PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, médio na altura,
Triste de cara, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno.

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento.
Inimigo de hipócritas, e frades.

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)

2 pensou em “AUTO-RETRATO – Bocage

    • Caríssimo J.J.
      Veja onde encontrei :

      POESIAS ERÓTICAS, BURLESCAS E SATÍRICAS
      BOCAGE
      Capa: Quadro de Fernando dos Santos “Bocage e as Ninfas”
      Esta obra respeita as regras do Novo Acordo Ortográfico

      A presente obra encontra-se sob domínio público ao abrigo do art.º 31 do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (70 anos após a morte do autor) e é distribuída de modo a proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício da sua leitura. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. Foi a generosidade que motivou a sua distribuição e, sob o mesmo princípio, é livre para a difundir.
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      BREVE NOTA SOBRE A OBRA
      De grande controvérsia, esta antologia de poemas eróticos e satíricos só foi publicada pela primeira cerca de cinquenta anos após o falecimento de Bocage. Corria o ano de 1854 e apareceram na sequência de uma publicação das obras completas, em 6 volumes, do autor. Para evitar os tribunais e a sua apreensão, a obra saiu clandestinamente, sem editor explícito e com um local de edição fictício na capa: Bruxelas. Este facto – de não se referir o editor em obras polémicas – foi prática comum até à implantação da República em 1910.
      Tal prática explica-se porque no século XVIII prevalecia um puritanismo limitador. Era difícil uma pessoa assumir-se integralmente, de corpo e alma graças aos tabus sociais, regras estritas, uma educação preconceituosa e sobretudo uma moral católica que olhava para a sexualidade como uma vertente menos nobre do ser humano. A somar a isso havia uma censura férrea que mutilava indelevelmente os textos considerados mais ousados e ainda o fantasma da Inquisição, na altura já extinta mas ainda omnipresente no psíquico social, que imponha o medo e demovia os recalcitrantes.
      Mas esta conjuntura de repressão ideológica tinha um revés: tornava apelativo a transgressão! Ousar trilhar a senda do proibido, transgredir era, obviamente, um apelo inexorável para os escritores, uma maneira salutar de se afirmarem na sua plenitude e um imperativo categórico.
      Em Bocage, a transgressão era-lhe natural: libertino assumido; anti-clerical convicto; irreverente; crítico das elites literárias e institucionais; apologista dos ideais republicanos e agitador de consciências nos cafés e botequins, é pois perfeitamente normal que tenha sido preso, a dada altura, por ser considerado subversivo e perigoso para a sociedade.
      É curioso como Bocage, hoje em dia considerado como o maior poeta do arcadismo português (isto é, do neoclassicismo) tenha sido em vida expulso e repudiado por todos os grémios de poetas graças ao seu comportamento leviano e recusa em cumprir regras, algo que, diga-se de passagem, o próprio Bocage se orgulhava.
      A obra “Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas” encontra-se divida em duas parte: uma primeira com sonetos satíricos curtos, todos com conteúdo obsceno – Bocage escrevia-os quando queria parodiar e criticar alguém ou alguma situação e depois ia lê-los para as praças públicas e distribuía cópia ás portas das igrejas, mesmo à saída da missa; e uma segunda parte com odes, cantigas, epistola e elegias – poemas mais longos com narrativas eróticas em já se encontra o estilo neoclássico, típico de Bocage.
      Não se pode dizer que as “Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas” sejam um conjunto de poemas que melhor reflitam a poética de Bocage, cujo extenso trabalho poético aborda mais os temas da solidão, do sofrimento, do amor-
      ciúme, do belo-horrível ou da morte – temas que ele trata de acordo com o próprio infortúnio da sua vida; que constituem o seu melhor trabalho e que lhe trouxeram reconhecimento e importância. No entanto, dissociar estes seus poemas de deboche e erotismo de outros trabalhos, consideramos mais sérios, é quer separar uma importante parte daquilo que era Bocage.
      Durante muito tempo tentou-se fazer isso mesmo. Esta obra, por exemplo, foi proibida em Portugal durante o período do Estado Novo de Salazar, pois era considerada chocante e “perniciosa para a moralidade vigente”, e procurou-se durante muito tempo esconder ou ignorar esta vertente nos estudos e análises literárias do autor. O livro, lido “às escondidas” por homens e mulheres de todas as idades, durante a ditadura, só pôde ser livremente lido, sem receio de represálias, depois do 25 de abril.
      Hoje em dia, louvada por muitos e desprezada por outros, mais conservadores é, apesar disso, vista como um importante legado de um dos maiores poetas portugueses.
      Equipa do Luso Livros

      AUTO-RETRATO
      Magro, de olhos azuis, carão moreno,
      Bem servido de pés, médio na altura,
      Triste de cara, o mesmo de figura,
      Nariz alto no meio, e não pequeno.
      Incapaz de assistir num só terreno,
      Mais propenso ao furor do que à ternura,
      Bebendo em níveas mãos por taça escura
      De zelos infernais letal veneno.
      Devoto incensador de mil deidades,
      (Digo de moças mil) num só momento.
      Inimigo de hipócritas, e frades.
      Eis Bocage, em quem luz algum talento;
      Saíram dele mesmo estas verdades
      Num dia, em que se achou cagando ao vento.

      Fraterno abraço
      Malta

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