FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

A campanha eleitoral deste ano, principiada esta semana, tudo faz crer que será o retrato fiel do atual desnível civilizatório do nosso país, distanciando-se das regiões mais humanísticas do planeta. Nossos níveis analfabéticos se ampliam cotidianamente: o político, o religioso, o familiar, o profissional, o comunitário, o cultural, o esportivo, o televisivo, para não falar do educacional, onde os últimos censos escolares indicam que 60% dos alunos que concluem o Segundo Grau de Ensino não possuem os conhecimentos básicos de Matemática!

No Contrato Social, Jean-Jacques Rousseau afirmava que “Maquiavel, fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições ao povo.” Entretanto, hoje temos muito pouco povo e uma gigantesca massa, extremamente alienada, que apenas sabe dizer sim, senhor, sem uma mínima criticidade analítica, sempre vitimado por um processo educacional imposto por uma elite conservadora que não se está percebendo em final de era, posto que de nada entende de desenvolvimento social pós-moderno, com seus impasses trágicos.

Uma releitura recente me fez extrair uma serie de balizamentos que repasso para os leitores, encarecendo o repasse deles para seus derredores comunitários. A fonte é merecedora de múltiplos elogios: AS PALAVRAS DE SARAMAGO: CATÁLOGO DE RFLEXÕES PESSOAIS, LITERÁRIAS E POLÍTICAS, Fernando Gómez Aguilera (Organização e seleção), São Paulo, Companhia das Letras, 2010, 479 p. Eis as escolhidas:

a. “O que faz falta é uma insurreição ética. Não uma insurreição das armas, mas ética, que deixe bem claro que isto não pode continuar. Não se pode viver como estamos vivendo, condenando três quartas partes da humanidade à miséria, à fome, à doença, com um desprezo total pela dignidade humana. Tudo isso para quê? Para servir a ambição de uns poucos. Não sou nem pregador, nem profeta, nem messias, apesar de ter escrito O Evangelho segundo Jesus Cristo. Só falo de evidências, de coisas que estão à vista de todos. E sei que tenho razão.”

b. “A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.”

c. “A amnésia humana é ruim para as pessoas e também para as sociedades. Temos de saber quem somos para viver com consciência de estar vivos. Continuamos perguntando e procurando.”

d. “Destinamos tempos demais a conjecturar o que há além da vida, e tempo de menos a nos indagar sobre o que está acontecendo na vida mesmo.”

e. “A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina são o que formam o corpo desse esqueleto.”

f. “A verdade é que vivemos numa sala de espelhos na qual tudo se reflete em tudo e é, por sua vez, reflexo de si mesmo.”

g. “O que eu digo é que tenho, como cidadão, um compromisso com o meu tempo, com o meu país, com as circunstâncias, digamos, do mundo. Eu não posso virar as costas a tudo isso e ficar a contemplar minha obra.”

Busquemos espalhar os balizamentos saramagueanos acima, com a resiliência de nunca ser eleitor penico cheio nas eleições que se aproximam, posto que devemos ter sempre em nossa evolução as duas mãos e o sentimento do mundo.

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