RODRIGO CONSTANTINO

Em 2025, ao nomear Gleisi Hoffmann para a articulação política, disse que colocou “essa mulher bonita” para melhorar a relação com o Congresso

Durante anos, o discurso da esquerda e de boa parte do feminismo institucional vendeu uma promessa simples: vote conosco, apoie nossas pautas e as mulheres estarão mais protegidas. O governo Lula 3.0 foi o teste prático. Os números oficiais mostram o contrário: os feminicídios bateram recordes consecutivos.

Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025 – alta de 4% sobre 2024 e o quarto recorde consecutivo da série histórica. A taxa ficou em 1,4 por 100 mil mulheres. Em 2025, 44,4% das mulheres assassinadas no país morreram por razões de gênero, o maior percentual desde a tipificação do crime em 2015.

Enquanto as mortes violentas intencionais em geral caíram (cerca de 8% no ano), os feminicídios subiram. Tentativas também cresceram. Levantamentos independentes como o do Laboratório de Estudos de Feminicídios da UEL (Lesfem) apontam números ainda mais altos ao incluir tentativas: 6.904 casos consumados e tentados em 2025, alta de 34% sobre o ano anterior.

A maioria ocorre dentro de casa, por parceiros ou ex-parceiros. O problema é estrutural e antigo, mas os recordes sob um governo que se apresenta como “defensor das mulheres” são difíceis de ignorar. Melhor classificação de casos explica parte do crescimento histórico desde 2015, mas não apaga a escalada recente nem a distância entre discurso e resultado.

Enquanto os números pioravam, o padrão de reação seletiva se manteve. Quando o agressor ou o falastrão está do lado “certo”, o volume cai. Em 2021, o ator José de Abreu (ligado à esquerda e com histórico de filiação ao PT) compartilhou um post que ameaçava a deputada Tabata Amaral: “Se eu encontro na rua, soco até ser preso”. Tabata foi chamada de “canalha”. Ela mesma registrou o silêncio: pessoas que se apresentam como feministas e dizem lutar contra o machismo “se calaram completamente, seja porque não gostam de mim seja porque gostam do Zé de Abreu”. A hipocrisia foi explícita.

No próprio governo Lula, o caso de Silvio Almeida é mais recente e grave. O então ministro dos Direitos Humanos foi acusado de importunação sexual contra várias mulheres, incluindo a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. Relatos incluíam comentários lascivos e toques inapropriados em reuniões oficiais. Ele foi demitido depois que as denúncias vieram a público pela imprensa e pela MeToo Brasil. A PGR chegou a denunciá-lo ao STF. Reportagens apontaram que o caso era conhecido internamente há meses e que Anielle demorou a formalizar por receio de impacto político e descrédito.

O movimento que grita “nenhuma a menos” e “mexeu com uma, mexeu com todas” não tratou o episódio com a mesma intensidade de outros casos de adversários. O próprio Lula acumula falas que, se viessem de outro lado, seriam transformadas em campanha nacional. Em 2025, ao nomear Gleisi Hoffmann para a articulação política, disse que colocou “essa mulher bonita” para melhorar a relação com o Congresso. Pouco depois, ao contar um encontro com a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, referiu-se a ela como “uma mulherzinha” e imitou uma voz frágil. Houve crítica pontual (como a da deputada Talíria Petrone do PSOL no caso de Gleisi), mas o volume e a duração foram muito menores do que os aplicados a figuras da direita. A própria Gleisi minimizou, dizendo que “gestos valem mais que palavras” e listando indicações de mulheres feitas por Lula.

O padrão se repete em outros episódios da mesma família política. Em julho de 2024, em reunião no Planalto, Lula comentou uma pesquisa que apontava aumento da violência doméstica depois de jogos de futebol. Disse que era “inacreditável” e, em seguida, brincou entre sorrisos: “Se o cara é corintiano, tudo bem. Mas eu não fico nervoso quando perco, eu lamento profundamente”. O Planalto emitiu nota dizendo que ele não endossava a violência; a frase, porém, relativizou o dado com piada de torcedor. A reação das vozes que normalmente tratam qualquer deslize de adversário como “violência de gênero” foi, mais uma vez, contida.

