As velhas botas do Vovô
A imagem ainda está viva na memória.
Como se fora uma fotografia, ainda que envelhecida. De forma repetida, acontecia toda vez que o dia clareava. Fosse qual dia da semana fosse – sem excluir domingos e feriados.
Na roça, para quem “planta vida”, feriado ou descanso é coisa de tolo.
Sentado na ponta da calçada, como se aquele lugar lhe fosse cativo, a imagem do corpo pequeno e magro do Vovô João. Ali começava mais um dia para ele. Calçando as velhas botas, que ele (e apenas ele) chamava de “minhas botinas”.
Acostumou-se àquela atitude. Ainda que não fosse trabalhar na roça – mas tinha o hábito de fazer aquilo, ainda que fosse apenas ao quintal, jogar milho para as galinhas, ou jogar água no canteiro de coentro e cebolinhas. Não fazia muita coisa sem as velhas botas.
Passou a fazer aquilo desde quando, certo dia, viu-se picado por uma traiçoeira cascavel, cujo veneno quase o leva prematuramente ao buraco coberto com sete palmos de terra. Usava as botas, também, para se prevenir de possíveis cortes da lâmina da enxada.
Doía, e ao mesmo tempo servia de alento, ver Vovô calçar as velhas botas sem a proteção das meias – tinha apenas um par, tão velho e usado que já não tinha mais a parte do calcanhar nem a do dedão dos pés. Talvez por isso, preferia dizer de si para si mesmo, que “era mais mió, calçar minhas bichinhas sem essas meias véias furadas, que não seuvem de nada”!
Lembro como se fosse hoje. Vovô ganhou aquele par de botas de um antigo Sargento da Polícia Especial do Exército. Ganhou também uma boina e um cinto. Nunca usou a boina, pois essa lhe ficava folgada na cabeça, e o cinto preferiu usar como cilha no burro. Mas, as botas ganharam preferência e importância na vida de João.
Era calçando aquelas botas velhas, para ele macias como seda, que Vovô trabalhava a terra, semeando milho, feijão e arroz que compunham a mesa da família; era calçando aquelas velhas botas, que ordenhava as vacas e as cabras e aparava o leite para os queijos, as manteigas e os mingaus e papas das crianças.
Ah, como eram especiais para Vovô, aquelas velhas (mas macias) botas!
Eis que, assim sem mais nem menos (nós é que pensamos assim – mas sempre haverá um motivo para o fato), chegou a hora e o dia de Vovô voltar para o lugar de onde viera em missão. Vovô morreu, e com ele aquela imagem matinal de todos os dias, sentado na ponta da calçada, um corpo esguio calçando as velhas botas.
Não havia caixão para enterrar o corpo cansado de Vovô – homem simples e bom, que viveu todas as dificuldades pela e para a família, sua única riqueza além das velhas botas – ele foi conduzido para a última morada, numa rede e o corpo colocado no novo endereço com todo cuidado e respeito.
Em casa, Vovó abria mais uma das poucas vezes, o velho baú, onde guardara por anos e anos, o velho vestido do casamento, e, nele, com toda a terra e sem nenhuma limpeza, acondicionou como se fosse um valioso presente e troféu, o velho par de botas do Vovô.

Parabéns pelo lindo texto, querido escritor José Ramos!
O tempo passa e o amor que nos liga aos nossos ancestrais é eterno.
Gostei imensamente do texto AS VELHAS BOTAS DO VOVÔ, e de ficar conhecendo essa passagem tão bonita da sua vida.
Seu Vovô João era um homem bravo e trabalhador, que todos os dias se levantava com o alvorecer, independentemente de domingo, feriado ou dia santo.
Calçava as botas, que “somente ele chamava de botinas”, e com elas estava pronto para enfrentar a labuta, e as adversidades que dela proviessem.
Repetindo suas palavras:
“Era calçando aquelas botas velhas, para ele macias como seda, que Vovô trabalhava a terra, semeando milho, feijão e arroz que compunham a mesa da família; era calçando aquelas velhas botas, que ordenhava as vacas e as cabras e aparava o leite para os queijos, as manteigas e os mingaus e papas das crianças.”
As imagens desse tempo estão retidas na sua memória, “como se fora uma fotografia, ainda que envelhecida”.
Uma ótima semana, querido amigo! Muita saúde, inspiração e Paz!
Violante, que Deus nos proteja – e nos mantenha lúcidos para cumprirmos nossa missão terrena. Beijos e recomendações à minha sobrinha Diana.
Amém, querido amigo José Ramos!
Que a saúde física e mental seja uma constante em nossas vidas!.
Beijos meus e de Diana! Saudades! Tudo de bom!