MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O aspirador de pó aqui de casa parou de funcionar. Munido de chave de fenda, alicate, multímetro e um tanto de esperança, lá fui eu desmontar o dito cujo à procura de um fio rompido ou um interruptor com mau contato. Não teve jeito, o coitado (fabricado na China, embora com marca brasileira de renome) morreu mesmo. Dá para ver claramente que o motor não foi projetado para durar muito. Mas o que me chamou a atenção não foi isso.

No fundo do aparelho, ao lado de uma etiqueta do fabricante com os dados básicos, havia outra maior, com o símbolo do Inmetro, o número de uma “Resolução Conama”, a informação de que o aparelho produz “97 dB” e, maior que tudo, o número da “autorização Ibama”. Uma pesquisadinha no Google confirmou as aparências: eu só posso ter em minha casa o aspirador de pó que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) deixar.

Eu sempre fico fascinado pelo vocabulário que o governo usa: “resolução” me lembra aquelas piadas sobre resoluções de ano novo (vou beber menos, começar um regime, estudar inglês…). Mas no caso do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), dá para imaginar um grupo de desocupados (os membros dos mais de 700 conselhos federais são indicados pelos políticos, e geralmente ganham uma bela grana para participar de duas ou três reuniões por mês) falando “e aí, o quê vamos inventar hoje?” “que tal a gente inventar uma norma sobre o barulho do aspirador de pó?” “Boa idéia!”

Tomada a decisão, pode-se apostar que surgiu um departamento, vários sub-departamentos, alguns grupos de trabalho, coisas assim. Afinal, são no mínimo três órgãos envolvidos: O CONAMA que tomou a decisão, o INMETRO que vai ter um grupo para definir as normas e outro grupo para emitir os certificados para as medições, e o IBAMA que fornece a autorização para cada modelo de aspirador.

Se alguém está animado pensando “bem, pelo menos isto tudo vai beneficiar o consumidor”, eu também aposto que todo o processo foi acompanhado de perto pelos grandes fabricantes, que se asseguraram que as novas normas não iriam discordar dos produtos que eles já fabricavam. E para quem responder “bem, pelo menos não estou pagando”: sim, você está. A tal autorização custa uma boa grana, a certificação do INMETRO também, e é claro que este custo vai aparecer no preço do aspirador, junto com todos os outros. E se a grana arrecadada não cobrir as despesas de todos os novos departamentos criados, também é você quem paga, através dos impostos que vão para o caixa único do governo cuja principal despesa são justamente os milhares de funcionários que povoam os milhares de secretarias, autarquias, conselhos e institutos que se dedicam a regular nossa vida.

Eu gostaria de poder subir em um caixote na praça e gritar “governo, eu não preciso que você me diga qual aspirador de pó eu posso comprar! Para começar, minha casa não é “meio ambiente”, é a MINHA casa, que fica em ambiente urbano e não faz parte da natureza. O barulho que eu fizer limpando meu quarto não vai perturbar o sono do mico-leão-dourado ou das girafas da Amazônia. Se eu quiser comprar um aspirador de pó barulhento, eu sou adulto o bastante para isso, até mesmo porquê existem várias coisas que produzem bem mais que os 97dB do meu aspirador vagabundo e que são permitidas (provavelmente todas elas com a respectiva “autorização” e a respectiva taxa)”.

Mas não adiantaria. Eu dei o azar de viver em um lugar e em uma época onde as pessoas se orgulham de ser escravas, e ficam felizes em saber que são proibidas de tomas decisões ou fazer escolhas.

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