A PALAVRA DO EDITOR

Ontem Aline estava futucando nos meus arquivos de fotos antigas a meu pedido.

Pra ver se encontrava uma foto minha com Seu Luiz, meu  saudoso pai.

E lá pelas tantas ela me perguntou quem era essa belezura ao meu lado:

E eu informei que era o escritor russo Boris Zakhoder.

Esta foto foi feita nos anos 80 do século passado, quando participei do IWP, o International Writing Program, promovido pela Universidade de Iowa, lá nos Zistados Zunidos. Um programa composto por muito eventos, debates e conferências, que contou com a participação de um grupo de escritores de todos os continentes e durante o qual fiz imorredouras amizades.

Este editor, inxirido e metido a besta, foi lá a convite do governo americano. Convite feito através da embaixada no Brasil.

Os zamericanos devem ter achado minha carinha linda e inventaram de me botar na lista.

Daqui da América do Sul, só eu e o argentino Carlos Gardini, de quem me tornei amigo e que encantou-se em 2017.

Foi uma mordomia arretada que durou  vários meses e que contou com muitas viagens de todo o grupo lá dentro daquele imenso país. Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco, Nova Orleans e Chicago, entre várias outras, foram algumas das cidades pra onde nos levaram

Pois voltando ao Boris da foto lá de cima, quero dizer que se trata de um importante autor da literatura russa infanto-juvenil e foi quem traduziu do inglês para o russo o clássico “Alice no País das Maravilhas”. Não aprendi nada sobre a literatura do seu país e nem tive muito tempo de conversar com ele sobre literatura brasileira porque nossos encontros se resumiam apenas a um incessante consumo de vodca e de cachaça.

Do mesmo jeito que eu, o escritor russo trouxera em sua bagagem a bebida nacional do seu país a fim de enfrentar os quatro longos meses que teríamos pela frente na terra dos americanos.

Conheci este simpático sujeito quando se estava ainda nos primórdios do governo Gorbachov que, em boa hora e já tardando, deu início à Perestroika e à Glassnot, palavras russas que significam, respectivamente, reestruturação e transparência.

E, graças a isso, o carcomido e jurássico comunismo soviético foi solenemente sepultado, dando início a um novo período na história do mundo.

E foi em consequência desta política que um ansioso Boris, com a permissão do governo do seu país, pôde viajar para os EUA e participar do evento. O programa já havia tentado várias vezes trazer um russo para participar do seminário, mas sempre sem sucesso, graças ao tenebroso cagaço que os comunistas sempre tiveram de ar puro, de liberdade de expressão, de conversa franca e de pensamento livre.

Pois bem. Eu não esqueço nunca do ar maravilhado que Boris fazia sempre que estávamos tirando cópias xerográficas dos nossos trabalhos e escritos, no Departamento de Letras da universidade onde se realizava o seminário.

Um dia ele me disse bem sério, apontando a copiadora xerox: “No meu país, é impossível alguém ou alguma instituição como esta aqui ter uma máquina dessas, capaz de fazer cópias e multiplicar ideias. O governo não permite”.

E eu achei essa informação fantástica, bem reveladora da paranoia em que mergulham as tiranias no que diz respeito à transmissão de ideias que não sejam exatamente as oficiais. Uma máquina de fazer cópias na antiga Rússia comunista deveria provocar o mesmo pavor que um obsoleto mimeógrafo causa nos dias de hoje em Havana.

Curioso, fui pesquisar na internet sobre o meu estimado amigo e descobri que ele havia se encantado em novembro de 2000, aos 82 anos de idade.

Se aí no infinitivo tiver vodca ou cachaça, tome umas lapadas por mim, meu amigo Boris. Aqui na terra eu estou em abstinência compulsória.

No Wikipedia tem uma página sobre ele.

Cliquem na imagem abaixo para acessar:

Boris Zakhoder (1918-2000)

12 pensou em “CACHAÇA E VODCA

  1. Deve ser bom demais chegar a sua idade, olhar para trás e ter um monte de histórias pra contar às novas gerações. Sou seu fã! Grande abraço!

    • A admiração é recíproca, meu caro amigo: também sou seu fã.

      Você tem nas veias o sangue do seu pai, o grande e saudoso Zé Vicente da Paraíba, e é um dos maiores talentos da atualidade na poesia nordestina.

      Um grande abraço!

  2. Parabéns pelo brilhantismo que sempre teve, querido Editor Luiz Berto!

    É um orgulho fazer parte do JBF, cujo timoneiro é um homem ilustre e de uma cultura ímpar como você!

    Grande abraço, extensivo a Aline e João, e um feliz fim de semana!

  3. A tabelinha perfeita: BB = Boris e Berto.
    Cachaça e vodka.

    Um brinde a literatura e outro a liberdade.

    Aposto que seus rascunhos sobre estes inesquecíveis 4 meses, renderia um excelente romance.

    Me atreveria até um título:
    O vôo da Besta Fubana.

    Cabra arretado!

    • Esta minha participação no programa internacional de escritores já rendeu um texto.

      Não um romance, como você, sugeriu. Mas uma espécie de relato de viagem.

      Título: “Brazilian Go Home!”.

      Tá aqui na gaveta aguardando revisão pra publicação.

  4. Quem vê assim o Berto, com essa fala e esse jeitão nordestinos, pode pensar que ele é uma pessoa comum. Mas não o é! Berto é “avis rara”. Como podemos constatar, Luiz Berto é escritor de mancheia, reconhecido internacionalmente.
    Acabo de abrir um pacote, com importante compra feita na Editora Bagaço (Bagaço Design Ltda.), contendo dois livros de autoria do grande Luiz Berto: “O ROMANCE DA BESTA FUBANA”, 4ª Edição, Recife, 2019; e “A Guerrilha de Palmares”, Recife, 2016. Já os coloquei na primeira fila dos livros de minha cabeceira. Parabéns, Berto! Parodiando aquele seu velho amigo radialista nordestino, digo-lhe: você é um monstro sagrado da literatura brasileira. Um forte abraço do amigo cearense.

    • Êita peste!!! Fiquei ancho que só a porra.

      Brigadão pela generosidade do seu comentário, meu amigo.

      E espero que goste da leitura dos livros que adquiriu na minha editora, a Bagaço.

      Ganhei o dia!!!

  5. Pingback: UM EDITOR AMOSTRADO E INXIRIDO | JORNAL DA BESTA FUBANA

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