CIRO GUEDES E A DESVALORIZAÇÃO DO REAL

No ano passado, antes da eleição, havia gente entusiasmada com o discurso “progressista” e “desenvolvimentista” do Ciro Gomes, que ficou em terceiro e não foi para o segundo turno. Mas este pessoal não precisa ficar triste, porque suas idéias estão sendo seguidas pelo nosso ministro Guedes, que já foi apelidado de Ciro Guedes pela turma do mercado financeiro.

A ideia é simples e qualquer aluno de primeiro grau sabe repeti-la de cor, porque a escutou centenas de vezes de todos seus professores engajados e admiradores do socialismo: “câmbio valorizado é ruim, a moeda deve ser fraca para favorecer as exportações”. Alguns mais empolgados chegam a fixar valores: com Ciro Gomes presidente, o dólar ia custar cinco reais e o Brasil ia virar uma superpotência de tanto exportar.

Infelizmente, o dólar está subindo e está acontecendo o contrário. As exportações de janeiro foram 20% menores que as de janeiro do ano passado.

Na verdade, é quase instintivo pensar que moeda forte é bom. O governo se esforça para nos doutrinar, desde criancinhas, para conseguir que a maioria acredite no contrário. Por quê? Ora, porque é um princípio básico do governo dizer que só faz o que é melhor para nós, enquanto faz coisas que são boas para ele e ruins para nós.

Basta uma simples olhada nos dados sobre comércio mundial para constatar que os países mais abertos são ricos, e os países mais fechados são pobres. Importante: país aberto é aquele que exporta e importa, não aquele que só exporta – esse quase sempre é pobre. Os economistas podem explicar isso de várias formas (e até mesmo negar os fatos, se forem partidários do Ciro Gomes), mas eu prefiro as explicações simples: um país que é aberto às importações pode ter tudo do melhor, sem ter que bancar o especialista em tudo. Pode comprar computadores do Japão, smartphones da Coréia, automóveis da Alemanha, máquinas da Suíça. E ao exportar, tem que ser eficiente, porque está concorrendo com o mundo todo. E é mais fácil produzir algo bom se você pode importar as melhores máquinas e os melhores computadores.

O país fechado, por outro lado, não pode ter o melhor. Só pode ter o que o governo permite, que é o produto nacional. E como é difícil ser tão bom como o Japão, a Coréia, a Alemanha e a Suíça ao mesmo tempo, as pessoas só podem ter computadores ruins, smartphones ruins, automóveis ruins, máquinas ruins. E caras, porque se as empresas tem um mercado garantido, porque se esforçar?

Para participar do mercado global, há dois caminhos. O primeiro, o dos países bem-sucedidos, é ser bom em alguma coisa. Fazendo isso, o resto do mundo vai querer seus produtos, e com isso a população vai poder comprar o que quiser. A Nova Zelândia é boa em produzir ovelhas. A Escócia, em uísque. A Coréia do Sul produz aparelhos eletrônicos. O Japão é bom em automóveis. O Chile produz vinhos e cobre. E por aí vai. Nenhum deles quer produzir tudo. A Nova Zelândia não tem fábricas de automóveis nem de eletrônicos: eles preferem comprar dos melhores (e veja que interessante: eles não importam automóveis nem computadores do Brasil).

O segundo caminho é seguido pelos que não querem ou não conseguem ser bons em nada: vender barato. O jeito mais fácil de fazer isso é justamente desvalorizando a moeda. Quanto mais “forte” for o dólar ou o euro, mais vantajoso parece ser o negócio. Parece, mas não é, porque exportar com câmbio desvalorizado é simplesmente trabalhar por mixaria. O que adianta dizer “minhas exportações este mês renderam trocentos bilhões de merrecas”, se estes trocentos bilhões de merrecas não valem nada?

Também há um outro lado a considerar: a moeda fraca “incentiva as exportações”, certo. Mas por que os exportadores, que são uma pequena parte da sociedade, devem ser os únicos privilegiados? Afinal, existem muitas pessoas que não trabalham no setor de exportações, mas que consomem produtos importados, porque no Brasil, quase tudo depende de insumos importados: remédios, automóveis, telefones, computadores, geladeiras, e um sem-fim de etc. Produtos importados afetam os custos da passagem de ônibus, da comida e da roupa. Em resumo: enfraquecer a moeda para incentivar exportações significa prejudicar uma grande maioria, e ao mesmo tempo colocar uma minoria à serviço dos outros países, que são os que realmente se beneficiam. Participar do mercado de soja, milho e minério de ferro baixando o preço não é o caminho para enriquecer ninguém.

