CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Se eu disser que no Recife tem uma rua com o nome de “Beco do Cu do Boi” vão dizer que me empirulitei. Mas é verdade pura e verdadeira. Histórica, até.

Nos anos de 1910 tinha a Prefeitura um convênio com o Instituto, Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco para em caso de troca do antigo nome das ruas, afixar em placa de azulejos o nome original e o porquê da troca.

E mais ainda, ao serem fixadas as placas que seriam homenagens a personalidades, que se fizesse o registro do nome completo da pessoa e constassem dados sobre o porquê da homenagem.

Com o passar dos tempos, a lei caiu em desuso. Não se sabe mais quem foi o ilustre. Acima de tudo se tem dado “ilustratividade” até a quem não a mereceu. Avacalharam a iniciativa do jornalista que criou o modelo de procedimento.

Entrevistei um Vereador que conseguiu mudar o nome da rua onde morava a fim de homenagear sua mãe. Essa rua fica nas proximidades da Lagoa do Araçá, sendo a denominação anterior: Rua Venezuela. Louvo a atitude do filho, mas…

Em recentes dias, um dos nossos burgos-mestres criou um costume de implantar em cada uma dessas antigas artérias dados sobre o significado da homenagem, seu nome anterior e ainda, deu identidade à iniciativa, denominando-a “A História nas Paredes”. Ótima iniciativa.

Com o progresso, nossos famosos becos se transformaram em ruas e assim mudaram de nome: Beco do Veado, Beco da Facada, Beco da Latrina, Beco do Mijo, etc., todos estes funcionando com os nomes originais há até bem poucos anos, nomes que todo mundo pronuncia com a maior tranquilidade.

Na coluna de Mário Melo, jornalista e historiador, Presidente Perpétuo do Instituto Histórico, edição de 23 de janeiro de 1931, ele publicou:

Escreveu-me também um zombeteiro que eu devia restaurar a placa da rua hoje conhecida como Joaquim Felipe e outrora conhecida como uma parte anatômica e pouco cheirosa do boi.

Esse cavalheiro queria ver o monossilábico anatômico escrito na placa certamente para envergonhar-nos toda a vez que o lessem viajantes ilustres e senhores de distinção.

Consta na placa de azulejo que Joaquim Felipe da Costa a quem foi dado o novo nome da rua, foi Tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia, prestando serviços sem remuneração, durante muitos anos àquele instituição beneficente.

Sobre o tema, aproveito para narrar o pitoresco.

Eu entrevistava ilustre dama no Clube Internacional do Recife, ao lado de outros casais em redonda mesa de pista, tendo ao lado, de pé, o fotógrafo do jornal, Chico Fagundes, quando perguntei onde morava e ela informou:

– Na Rua Joaquim Felipe, 271, apto. 1002.

– Em qual bairro? Indaguei.

Ao responder-me que era na Boa Vista, pedi, que me informasse o roteiro, para que eu pudesse orientar o mensageiro quando lhe fosse entregar as fotos.

Notei que a face da madame ficou ruborizada diante da necessidade de atender ao detalhamento.

Foi quando Chico Fagundes “disparou” com a detestável impropriedade, coisa que não poderia ter sido jamais declarada diante de ilustres casais que estavam em nossa mesa, exatamente na noite de gala em que se comemorava os 100 anos do Clube Internacional do Recife.

Também fiquei estatelado quando meu companheiro engatilhou:

– É o antigo Beco do Cu do Boi!

7 pensou em “BECO DO CU DO BOI

  1. Caro Edvaldo,

    Basta ver-se, por esse seu “pitaco sociológico” que esse famoso monossílabo que representa a parte fisiológica do nosso corpo – o famoso cu – tem sido louvado, não apenas pelas nossas constantes citações em prosas e versos, mas elevado através da História, gravando para sempre em ruas, ruelas e becos, que como o “Cu do Boi”, estarão sempre presentes em nossas mais pitorescas lembranças.

    Por seu comentário e leitura, agradeço a participação.

    Carlos Eduardo

  2. Na minha Juiz de Fora – MG, quando escutávamos “cu de boi” era no futebol, principalmente no futebol de várzea. Confusão na área era um verdadeiro “Cu de boi”. A população nomear ruas é natural. Perto de casa, na década de 60 tinha uma pequena, estreita e mal iluminada. A noite, como não existia Motel, naquela época, a rua se transformava em “Motel ao luar” e murmúrios de amor eram escutados por todos os lados. Eram tantos sussurros que os moradores da região a denominaram “Rua dos Aflitos”. De aflitos não tinha nada, mas sim prazeres sexuais.

  3. Amigo Deco,

    Que bom para quem publica besteirol como o meu observar que despertou outros assuntos correlatos.

    Você entrou firma na sociologia do cu do boi. De fato, se tornou um palavrão reconhecido a expressão: “Deu um cu de boi danado!”

    Já ouvi muito isso.

    Gostaria, entretanto, de conhecer a origem da expressão, porque, cu de boi, como cu de porco ou cu de galinha, tudo se expressa em substituição à mal-cheirosa parte da anatomia animal, notável monossílabo que a distinção evita pronunciar em locais de finesse.

    Mas, existe ainda uma expressa que somente agora me lembrei: “Aquele é um cu de Judas!”, quando se quer desvalorizar certo cidadão que caiu na desgraça no conceito de alguns.

    Por sua incursão sociológica e a leitura à crônica, meu cordial abraço.

    Carlos Eduardo

  4. Mas, Deco, o Cu de Judas deve ser bem pior de morar do que no Beco do Cu do Boi.

    Grato por seu comentário.

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