JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Maria Ruth dos Santos Escobar nasceu em 31/3/1935, em Porto, Portugal. Atriz, produtora e diretora teatral e política como deputada estaual. Na segunda metade do século XX, tornou-se personalidade destacada do teatro de vanguarda brasileiro.

Emigrou com sua mãe Marília do Carmo para o Brasil em 1951, aos 16 anos. Dois anos depois já estava trabalhando como repórter e editora de revistas, enquanto exercia atividades como ativista cultural. Casou-se com filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar e, juntos, partiram para a Europa, em 1958, onde fez cursos de interpretação. Ao retornar para o Brasil, montou sua própria companhia – Novo Teatro – em parceria com o diretor Alberto D’Aversa. Em 1962, encenou Mãe coragem e seus filhos, de Bertolt Brecht e Males da juventude, de Ferdinand Bruckner, ambas dirigidas por D’Aversa.

Pouco depois encenou Antígone América (1962), com texto de seu marido, dirigido por Antonio Abujamra. Foi uma peça fundamental em sua trajetória, abordando as tensões sociais da época pré-golpe militar de 1964. Em seguida separou-se do marido e passou a reunir recursos para criar seu próprio teatro. Em 1964, resolveu fazer teatro popular e adaptou um ônibus, transformando-o em palco, levando-o à periferia de São Paulo, com o nome de Teatro Popular Nacional (TPN). A experiência contou com Antônio Abujamra, que dirigiu A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna, e Silnei Siqueira, que encenou As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, entre outros.

Pouco antes de o TPN encerrar suas atividades, deu-se a inauguração do Teatro Ruth Escobar, em 1964, no local onde se encontra até hoje no bairro da Bela Vista. Logo casou-se com o arquiteto Wladimir Pereira Cardoso, que se tornou seu cenógrafo e seguiram-se outras encenações: A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, dirigida por José Renato (1964); O Casamento do Sr. Mississipi, de Dürrenmatt, dirigida por Jô Soares (1965); As Fúrias, de Rafael Alberti, encenada por Antonio Abujamra, (1966); O Versátil Mr. Sloane, de Joe Orton, dirigida por Antônio Ghigonetto (1967) e Lisístrata (ou a Greve do Sexo), de Aristófanes e encenação de Maurice Vaneau (1968).

Convidou o diretor Victor Garcia para uma nova montagem da peça Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, em 1968, numa antiga oficina remodelada, onde participou como atriz e produtora. No ano seguinte, teve o prestígio ampliado com a produção de O Balcão, de Jean Genet. Com esta peça, arrebatou todos os prêmios importantes do ano, e foi agraciada com o troféu “Roquette Pinto” como a personalidade do ano. Pouco depois criou o Centro Latino-Americano de Criatividade, que durou pouco por falta de recursos. Em seguida liderou manifestações contra o regime militar e fundou o Comitê da Anistia Internacional.

Com o 1º Festival Internacional de Teatro, em 1974, passou a apresentar o melhor da produção cênica mundial. São Paulo pôde conhecer o trabalho de Bob Wilson (Time and Life of Joseph Stalin – David Clark), a premiada montagem de Yerma, por Victor García, com Nuria Espert; além dos encenadores Andrei Serban e Jerzy Grotowski. Produziu Autos Sacramentales, outra encenação de Victor García baseada em Calderón de la Barca. Depois de estrear em Shiraz, no Irã, a peça teve êxito na Bienal de Veneza, Londres e Lisboa. No 2º Festival Internacional, de 1976, trouxe para o Brasil o grupo catalão Els Joglars, com Allias Serralonga; os City Players, do Irã, com uma inusitada montagem de Calígula, de Albert Camus; a companhia Hamada Zenya Gekijo, do Japão; o grupo G. Belli, da Itália, com Pranzo di Famiglia, dirigida por Tinto Brass, entre outros. Em seguida voltou à cena para interpretar “Ilídia” em A Torre de Babel e trouxe o autor Fernando Arrabal para dirigi-la.

Entre as grandes atrações do 3.º Festival Internacional, de Teatro, em 1981, estavam o grupo norte-americano Mabu Mines; o belga Plan K; o La Cuadra, de Sevilha; além do uruguaio Galpón e do português A Comuna. Na década de 1980 afastou-se um pouco do teatro, quando foi eleita deputada estadual para 2 legislaturas, vindo a dedicar-se a projetos comunitários. Pouco depois, retornou aos festivais internacionais, ampliando sua abrangência ao trazer grupos de dança, de formas animadas ou aqueles que uniam todas essas linguagens. Em 1986, foi agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal e no ano seguinte recebeu a comenda de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, de Portugal.

Logo decidiu publicar Maria Ruth – Uma Autobiografia (1987), contando sua trajetória, mesclando a produção cultural com sua atuação social. Entre 1994 e 1997, voltou a produzir festivais internacionais, com o nome Festival Internacional de Artes Cênicas. Em seguida recebeu, do governo francês, a condecoração da Legião de Honra. Em 2001, criou uma versão de Os Lusíadas, de Camões, seu último trabalho nos palcos, como produtora. Em 2000, foi diagnosticada com a doença de Alzheimer, que agravou-se comprometendo sua memória e atividade profissional. Em 2006, sua filha Patrícia Escobar, conseguiu interditar seu patrimônio na justiça e acusou o escritório de advogados de não estar cuidando devidamente do seu patrimônio. Faleceu em 5/10/2017 aos 82 anos.

O velório se deu no teatro que leva o seu nome. Em 2021, o pesquisador Álvaro Machado retratou sua vida e obra em “[…] metade é verdade – Ruth Escobar, publicado pela Edições SESC. um calhamaço de 624 páginas e 347 imagens. O título recorre a uma pergunta que ela costumava dirigir aos novos colaboradores de suas diversas atividades. Ciente das fantasias e dos mitos a seu respeito, ela prevenia: “Sabe todas aquelas histórias que você já ouviu sobre mim? Pois, metade é verdade”.

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