Li alguns comentários sobre o Nordeste, aqui no JBF, onde havia referências ao bolsa família, a região sul etc. Sem dúvida nenhuma, falo como pesquisador/economista/professor, os dados do governo mostram que na região Nordeste, o número de beneficiários do bolsa família superam a quantidade de empregos formais. Eu estava com uma proposta de orientação de uma dissertação sobre o bolsa família, mas a mestranda desistiu de minha orientação (diga-se: a primeira em minha vida como professor, que alguém desistiu dos meus conhecimentos). Caso essa dissertação tivesse sido encaminhada, teríamos um trabalho coeso, isento de paixões políticas e de doutrinação e com resultados importantes.
Eu acreditei muito nessa proposta e depositava as esperanças numa análise econômica considerando os efeitos sobre o consumo, o impacto na previdência e a contribuição para o crescimento econômico, não apenas da região, mas no país. Na minha cabeça, eu tinha alguns modelos que poderiam ser testados, mas infelizmente ficou esse vazio em minha trajetória.
Eu concordo com um comentário de que o nordestino não recebe bolsa família por preguiça, mas entendo que existe uma leniência muito grande em se sentir agradecido e dar votos os canalhas que usam de recursos dessa natureza para manter a pobreza. Concordo com a lógica de que o beneficiário prefere a econômica informal (a dissertação ia tratar disso também). Eu imaginei que com essa orientação, era possível testar algumas boas hipóteses. O mercado produtivo nordestino tem uma característica diferente do que temos no Sul e Sudeste. Aqui prevalece mais agricultura, comércio e serviços, enquanto no Sudeste e no Sul, há uma tendência maior de indústria e uso exaustivo de tecnologia, que é um produto fantástico. Imagine, por exemplo: quantos caminhões de banana teriam que ser vendidos para se comprar uma iphone 17 (R$ 6.000,00)?
No Sul ou Sudeste, sai de um emprego, ele busca outro na mesma atividade. No Nordeste ou Norte, a coisa fica em torno das atividades comerciais, prestação de serviços ou o próprio setor público. O estado do Maranhão é o maior descalabro em termos do uso nefasto dessa política: lá, para cada um emprego formal, tem dois beneficiários do bolsa família. O estado apresenta os piores indicadores sociais do país.
Em 2017, eu publiquei um artigo sobre os financiamentos do BNDES na região Nordeste entre 2002 e 2017 (quem tiver interesse pode consultar através do link Revista Paranaense). Esse artigo mostra que do total de financiamentos realizados 73% são destinados ao setor de comércio e serviços, aqui considerando-se aquilo que a gente chama de indústria do turismo que tem alta empregabilidade e uma cadeia produtiva interessante porque envolve transporte, lazer, restaurantes etc.
Não dá para comparar com o que acontece no Sul ou Sudeste. O estado de Pernambuco, o velho Leão do Norte, era a maior economia do Nordeste. Na região metropolitana do Recife, haviam três grandes parques industriais: ao norte, Paulista; ao oeste, o bairro do Curado, na entrada da cidade pela BR 232 e ao sul, o bairro de Prazeres (Jaboatão dos Guararapes) e Cabo de Santo Agostinho. As indústrias que constituíam estes parques eram do porte da Phillips, Tintas Coral, Pirelli, Hering, Aço Norte Gerdau.
O que havia em comum com estas indústrias? Todas elas receberam incentivos fiscais da SUDENE por um período de 30 anos, algo como um desconto nos impostos sobre produção da ordem de 75%. Em termos de benefício, era fantástico produzir aqui e escoar a produção para vender pelo preço do mercado no Sudeste. Daí, 30 anos passaram rápido e estas empresas fecharam suas portas. O custo de produção mais a colocação do produto no mercado ficou sem competição econômica.
Não tem como a gente desenvolver o país sem levar em conta as diferenças regionais. Pegue dados do Tesouro Nacional, e veja que estados da região sul arrecadaram, em 2025, mais do que a soma da arrecadação dos estados nordestinos. Só Santa Catarina arrecadou mais do que Sergipe, Alagoas e Rio Grande do Norte, juntos. Mas, isso não é apenas pela empregabilidade da mão de obra ou pela baixa adesão ao bolsa família (em Santa Catarina, por exemplo, a relação entre beneficiários do bolsa família e empregos formais é 0,64, a mais baixa do país).
O ponto principal é o tipo de produto que produzido. A região tem forte atuação no plantio de soja que é uma comodity, que é valorada na bolsa de futuros. A região tem um desenvolvimento tecnológico e, como disse lá em cima, tecnologia é valor de mercado.
Eu acredito que a orientação política e a herança do coronelismo, dos feudos, gera esse comportamento de carência no Nordeste. Aqui em Pernambuco, por exemplo, nas eleições de 1982, o governador eleito – Roberto Magalhães – era de direita. Depois dele, os únicos govenadores de direita foram Gustavo Krause, Joaquim Francisco e Mendonça Filho e estes governaram por 9 meses. Mendonça Filho foi vice de Jarbas Vasconcelos e tentou a reeleição, mas foi derrotado por Eduardo Campos.
Em Pernambuco tivemos: Miguel Arraes (8 anos), Jarbas Vasconcelos (6 anos), Eduardo Campos (8 anos), Paulo Câmara (8 anos) e Raquel Lyra (esta vincula sua campanha ao atual presidente da república e tenta a reeleição). O que me admira é não perceber o mal que esse pessoal faz e votar neles. João Campos, por exemplo, concorre ao governo. Dá para ser feliz?
Meu caro Assuero e seus textos exemplares. Sou nordestino de Alagoas, fui do tempo que se ganhava por horas trabalhadas ou produção, comecei no corte da cana crua e amarrada em feixes. Mas sempre sonhei ir sempre adiante, estudando e buscando algo melhor pra meu futuro. Hoje vejo uma juventude que vive o presente e esquece o futuro, contrariamente a minha visão de vida. A educação hoje passa longe do meu tempo de mestres focados, respeitados por seus alunos, onde tínhamos respeito ao nosso país e autoridades que se faziam respeitar. Abraço.