
O sapo, entre um cochilo e um coachar, recita um Poema de Manoel de Barros à beira da lagoa quase seca. Na ponta de sua vara de pesca, um anzol desnecessário, pois nada havia a pescar: peixes não existiam. A lua, a tudo assistindo, se espreguiçava no aguardo de um sol também preguiçoso que fazia acordo espúrio com as nuvens tramando chuva até umas horas. Estrelas, por surgir. Os Deuses, não se sabe a razão, não costumam atender aos pedidos do sol. Naquela manhã, atendeu. Fez-se chuva. Nada mudou naquele cenário a não ser a ausência da luz no céu da manhã que se achegava. Uma flor se abriu tão-logo cessou o cair d’água e o sapo, quieto em seu canto, diante de uma lagoa que continuava quase seca, abriu um sorriso, deu um bocejo e recitou outro Poema de Manoel de Barros, antes de entrar em seu esconderijo, dar uma mijada com o sono a bater-lhe as costas, e dormir. Sequer vestiu seu pijama e sorriu feliz quando, na noite seguinte, viu que o céu se enfeitava de estrelas.
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Lembro outro sapo, mestre Xico, de outro Manuel. O Bandeira. Que era senador da República. “ Transido de frio/Sapo Cururu /Da beira do Rio “ . E que, depois de ser o poema lido por Jorge de Sena, na Semana de 22, levou uma vaia monumental. Viva o mestre Xico Bizerra. Abraços fraternos.
Também sigo mestre Padre José Paulo, mestre Xico, e fico com Manoel Bandeira, com seu “Sapo Cururu/na Beira do Rio.”
A turma do contra, na Semana de Arte Moderna de 1922, não entendeu a mensagem do mestre pernambucano, de romper com os alicerces da língua rebuscada ao invés da do povo.
“Batráquio Feliz” é uma metáfora da liberdade de se exprimir com elegância, a língua do povo.
Parabéns e abraçaço.
Os Manoéis, o de Barros e o Bandeira, se completam em suas imensidões. Dos dois, gosto muito. São frutos de inspiração para minhas mal teclados linhas.
Fantástico Xico. Brilhante.
Obrigado, Assuero. Esse bichinho, que tantos dele tem nojo e asco, além de sua importância ecológica, é muito sabido e adora receber beijo de princesas bonitas. E, mesmo quando transmutado em príncipe no pós-beijo, ‘não lava o pé porque não quer’. Pense num bichinho teimoso. Mas Feliz, e isso é o que importa.
De tão feliz, acho até que esse sapo é Poeta nas horas vagas.