Em 2024, o filho caçula de Lula, Luís Cláudio, foi denunciado na Delegacia da Mulher de São Paulo pela ex-namorada Natália Schincariol. Ela relatou agressões físicas (uma cotovelada na barriga), verbais e psicológicas, e a Justiça chegou a conceder medidas protetivas. Ele negou. O inquérito policial foi concluído sem indiciamento por falta de constatação de lesão ou violência psicológica, e o caso seguiu para o Ministério Público. Mesmo assim, o episódio – envolvendo o filho do presidente que se apresenta como defensor das mulheres – não gerou a mobilização proporcional que o mesmo campo costuma exigir de outros.

Há ainda o registro mais antigo, mas revelador, de uma conversa grampeada de 2016 (no período da Lava Jato), em que Lula perguntou a Paulo Vannuchi: “Cadê as mulheres de grelo duro do nosso partido?”. A expressão grosseira referia-se às feministas do PT, no contexto de mobilizá-las contra um procurador. Parte do movimento relativizou como gíria regional para “mulher forte”; outra parte se indignou com o vocabulário chulo. O silêncio ou a divisão seletivos contrastaram com o volume usado contra adversários.

Esses exemplos reforçam o ponto central: quando a ofensa, a piada de mau gosto ou a denúncia de agressão vêm do próprio campo, o volume do feminismo institucional cai. O critério deixa de ser a proteção da mulher e passa a ser a proteção da narrativa e dos aliados.

O mesmo padrão aparece no caso de Marcelo Freixo. Em 2017, sua ex-companheira Priscilla Soares publicou um desabafo em que se disse acuada após o fim do relacionamento. Ela acusou Freixo e companheiros de partido de calúnia, de tê-la rotulado como “infiel” e de integrar o que chamou de “clã dos esquerdo-machos”. Destacou o paradoxo de um campo que proclama que “sem feminismo não há esquerda e sem esquerda não há feminismo”, enquanto, segundo ela, reproduzia práticas machistas e silenciava quem apontava isso. Freixo, que na campanha à Prefeitura do Rio usou o tema da violência contra a mulher para atacar adversários, respondeu que não falava de vida pessoal. A cobertura na imprensa alinhada ao campo foi mínima – uma notinha aqui e ali –, em contraste com o volume que o mesmo meio costuma dar a acusações semelhantes quando vêm de fora.

Mais recentemente vimos Roberta Luchsinger, a melhor amiga de Lulinha, admitir em cadeia nacional que está com medo e sendo ameaçada depois que Lula a rotulou de “pilantra”. Uma mulher sozinha e com duas filhas, denunciando o homem mais poderoso do país, com medo e ameaçada, mas as feministas preferiam se calar.

A baiana que gravou um depoimento pessoal no vídeo de Nikolas Ferreira teve de sair de casa, pois homens estranhos estavam circulando a propriedade com sua foto. Ela disse que só volta após as eleições. Uma senhora pobre, muito humilde, acuada simplesmente por ter externado sua decepção com as promessas lulistas. As feministas não tomaram conhecimento do caso, pelo visto.

Isso não significa que a violência contra mulheres seja monopólio de um lado, nem que a direita seja inocente de machismo. Significa que o feminismo majoritário no Brasil se tornou, na prática, um instrumento de defesa da esquerda. O critério de indignação é partidário: o mesmo comportamento é “violência de gênero” quando vem do adversário e “gafe”, “contexto” ou “gesto que importa mais que palavra” quando vem de aliado.

As estatísticas de feminicídio sob o governo que prometeu proteção mostram o custo dessa seletividade. Mulheres que acreditam no discurso acabam enganadas duas vezes: uma pela promessa de proteção que os números não sustentam, outra pela descoberta de que o movimento que diz defendê-las prioriza a preservação de seu campo político. O feminismo que deveria importar é o que se mede pelo resultado para as mulheres reais, não pelo alinhamento ideológico de quem fala. O feminismo institucional, na prática, protege mais a esquerda do que a mulher.

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