CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Caro Berto,

Envio-lhe um Conto de minha lavra: “O afilhado do Kennedy”, publicado no jornal O POVO, Fortaleza, Ceará, de 13 de fevereiro de 1988, Segundo Caderno, p. 6, cujo texto original do “O POVO” encontrei ontem em meus preciosos escaninhos.

Trata-se de uma história real ocorrida no interior do Ceará, que eu a transformei em conto no início de 1988, porém já ouvi muita gente contando-a aos quatro ventos.

Caso seja possível, gostaria que você o publicasse nessa democrática Gazeta.

Grato,

* * *

O AFILHADO DO KENNEDY

Zeca D’Almeida era um desses vaidosos políticos do interior do Ceará. Consideravam-no um líder nato em sua pequenina cidade, embora jamais tenha obtido, sequer, uma vitória em diversas eleições para vereador. Isso, no entanto, nunca lhe extirpou a posse de chefe político.

Se alguém o chamasse por Zeca de Almeida, a resposta surgia incontinenti:

– D’Almeida, por obséquio! E repisava sempre a mesma cantilena:

– Vocês quiçá não saibam, mas o meu tetravô recebeu título de nobreza das mãos do próprio Imperador. Por isso lhes peço me tratem sempre por D’Almeida, herança aristocrática deixada por meus não menos ilustres ancestrais.

Para dar azo à sua excessiva megalomania, em 1962 fez uma carta ao Sr. John Fitzgerald Kennedy, então presidente dos Estados Unidos, convidando-o para ser padrinho do seu mais novo rebento. Justificava ele:

– Ora, o Iranildo tem uma gigantesca foto abraçado ao presidente Juscelino Kubitschek, e a expõe com ostensivo gabo em seu escritório de suplente, por que não posso me compadrar com o Kennedy?

A polidez e a notória postura política do Estadista americano não o deixaram declinar do insólito convite. Impossibilitado, porém, de comparecer ao evento, outorgou poderes ao presidente da República Federativa do Brasil. Este, por sua vez, substabeleceu a procuração em nome do Excelentíssimo Governador do Estado do Ceará, o qual substabeleceu-a, enfim, ao Sr. Prefeito da festejada cidade do amigo íntimo do Kennedy. Finalmente, após a tramitação de toda a papelada norte-americana, realizou-se, em mais solene festa, o batizado do faustoso afilhado do gestor-mor de uma das maiores potências do mundo.

Lamentavelmente, no dia 22 de novembro de 1963, a família fidalgarrona residente no caixa-pregos teve desagradável surpresa: um tresloucado indivíduo havia atirado no infeliz mandante da frustrada invasão da baía dos Porcos, quando de sua visita ao Texas. A bala, por ironia do destino, atingiu o cérebro do célebre visitante, deixando-o sem vida. O líder provinciano cearense toma conhecimento da nefasta notícia através do serviço de radiodifusão local. De imediato, preocupado com o melindroso problema cardiovascular da esposa, dirige-se para casa, pensando em um meio de informá-la paulatinamente da tragédia. Após demorado preparo psicológico, diz-lhe, com suaviloquência:

– Assassinaram o cumpadre Kennedy!

A mulher do quase-futuro-vereador, em tom de desespero, agarra-se ao marido em copioso choro, declina a cabeça sobre seu ombro e, limpando com as costas das mãos o viscoso líquido escorrente do nariz, desabafa:

– Você num avalie como estará numa hora dessas a pobre da cumadre Jacqueline.

3 pensou em “BOAVENTURA BONFIM – FORTALEZA-CE

  1. Obrigado, caro Berto! A postagem ficou excelente.
    Como falei anteriormente, a história do Conto é real.
    E tem mais, a “cumadre” do Kennedy passou o dia fatídico recebendo, aos prantos, as condolências dos vizinhos.
    Abraços,
    Boaventura.

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