Isso não quer dizer que não podemos ser um grande exportador de soja ou minério de ferro. Podemos, mas desde que nossa competitividade venha da eficiência, da tecnologia, da produtividade. Produzindo com eficiência, não precisamos baixar o preço. A Escócia não precisa de moeda desvalorizada para vender uísque para o mundo todo. A Suíça tem uma moeda fortíssima e mesmo assim todos os países querem comprar seus produtos. E sempre é bom lembrar: não acredite na imprensa chapa-branca que diz que a China conquistou mercado desvalorizando a moeda. É mentira. Durante todo o período em que a China cresceu a passos de gigante, sua moeda se valorizou frente ao dólar (e nos últimos anos, quando sua economia desacelerou, a moeda voltou a cair). Aliás, na grande maioria dos países, a relação é sempre a mesma: economia crescendo, moeda valorizando; economia piorando, moeda desvalorizando. É quase inacreditável que economistas e jornalistas continuem repetindo que moeda desvalorizada é bom para a economia.

Concluindo: algumas pessoas votam por ideologia: para elas, o seu político é sempre perfeito. Outras votam por impulso ou simpatia. Mas a maioria vota com o bolso. Se nosso ministro da economia seguir com essa política, o governo não vai ter muito o que mostrar nas próximas eleições.

14 pensou em “CIRO GUEDES E A DESVALORIZAÇÃO DO REAL

  1. Interpretar e comentar o nosso colunista Goiano é fácil, pois ele assume sua psicopatia pelo Lula e é coerente a isso.

    O duro são os Isentões, que se dizem contra o PT, porém dentro do peito bate um coração que chora a perda dos tempos da quadrilha.

    Numa economia liberal, como a nossa, Dólar flutua de acordo com o mercado e não com a vontade do Guedes. O máximo que o BC pode fazer é controlar especulações, porém não pode lutar contra a uma tendência

    Do dia 28/01/2020 para cá todas as economias mundiais tiveram suas moedas desvalorizadas perante ao Dólar e o mercado de ações já perdeu 1,5 tri de dolares em função das incertezas causadas pelo Coronavirus.

    A OCDE já previu que a perda mundial de crescimento é de 0,5% em função do vírus em 2020.

    Isso não tem nada a ver com incentivo às exportações, visto que uma retração mundial é péssima para todas as economias que são baseadas em exportações de commodities.

    O Brasil pode se safar em parte desta crise, pois suas exportações são de commodities agrícolas. A China vai importar mais carnes bovinas e deixar de lado os morcegos. Também não deixarão de importar soja.

    No mais, comparar Guedes com Ciro é de uma picaretagem intelectual a toda prova.

    • João, infelizmente seus chutes estão todos errados.

      Em primeiro lugar: o dólar estava em 3,73 em julho do ano passado. No segundo semestre subiu 8%. Só em janeiro deste ano subiu mais 5,5% e chegou a 4,26. Isso tudo foi antes do corona vírus.

      Neste mesmo período em que o real caiu mais de 13%, o peso mexicano foi de 19,08 para 18,82 (valorizou 1,5%), o Sol peruano variou de 3,29 para 3,36 (2%), para ficar só nos nossos vizinhos latino-americanos. Outras moedas fortes pelo mundo também não cairam no ano passado. Quem caiu foram moedas fracas de países como Brasil e Chile (e mesmo o Chile com todos os problemas que vem enfrentando caiu menos que o Brasil).

      Em segundo lugar, sua afirmação “Numa economia liberal, como a nossa, Dólar flutua de acordo com o mercado” não faz o menor sentido, mesmo porque o Brasil nunca esteve nem perto de ser uma economia liberal. Nossa economia é estatizada, regulada e amarrada pelo governo. E o “mercado” que você acha que define o dólar, não é uma entidade extra-terrestre que se guia pelas estrelas. O mercado reflete a economia do país, economia essa que no Brasil é totalmente controlada pelo governo. Então, se o dólar subiu, é porque o mercado percebeu que nossa economia vai mal. Para fazer uma metáfora, seu argumento é como dizer que a febre veio da vontade do termômetro, não da doença.

