ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Esta semana estava escrevendo um texto em que analisava o personalismo de nossas vertentes políticas. Interrompi aquele, pois iria participar de uma mesa redonda sobre Leitura, Literatura e Ensino em um simpósio internacional que trazia visões de diferentes países sobre esse tema, principalmente os de Língua Portuguesa.

Na minha fala, apontei como o sistema de ensino brasileiro é arquitetado para o fracasso e como cada parte dessa engenharia contribui, em maior, ou menor grau para esse fracasso. Fui rebatido por um colega que, em vez de argumentar saiu com aquela catilinária de sempre: ah! O sistema brasileiro de ensino é dominado pelas potências ricas que querem o brasileiro analfabeto; ah! O setor de livro didático é dominado pelas editoras que só querem saber de lucro, ah!, o professor é o único que não tem culpa nisso, ah, que a escola está sucateada e o professor tem péssimas condições de trabalho e vive oprimido por baixo salário, e por ai vai. Eu não sou de cortar as asas de ninguém. Deixei o indivíduo falar até que a corda dele acabou.

Eu tenho trinta anos de serviços públicos dedicado à educação – disse eu naquele evento, e repito agora -. E posso dizer que, da época em que entrei na educação pública, até o presente momento, a escola, se não chegou ao paraíso, pelo menos saiu do inferno e está no purgatório. No meu primeiro ano de magistério o que tínhamos era giz branco, quadro negro e garganta. Trabalhava 50 horas/aula semanais de 50 minutos cada, ou 40 horas relógio de 60 minutos. Não havia as famosas horas para planejamento. O planejamento fazíamos aos fins de semana, em casa.

Lembro-me que o salário bruto era de o equivalente a 120 reais pelas quarenta horas. Como o salário mínimo era cerca de 180 reais, recebíamos um “abono” para igualar o salário ao mínimo nacional. Depois disso vinham os descontos e acabávamos recebendo, líquido, cerca de 145, 155 reais, em média

Disse ainda, a esse meu debatedor que as provas eram na base do mimeógrafo a álcool, mesmo assim pedindo que o aluno trouxesse, cada um, 30 folhas de sulfite, e algumas folhas de estêncil para poder fazer as provas. E quando não traziam, esses materiais saíam do nosso bolso, porque a escola também não tinha recursos para adquirir esses materiais. E, quando recebiam, duas vezes ao ano, tinham que pagar os penduras no comércio local, de material de limpeza, material de escritório, reparos elétricos, hidráulicos, e por aí vai.

E disse a ele – que pelo visto fez toda a sua carreira no ensino superior e nunca pisou em uma escola pública de educação básica -, pelo menos aqui no Mato Grosso do Sul é assim… hoje o professor conta com acesso á internet banda larga, sala de professor climatizada, cota para reprografia e para provas, todo o material de registro das atividades é on line, até o planejamento, cabendo ao professor apenas clicar no link que ele é automaticamente preenchido. Ao professor cabe apenas definir as datas de avaliação e o tipo de avaliação.

Atualmente, há quatro repasses financeiros ao ano: dois federais e dois estadual que chegam a somar quase sessenta mil reais, afora o repasse da merenda escolar que, a depender do tamanho da escola pode ser de até cem mil reais anual.

O salário médio de um professor com 40 horas semanais, a depender da titulação e do tempo de serviço pode variar entre onze e treze mil reais, além de que, de cada vinte horas de trabalho, um terço dela é para planejamento, sendo que a somatória desses planejamentos fora de sala de aula, dois podem ser cumpridos na escola, e dois onde o professor bem entender.

O que mais chama atenção nessa evolução da escola é que, apesar dessas melhorias visíveis – agora temos o projeto Educação Conectada que oferece internet grátis para alunos, professores, funcionários e pais de alunos dentro do ambiente escolar, e livre, sem senhas, nem filtros -, a qualidade do ensino público só foi ladeira abaixo. Hoje estamos no mesmo patamar de Botsuana, Ruanda, Somália e Eritreia no ranking de desenvolvimento educacional.

Ao lançar um olhar sobre esse cenário, e ver que à população que não tem condições de buscar melhores condições educacionais para seus filhos eu me pergunto: criamos mesmo um sistema educacional perverso que deixou de ter clientes cativos e passou a ter reféns do sistema?

