou nas relações sociais. Nesta visão, o governo é um conjunto de órgãos encarregados de atender necessidades específicas, como infraestrutura, defesa ou relações internacionais. Essa postura já foi chamada de “direita”, mas hoje isso não é mais correto.
A visão irrestrita, ao contrário, enxerga o governo como uma liderança que deve ser obedecida em todas as áreas. Seus partidários acreditam que dando poder aos líderes certos será possível “melhorar” a sociedade através de um meticuloso planejamento, implantado através de “vontade política” e controle centralizado do sistema escolar, da mídia e da imprensa. Isso, naturalmente, pressupõe controles que incluem a censura, que será sempre justificada alegando-se as maiores boas intenções. Uma frase de Sowell ilustra bem o desejo subjacente desta visão: “Muitas pessoas parecem pensar que o governo existe para impôr seus preconceitos aos outros através da lei.” Este desejo de melhorar a sociedade ocupa hoje quase todos os espaços da política; esquerda e direita divergem nas preferências, mas são iguais no método e nas convicções: não existem idéias diferentes, apenas idéias erradas.
Sowell não arrisca dizer em que proporção as visões restrita e irrestrita ocorrem na sociedade, mas para mim parece óbvio que o lado irrestrito está crescendo, por uma razão muito simples: este lado favorece os governos, e apóia governos fortes. Governos fortes farão de tudo para aumentar ainda mais seu poder, e o melhor método para fazer isso é doutrinar as pessoas para que acreditem que governos fortes são bons e necessários – em outras palavras, visão irrestrita. Esta doutrinação começa na infância e se prolonga por toda a vida escolar, complementada pela mídia e pela imprensa. Em alguns lugares, como nas famosas “redes sociais”, a visão restrita já está quase extinta, e o pouco que resta é tratado com uma mistura de violência e escárnio pelo outro lado. No campo que os jornalistas chamam de “cultura” – cinema, teatro, literatura, música – o domínio também é quase completo. Na verdade, não é exagero dizer que a humanidade está entrando em uma era absolutista, onde a individualidade do ser humano é esmagada pela padronização de pensamento. Será que teremos que esperar por um novo iluminismo?