      Você argumenta: “O máximo que o BC pode fazer é controlar especulações, porém não pode lutar contra a uma tendência”. Sim, mas onde eu falei do Banco Central? O Guedes é o Ministro da Economia, não o presidente do BC (que é outro incompetente, aliás). E a tendência do dólar depende justamente daquilo que o “mercado” vê na ação do Ministério da Economia. País com economia mal administrada tem moeda fraca.

      Em terceiro lugar, “comparar Guedes com Ciro é de uma picaretagem intelectual a toda prova”, por quê? Não foi o Guedes que falou que “não vê problema em dólar a R$ 5,00”? Não foi o Guedes que falou que subida do dólar só atrapalha quem quer ir a Miami? E não foi o Guedes que permaneceu mudo todos estes meses sobre o assunto, como se zelar pelo valor da moeda nacional não fosse problema dele?

      Sim, meu caro, no que se refere ao câmbio nosso Guedes está sendo tão irresponsável como Ciro Gomes seria, goste você ou não.

      Por isso, em quarto lugar, gostaria que você fosse claro quando fala em “isentões”. Se alguém aqui está agindo como petista, é você, que fica zangado quando falam mal de seu ídolo e rebate com acusações e xingamentos. Eu não tenho político de estimação, falo bem daqueles que acertam e falo mal daqueles que erram. E mostro os fatos, os argumentos e os números.

      E se você fica ofendido quando falam mal dos seus queridinhos, e acha que a melhor forma de responder não é argumentando, mas acusando o interlocutor de quadrilheiro ou de petista, tenha pelo menos a hombridade de fazê-lo de forma explícita, não com frases vagas. Isso é coisa de covarde.

  2. Considero o Goiano um dos petistas mais ferrenhos que eu conheço.

    Como eu já disse, ele já se declarou doente pelo Lula e eu o respeito por isso.

    Os Isentões não são petistas ou quadrilheiros, só se acham acima dos outros.

    O Paulo Guedes, um Chigago Boy, pode ser tudo, menos um intervencionista.

    Se ele estabelece um teto para o dólar, é óbvio que vão testar imediatamente este limite.

    Não sei se v. percebe, há no momento um jogo em que pessoas poderosas apostam no caos para ganhar dinheiro, no mundo e no Brasil.

    Já ouviu falar na elite Globalista? Já sei, é uma “teoria da conspiração de terraplanistas”.

    Um grande abraço e me desculpe se o ofendi.

    • Veja como são as coisas, João.

      A palavra “Elite” no dicionário significa algo bom, mas hoje se usa como xingamento.

      A burguesia (os moradores dos burgos) foi a responsável pela evolução do regime feudal para a economia moderna, mas hoje “burguês” é xingamento.

      Isenção sempre foi uma virtude, mas hoje usa-se isento (no aumentativo) como xingamento.

      Eu pretendo continuar tentando ser isento (critico quem acho que merece crítica, elogio quem acho que merece elogio), burguês (moro na cidade, versão moderna do burgo) e elitista (procuro estar junto aos melhores para aprender com eles, e me afastar dos piores, onde não há nada para aprender).

      Quanto ao Guedes, se ele segue a Escola de Chicago, talvez isso explique a quantidade de chicagadas que têm feito ultimamente.

  3. Marcelo, David Ricardo tem a teoria das vantagens comparativas. Exatamente isso: eu produzo aquilo que meu custo de oportunidade for menor. Eu compro um garrafão de água a R$ 7,00 e pago R$ 4,50 por um litro de gasolina. Agora a jumentice é enorme.
    Eu era bancário quando Ciro passou pouco mais de cem dias como ministro da Fazenda. Chamou consumidor de otário e fez mais, como:
    1) fixou em três meses o prazo para empréstimo pessoais e financiamento;
    2) proibiu a formação de novos grupos de consórcio e proibiu lances em consórcio. Prêmio só por sorteio;
    3) trabalhou pela privatização da Telebrás e quando saiu do governo passou a criticar FHC;
    4) brigou com todo mundo do gabinete. Com o chefe da política econômica a conversa era protocolar;
    5) desagradou a fiesp de tal forma que o presidente dessa instituição disse apoiar o plano real, não o ministro.
    O destempero é absurdo.

    • Maurício, é claro que o Guedes, mesmo não sendo um exemplo de humildade, está longe do destempero maluco do Ciro Gomes. A minha referência foi especificamente em relação às idéias desenvolvimentistas sobre o câmbio, onde os dois estão se parecendo tanto no discurso quanto na prática.

