JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Irmãos “se isolam” em silêncio e “aprontam” alguma coisa

A geração que conseguiu a bênção divina e ultrapassou os 60/70 anos de idade, conhece o que iremos tratar. Viveu peraltices, e foi parte atuante nelas. Foi feliz, claro, por que nada tinha qualquer viés de maldade. Eram peraltices, mesmo!

* * *

1 – Chutando pedra

Entre tantas e preferidas “peraltices”, uma era a de cobrir uma pedra de paralelepípedo – via de regra, quando alguém via uma “maravilha” daquelas `disposição para um chute, nunca deixava de ficar tentado a fazê-lo.

Naquele tempo, não existiam, como hoje, as sacolas de plásticos usadas pelos supermercados. Usava-se mais as sacolas feitas de papel.

Para essa “maluquice”, a meninada utilizava uma pedra de paralelepípedo, deixando-a à disposição numa calçada. Essa pedra era coberta com uma caixa de sapatos vazia, ou com um pedaço de papel de embrulho. Um convite tentador para um “bom chute”!

O autor da “maluquice” ficava escondido em algum lugar, à espera do chutador!

Eita! Era uma dor dos diabos!

* * *

2 – Pegando pau cagado

Peralta, o menino resolveu tomar um banho de margarina

Essa outra peraltice era feita sempre por uma turma de, no mínimo, dez “artistas”. E o local escolhido era a “Quermesse” ou no “Sítio para malhação do Judas”.

Essa brincadeira nunca terminava bem. Acontecia briga. Daí a necessidade de que fosse feita sempre com um bom número de meninos – uns “atiçavam”, e outros se intrometiam para nunca acontecer o pior.

Nesses locais, era comum encontrar “merda de vaca”, ou, na pior das hipóteses, merda de gato (pense na catinga diferenciada!). O mais corajoso da turma conduzia uma vara com aproximadamente 1,5m de comprimento. Escolhia o “otário”, se aproximava e, como quem não queria nada além daquilo, armava uma provocação.

Nisso, os demais se aproximavam e faziam um círculo em volta dos dois. Alguém aceitava a provocação (fingimento) e encenava um início de briga. O portador da vara, desdenhava do provocado, dizendo que, para bater nele, sequer precisava daquela vara, e pedia para o “otário” segurá-la.

Quando o “otário” aceitava segurar a vara, alguém a puxava e o “otário” ficava com a merda de vaca nas mãos.

Pense na confusão que dava!

* * *

3 – Tocando a campainha residencial e sair correndo

Esse se “achou” digno da descarga

Essa peraltice era mais “amena”, mas sempre foi muito praticada.

Num tempo que existiam poucos “apartamentos” e sequer imaginávamos que existiria algum dia um “condomínio fechado”, todos os moradores da rua eram conhecidos uns dos outros, bem como seus familiares. Muitos sabiam, também, das virtudes e defeitos dos outros.

Existia, claro, aquela vizinha ranzinza que se postava na janela durante a tarde e ficava observando o movimento das pessoas da rua. Sabia quem entrava, e saía das casas. Quem foi visitado, e até quem traía os maridos.

Ralhava com a criançada e se intrometia em tudo.

Como menino “malino” é a imagem do demo, esse tipo de mulher na vizinhança era sempre a escolhida para as presepadas, peraltices e provocações.

Na parte da tarde, quando a meninada desconfiava que ela estava dormindo após o almoço, os presepeiros, depois de terem certeza que ela dormia, “tocavam a campainha” da frente da casa e corriam a se esconder.

O xingamento, após o atendimento e verificação que não havia ninguém, era de filho de uma puta para pior.

* * *

4 – O barulho dos caronas da televisão

Lá pelos idos dos anos 50 e 60, pelo menos em Fortaleza, tão logo ocorreu o advento da televisão – ainda em preto e branco – os governantes entenderam que aquele seria um ótimo meio de comunicação e um serviço útil para todos.

Foi a partir daí, que surgiram os seriados e outros temas. Apareceram até os heróis, como Ted Boy Marino, ídolo do famoso “Telequete Montila”.

