CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

OS NETOS

Entre as grandes surpresas de minha vida, a mais significativa, sem dúvida, tem sido a de desfrutar da condição de avô. Experiência inusitada, sobretudo porque ela me surgiu primeiro pela via do parentesco das gerações familiares; e, em segundo lugar, pela alegria de ver o novo ser humano chegar à família e integrar-se de forma indissolúvel ao nosso destino pela força do amor.

Essas circunstâncias, que não conseguimos afastar do pensamento, são as mais decisivas para nos advertir de que a vida seguirá apesar de tudo, mas, principalmente, nos dizem que a continuidade da família ocorre de modo imprevisto, assim como se dá no processo conceptivo que, em muitos sentidos, lembra a dura disputa dos vitoriosos nas olimpíadas.

Essa verdade, no entanto, sempre foi bastante complexa para ser decifrada pelos mortais. Apesar disso, pasmem!, boa explicação sobre tal tema me foi dada por minha neta de cinco anos, quando, ao me responder sobre perguntas que sempre lhe faço ao começar o dia, me respondeu que sonhara com os dinossauros. Depois de ouvir o seu entusiasmado relato de sonho de criança, ela olhou para mim, parou de falar e, como se suspeitasse de minhas dúvidas sobre a veracidade das cenas que ela me contava, afirmou categórica:

– Vovô, a imaginação é verdadeira!

A ficha, então, caiu na hora. A imaginação para ela era autêntica verdade. De imediato, sem saber o motivo, pensei nos antigos gregos, aqueles filósofos que explicavam tudo, que admitiam ser o invisível percebido como algo plausível, real. Para eles, as vozes misteriosas de seus oráculos, os encantamentos e as magias do espírito constituíam o próprio plano da realidade. Talvez por isso os antigos tenham nos legado tantos mitos. A matéria passou a ser uma coisa ilusória, ou seja, ao contrário do que muitos pensam na atualidade. Mesmo assim, Aristóteles, então, argumentava que não bastava dizer a verdade, mas era preciso mostrar a falsidade.

Utilizando o poder da imaginação sugerido por minha neta, admiti que na atualidade parece acontecer exatamente o inverso do que pensavam os gregos. Ah, não me venham com a frase fácil de que tudo, afinal, muda. Sim, tudo muda. Nem tudo, porém. As coisas eternas são eternas, apesar do sentido provisório de nossas existências. Hoje o sentido espiritual está mais para a ilusão. A matéria tomou o lugar da realidade e, incólume, sobrepuja a tudo e a todos. Os nossos sentidos, porque reais, querem explicar todas as coisas. Assumem o protagonismo da atualidade. Não deixam espaço nem para a intuição ou outra forma de manifestação dos sentidos não consagrada. Afirmam que importante é ser moderno. Atual. Novo. O velho, coitado, vai ficando apenas para nós que acumulamos anos…

Imagino que todos os outros seres – os do ar, os da terra e os das águas – devem pressentir o significado da eternidade e, ao mesmo tempo, o da realidade. Possivelmente vivem felizes porque se mantêm longe dos humanos! E, quem sabe?, como fazem nossas netas, inocentes e a sonharem durante as madrugadas.

Ao olhar para a vitalidade física e mental de minha neta, confesso que fiquei ao mesmo tempo atordoado e rendido à beleza dos dinossauros que entravam em nossa realidade pela porta enorme da inocência. Nem me ocorreu dizer-lhe que eles foram destruídos por causa de um asteroide que se abateu sobre a Terra e alterou as condições de sobrevivência para eles e para os demais seres. Restaram, apenas, os fósseis que hoje nos contam sua história de vida e de morte. Aliás, isso pouco adiantaria, pois minha neta, com certeza, me diria que não foi assim, porque eles sempre vinham visitá-la em sonhos. Essa verdade existia de fato na sua lógica e eu não tinha o direito de combatê-la com minhas explicações de adulto. Adulto! Aprendi mais essa verdade: adulto não pode ser avô. Avô, de repente, tem de virar criança e passar a ser dirigido pela inocência. Eis o lado maravilhoso e encantador desse novo estado de graça.

Então, fiquei a recordar o essencial que dissera minha neta:

– Vovô, a imaginação é verdadeira!

Naquele dia luminoso, para mim ficou a certeza de que o espírito e a matéria, a antiguidade e a atualidade fazem parte de um mesmo cadinho, que nós, muitas vezes, por excesso de lucidez, ignoramos. As vidas dos avós, assim como as dos netos, não passam de um “faz de conta”.

Os netos, a partir de então, para mim, significam exatamente a presença do velho e do novo; do eterno e do provisório; do alumbramento ante a revelação do milagre; da força da maternidade ou da paternidade da família que se arma a partir do momento em que surge o misterioso elo provocado pela natural chegada ou adoção do novo ser que entra pela ampla porta do amor e se agasalha em nossas vidas.

2 pensou em “CLAUDIO AGUIAR – RIO DE JANEIRO – RJ

  1. Salve, salve, Mestre Cláudio!

    A lucidez e a força do texto, nos deixa embevecidos de tanta verdade.de tanta razão. Talvez, até pelo fato de ,também, ser avô.
    Se meu neto sonhasse com dinossauro, iria acharque que sonhou comigo.

    Forte abraço e até a próxima.

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