      Eu acho espantoso que um governo, qualquer que seja, adote uma postura que diga “não nos importamos em ter a moeda fraca”. E nossos governos, todos, vêm falando e fazendo isso há décadas.

      • Desespero, quem está morrendo afogado se agarra até com jacaré. NO passado já fiz um comentário, senão aqui na minha coluna num jornal aqui da região. O PIB- C+i+g+NX, ou seja, consumo + investimento + gastos do governo + exportações liquidas. O PIB não vai crescer via consumo porque não há renda . O desemprego está alto, ainda. O investimento, embora a taxa de juros esteja baixa não consegue alavancar porque o desemprego também atrapalha. Não tem como o empresário investir sem que haja demanda. Os gastos do governo não tem a menor condição de ser usado, embora como multiplicador econômico ele é melhor do que as transferências de renda. Resta, exportações líquidas e não temos competitividade para enfrentar mercados com produtos de melhor qualidade, então a saída é desvalorizar a moeda. Como você disse, apesar disso, janeiro foi um volume menor, mas isso também é fruto retração econômica no mundo. Está caindo em todo canto. O FED acabou de reduzir a taxa nos EUA em 0,5 pp.

        • Maurício, sei que nossas visões da economia são de escolas diferentes.

          Na minha visão, demanda sempre há. Se não investimento para produzir, é porque ninguém confia no país, e isso inclui câmbio que afunda, burocracia que sempre aumenta, segurança jurídica que não existe, fiscais e políticos cuja única preocupação na vida é achar maneiras de cobrar mais impostos, taxas, tarifas e propinas.

          É só o governo deixar de atrapalhar que o brasileiro investe e produz. Aliás, se não fosse a teimosia de muitos brasileiros em trabalhar mesmo sendo massacrados pelo governo, isso aqui já seria uma Somália ou um Zimbábue.

  4. Marcelo como sempre brilhante. Vou acrescentar mais problemática: Com juros de 10 anos pagando menos de 1%, por que os investidores preferem aplicar em títulos americanos do que no Tesouro Brasileiro que paga 3%, mais inflação? Com a inteligência artificial, automatização e globalização destruindo empregos, por que a economia americana, muito mais automatizada do que a brasileira, tem um desemprego muito menor?
    Infelizmente no nosso Brasil varonil é difícil entender que menos (governo) pode ser mais (progresso)

    • Bem lembrado, esqueci de colocar isso no artigo: que adianta investir aqui com juro mais alto se na hora que o investidor quiser resgatar o investimento, os reais vão comprar menos dólares do que ele tinha antes?

  5. Marcelo, demanda sempre há, o que nem sempre há é demanda efetiva. Ou seja, as pessoas procuram por produtos, necessitam até, mas o que não há é demanda efetiva porque não há renda. Os Economistas clássicos se apoiavam na lei de Say “a oferta gera sua própria demanda”, isto é, ponha o produto na rua que vai aparecer alguém pra comprar. Isso não deu muito certo, tanto que Keynes trouxe esse conceito de demanda efetiva.
    No governo Temer a Economia cresceu 1% num trimestre por conta da liberação das contas de FGTS. Cabe lembrar que os gastos do governo não pode crescer por conta da PEC e nós estamos com um déficit orçamentário absurdo. Em tese: se o governo fosse um empresa privada ela estaria em regime de recuperação judiciário, o famoso RJ.
    A desvalorização da moeda tem suas implicações péssimas, mas eu não vejo como crescer sem esse sacrifício.

  6. Não me expressei bem. Também estou falando de “demanda efetiva”, claro, demanda sem renda é só desejo, é economicamente irrelevante.

    O que eu queria dizer é que sempre existe alguma produção e alguma renda, não existe um lugar onde todo mundo esteja sentado sem fazer nada. Existindo alguma produção e alguma renda, existirá alguma demanda, A MENOS QUE o governo absorva tudo que passar do nível mínimo de sobrevivência com impostos e regulações. Aí realmente podemos dizer que a demanda efetiva, na prática, é zero.

    Em outras palavras, qualquer alívio do governo na carga tributária ou na burocracia regulatória (cujos custos às vezes são maiores que os impostos) resultará rapidamente em um aumento na demanda, e este aumento gera realimentações positivas que impulsionam a produção e o consumo. Para mim é o único caminho em uma situação como a nossa (mas eu sei que é mais fácil o limoeiro do meu quintal dar abacaxi do que a gula de nosso governo diminuir).

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