Pensando diferente dos governantes atuais, prefeitos mandaram instalar aparelhos para o público nos chafarizes, também públicos. Mas isso não atendia a todos.

Tão logo surgiram febres como “Repórter Esso”, novelas como “A cabana do Pai Tomás” e Beto Rockfeller e outros programas, a preferência pelo novo “aplicativo” da Comunicação ganhou preferência em prejuízo dos programas radiofônicos dos auditórios nas tardes de sábados.

Os “caronas” na televisão dos vizinhos

Poucos tinham condições financeiras para comprar um aparelho de televisão. Foi a época dourada de lojas de eletrodomésticos como Ponto Frio Bonzão, Romcy Magazine e tantas outras, que até implantaram condições acessíveis no crediário.

Esses tempos, incluindo as peraltices saudáveis, estão fazendo muita falta no nosso dia a dia.

Hoje, ninguém conhece mais ninguém. Inclusive no seio familiar, onde só se reúnem em volta de uma mesa – se tiver cerveja! – ou, nos velórios dos conhecidos e amigos.

6 pensou em “AS “MALINAGENS” DOS TEMPOS DE CRIANÇA

  1. Bom dia a todos!
    O episódio descrito na primeira peraltice, ou seja, o de chutar um saco de papel com uma pedra dentro, ocorreu comigo lá pelo ano de 1963.
    Eu estava na época com 10 anos de idade e no caminho de volta para a casa vindo da escola, me deparei a minha frente com um bonito e volumoso saco de papel com a tal pedra dentro que na minha imaginação vi uma linda bola de capotão numero 18 que era o numero da bola que era usada pelos jogadores profissionais da época.
    Dei um belo e forte chute na bola e a dor que senti foi de deixar qualquer um louco.
    Vi o sangue escorrer na ponta de meu calçado que era de plástico.
    Ao chegar em casa verifiquei que havia perdido duas unhas e arrebentado toda a frente do pé. Meus pais tiveram que me levar ao pronto socorro.
    Isto ocorreu comigo na cidade de Belo Horizonte.
    Pelo visto isto acontecia em todo o país.
    Quando li agora a descrição do mesmo caso senti a dor novamente.

    PQP!!!!

    • João Bosco,perdão! Mas, que dava pra gente rir, dava. Mesmo sabendo que, para alguns, a dor era insuportável. E quem fazia isso, fazia para duas coisas: “pegar” alguém e sair rindo ainda que com a dor alheia. Coisas de crianças, que faziam aquilo sem nenhuma maldade.

      • Boa tarde!
        Sim José, meu comentário foi com o objetivo de deixar claro que apesar da dor que senti e da raiva enorme naquele momento, hoje ao ler o episodio idêntico ao que aconteceu comigo, me reportei novamente a vida que as crianças da década de 1960 tinham e me deu uma grande saudade,apesar de em alguns momentos as coisas não eram assim tão boas.

        Pode ter certeza que teve revide e descobri o autor da peraltice e lhe apliquei uma surra que ele deve se lembrar até hoje.
        As coisa de crianças naquela época se resolvia entre as crianças mesmos e as escondidas dos pais.

        • João: kkkkkkkkkkkkkk e, o “pessoal” da turma dos dois lados, “atiçavam” o engalfinhamento, mas ninguém se intrometia nem para separar. Era assim mesmo!

  2. Prezado ZéRamos, me identifiquei (dei risadas) como os números 1,2 e 4 e neste último, a zoeira era na minha casa, uma TV da marca Invictor, quatro pernas palito, que era ligada as 17 horas e desligada as 11 horas impreterivelmente, pois meu pai tinha que levantar as 4 da manhã para receber o pão da Fábrica Fortaleza. Bom domingo!

    • Marcos, pão da Fábrica Fortaleza, que maravilha! O pão que consumíamos era da Padaria Lisbonense. Pão d´água e pão sovado! Quantas vezes aquele pão nos era servido como “jantar”, acompanhado de suco de groselha! Infância e juventude difícil! Muito difícil!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *