JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Cláudio Manuel, filho do grande José Cláudio (os dois pintores), é mais conhecido como Mané Tatú. Um apelido que vem desde os tempos em que podia pegar o bicho do mato, e comer, sem cometer crime inafiançável. Foi fazer esse exame, Cintilografia do Miocárdio, para “avaliar o fluxo sanguíneo nos vasos e artérias que irrigam o coração”, e contou como foi.

Lembro de outro amigo querido, João Ubaldo Ribeiro, autor de Viva o Povo Brasileiro e cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras. Estávamos todos em Ipanema, grupo grande (Millôr e companhia), almoçando na cobertura de Eliene e Chico Caruso – gênio desenhista, da Globo. Foi a pessoa mais engraçada que conheci. E decidiu contar um exame na próstata que fez. Levantou e passou mais de uma hora explicando. O exame de Mané Tatú lembrou as agonias do João Ubaldo. Como escreveu tudo e me mandou vou dividir aqui, com os leitores, a narrativa dessa experiência.

“Foi como a maratona. Dei entrada na recepção. Uma amiga ficou nas cadeiras, depois chegou junto. Acompanhamento até pagar, de 1.900 por 1.805. Moça simpática, Cintia, colocou a pulseira para identificar pacientes em atendimento. Entramos nós três na área das salas e cadeiras e máquinas. Alaska é mais quente. Conferir nome, data nascimento, etc., pulseira.

“A amiga foi convidada a sair por causa das radiações. Ficou vindo me ver, de vez em quando, não sei como deixaram. Foi bom porque o celular fica sem sinal. Alex, o enfermeiro, me levou para colocar bata nua. Uma coisa ridícula. Depois colocar o acesso, foi dor demais, errou, veia estourou, tapei os olhos, sangue. Eu disse porra, puta que o pariu, tá doendo caralho. Tirou. Ele disse abra o olho só quando eu terminar. Tentou outra veia e, milagre, acertou. Finalmente limpou tudo, entrada na mão direita. Aplicou soro gelado. Aplicou contraste. Dez voltas no recinto, para espalhar a droga. Fui pra sala de espera, etapa A.

“Tomar três copos d’água. Uma hora de espera. Sala com seis adultos mulheres e homens, todos de bata. Todos igualmente com acessos. Das 13:00 às 16:00hs. Chamados sra. Fulana, sr. Beltrano, e assim a fila andava. Seu Cláudio. Fui lá. Banheiro, xixi. Medo. Nervoso. Primeira vez na xscam. Deitado. Imóvel. Não pode respirar fundo. Não pode tossir. Não pode mexer. Vai começar. Eu disse pare, quero tossir. Vai começar.

“Começou. Fique imóvel por 12 minutos. Pode fechar o olho. Mas não durma. Demora anos, esses 12 minutos. Terminou. Me ajuda a levantar. Sala de espera, uma hora.

“Seu Claudio, segunda etapa. Esteira com fios e contraste. Sem bata. Chega o médico, Dr. Eduardo Paixão. Olá, boa tarde, aguenta andar? Sim, pouco. Quando cansar avisa, ok. Eletrodos. Contraste novamente. Começou. Olha pra frente. Segura sem fazer força nas mãos. Tudo bem com o senhor? Sim. Acabou. Vá pra sala de espera.

“Etapa 3. Mais uma hora de espera. Terceira máquina. Deitado. Mais um copo de líquido. Doze minutos imóvel. Terminou. Tira acessos. Pode ir. 16:40hs saímos. A amiga disse que dormiu, acordou, foi lá me ver e tal. Tinha uma senhora de uns 80 anos, bem abusada. Que demora! Que demora! De três em três minutos ela dizia Mônica Brito. Disse que foi operada em Atlanta por dr. Pacífico. Pedi licença para peidar.

“Aí falei, de maneira educada, minha senhora preciso ir lá fora para rezar. Ela não entendeu e disse não pode. Reze dentro da área. Resultado. Fui rezar (digamos assim) quatro horas depois. Que sufoco. Abraços. Mané, como eu previ, teu exame foi normal. Está indo bem. Fique tranquilo. Não estou escondendo nada. Tudo está sendo feito com critérios e cuidados. Para garantir sua segurança, o médico André Valença respondeu”.

Em resumo, nosso Mané sobreviveu. Escapou, talvez seja uma descrição mais adequada. João Ubaldo, faltou dizer, não tinha nada. O exame foi inútil. A humilhação, na dedada que tomou, desnecessária. Com Mané Tatú deu-se algo semelhante. Está em plena forma. Pronto pra outra. Viva Mané!!! O risco é ter que repetir, qualquer dia desses, acontece.