E não digo do malvado sistema capitalista que só quer explorar mão de obra barata. É justo seu contrário, pois o sistema educacional brasileiro tem mais esquerdistas e comunistas que dentro do Partido Comunista Chinês. Ao contrário daquele ajuntamento de facínoras que usa a ideologia comunista para ganhar dinheiro, nossos comunistas acreditam piamente que só essa ideologia pode salvar o sistema educacional, enquanto isso, vão demolindo a escola.

Certa vez, estava assistindo a uma palestra de uma professora, doutora em educação – e ela se zangou comigo porque eu disse que ela não era especialista em Educação Básica. Podia ser especialista teórica, mas o verdadeiro especialista é aquele que passa 40 horas semanais em sala de aula de educação básica, sofrendo todos os tipos de privações e ameaças possíveis – e ela falando que era preciso superar esse modelo capitalista, que a escola precisava ser revolucionária, libertadora, ensinar as crianças a pensar fora da caixa – sei lá o que isso significa, mas com certeza, toda vez que alguém diz isso, Descartes se vira na tumba -, implantar uma ideologia libertadora do homem na escola. Ao término, pedi a palavra e perguntei a ela se tinha filhos em idade escolar. Diante da resposta positiva dela, questionei que, se tal escola existisse ela os matricularia na mesma. Obtive como resposta um silêncio ensurdecedor.

Assim, nossos ditos pensadores vão pensando a escola, mas uma escola que serve para o filho dos outros. Deles mesmo só servem escolas privadas, e quanto mais conservadoras e tradicionais melhor ainda. Isto porque na escola pública, e é triste dizer isso, 35% dos professores nunca leram um livro, segundo a Fundação Pró-Livro, 43% não cultivam o hábito de frequentar bibliotecas e livrarias, e 76% só leem aquilo que está no livro didático para preparar a sua aula.

E esse tipo de escola é oferecido ao cidadão. O sistema de ensino brasileiro que oferece educação ruim para as famílias pobres. Ruim, alienadora e ideologicamente fracassada, alterou o modelo de relação com a sociedade. Antes esse sistema possuía clientes cativos, mas com alguma chance de se libertar. Hoje esse mesmo sistema possui reféns. Reféns do atraso, do coitadismo, do comodismo, da preguiça intelectual, da venalidade, do afrouxamento moral, das ideologias “pogreçistas” que já debati aqui no JBF e da culpa sempre no outro.

Em trinta anos de serviço público, sempre me debati, seja em sindicato, seja em comissões de educação – participei da construção do Plano Nacional de Educação e da Base Nacional Comum Curricular em todas as esferas – e sempre briguei pela qualificação permanente do docente, pela humildade científica e pela construção de documentos factíveis. Vejam, a Base Nacional possui 678 objetivos a serem alcançados na Educação Básica. É impraticável e inatingível isso. Parece coisa de maluco, mas é a diretriz macro da pedagogia nacional.

E, como essa base também é diretriz para as escolas privadas, os defensores de ideologias torpes como a de gênero – gênero quem tem são palavras. Seres biológicos têm sexo, sempre digo isso -, o marxismo cultural, o esquerdismo rombudo conseguiu o que queria: transformou toda a sociedade em refém de uma educação que só nos levará ao atraso e ao abismo social.

2 pensou em “CLIENTES, OU REFÉNS?

  1. Roque, sei o que o que é isso. Fui professor de escola estadual e era bancário. Um dia meu diretor marcou uma reunião às 18h e eu disse que não ficava porque ia dar aula. Ele ficou puto porque minha participação era importante. Cancelou a reunião. No dia seguinte, foi chamado pra conversar. Ele perguntou quanto eu ganhava no estado. Tirei o contracheque e mostrei. “Não acredito! Eu lhe dou um aumento de 4 vezes esse salário e você fica só aqui”. Eu disse a ele que fazia por amor. E era.
    Na universidade a coisa é mais complicada. Você precisa ensinar o aluno odiar o mercado e eu faço o contrário: ensino o comportamento do mercado. Apliquei uma prova e coloquei para o pessoal discutir a proposta de Boulos de equilibrar a previdência fazendo concurso público. No shopping um cara me deu um folheto de um consórcio. O cara pagava com desconto de 25% até a data do sorteio. Botei na prova. O aluno ia explicar o que era melhor para a casa dependendo da data de sorteio.
    Enfim, educação virou um laboratório de guerra

    • Verdade Maurício. e nesse laboratório de guerra, todos buscam sabotar qualquer tentativa de alguém que procura imprimir racionalidade a essa balbúrdia.

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