P.S. No Mercado de Campo de Ourique (de Lisboa, nosso preferido), em meio a cerejas do Fundão e melões Pele-de-Sapo, apareceu agora côco. Alvíssaras. Vendido, aqui, por 14,50 euros o quilo. Maria Lectícia comprou um que tinha cerca 1,1 quilos. Traduzindo, saiu por mais de 100 reais. E a gente reclamando quando, em Boa Viagem, o barraqueiro cobra 2, 3, 5 reais por um… A explicação, para o preço, é que “vem do Brasil”. Deus do céu. Amargo côco.

8 pensou em “CINTILOGRAFIA DO MIOCÁRDIO

  1. Belo texto, como sempre.
    Por coincidência, hoje, 10h, adentrarei ao RHP para fazer uma cintilografia do miocárdio. Espero ter melhor sorte que Mané Tatu (pelo menos não ter uma velha peidona ao meu lado). Não sei ‘rezar’.
    Para compensar, antes de chegar ao Hospital, passarei numa barraca de coco da Avenida para tomar 3 geladinhas. Na volta, se escapar do exame, tomo mais 3 lembrando de vocês. Doce coco!
    Obs: meu exame será feito pelo amigo Dr. Sérgio Azevedo, também médico de algumas celebridades (Luíz Berto, Jessier Quirino, Chico Pedrosa, Zelito Nunes, dentre outros). Dr. André Valença tenho a sorte de conhecê-lo, foi médico de Dulce, minha mulher).

  2. Uma conversa puxa outra. Pois bem, o Covid que quase me matou por comprometer meus pulmões em 65%, quando finalmente curado, exigiu a necessidade de fazer dez mil exames pela peneumonia viral herdada, que eu fiquei tratando por quase dois meses com antióticos fortes e exercícios respiratórios.
    Em um dos exames de imagem a descoberta do Dr. José Roberto, cardiologista cuidando de mim há uns quinze anos:
    – Jesus, você tem uma má formação no coração, de nascença, com um músculo fazendo uma ponte sobre uma artéria – explicou-me simulando com as mãos o sistema – e nós precisaremos ver se sob estresse ou cansaço extremo pode lhe causar parada cardíaca.
    Ora! O histórico de infarto e outros males do coração por parte da família de papai, veio logo me mandando a mensagem “lascou-se!”
    Uma semana depois eu me vi numa sala de hospital cheia de monitores, dois cardiologistas, uma enfermeira, uma esteira, dois túneispara escanear meu corpo e um desfibrilador. Um desfibrilador?!
    – Doutor Zé, eu corro risco de morte neste exame? – perguntei olhando de soslaio para o aparelho.
    – Total! – respondeu o outro cardiologista. E continuou: – Mas, num se aperrei não! Dessa vez você nem vai precisar esperar três dias pra ressuscitar. Nós lhe ressuscitaremos hoje mesmo.
    Grande incentivo! Maior ainda foi o consolo.
    “Piadinha de mal gosto”, eu pensei.
    E tome líquido na veia, meia hora de papo pra cima no primeiro túnel, doze minutos na esteira com mais líquido na veia durante a corrida “para elevar seu nível de adrenalina e estresse” , outra meia hora emborcado no outro túnel, onde adormeci de tão cansado.
    Quase duas horas depois eu saí vivinho, sem nenhuma morte, sem ressurreição natural ou automática. E o melhor: com a certeza que a tal ponte não me mata nem no estresse, nem no cansaço extremo.

  3. Eita, Jesus, estavas prontinho p seguir o mesmo destino do teu xará Nazareno. Só ficou faltando dois ladrões ao teu lado …

  4. Belo texto Dr. José Paulo, passei recentemente por este martírio e jurei que jamais o repetirei, é terrível, esta foi uma exigência da Receita Federal para que eu provesse que havia colocado tres stents no meu coração (após infarto) e me isentar do pagamento do Imposto de Renda. Já se passaram seis meses e nada de homologação, quanto ao côco, em Brasília está custando r$ 10,00.

  5. Devemos das vivas a Jesus, mestre Xico, que ele escapou. E há braços a todos, na esperança de que não precisem fazer esse danado de exame.

  6. Fui fazer exame pra ver como está a próstata. Baixei a calça, curvei a coluna e o médico com o dedão em riste demorou a introduzi-lo. Estará havendo algum problema, pensei.
    O médico pediu: procure relaxar.
    Mas Dr. como vou poder relaxar nesta posição e com o senhor aí de arma em punho?

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