JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Marietta Baderna Giannini nasceu em 1828, na Itália. Famosa bailarina veio para o Brasil em 1849 e causou tamanho rebuliço na dança e costumes da época, fazendo com que seu sobrenome familiar entrasse no vocabulário brasileiro como sinônimo de bagunça, confusão, desordem. Já em 1889 o dicionário de Antônio Joaquim Macedo Soares registrava a palavra “Baderna” como “súcia dançante”. Depois a palavra perdeu a referência a dança e passou a designar bagunça em geral, até tornar-se um insulto, conforme registra o Dicionário Brasileiro de Insultos. Baderneiro é quem “gosta de aprontar confusão. Vem do nome próprio ‘Baderna’, pelo qual era conhecida uma bailarina que esteve no Rio de Janeiro em 1851. Essa senhora chamada Baderna, por certo, provocou alguma estrepolia envolvendo várias pessoas e tornando sua ação muito visível. O seu papel de provocadora de bagunça foi mais forte do que seu trabalho de atriz”.

Esta é a história da bailarina italiana, bem-sucedida na carreira artística nos palcos da Europa, que, no Brasil foi alijada do palco e caiu no conceito da elite na mesma proporção em que crescia no gosto popular. Conquistou um séquito de admiradores chamados de “badernistas”, logo rebaixados a “baderneiros”. que delirava com sua dança e gritava “baderna!, baderna!”, junto aos aplausos, deixando as damas e cavalheiros da colônia ainda mais furiosos. É também a história de uma palavra antiga e usada apenas no Brasil, além de ensejar uma reflexão sobre a origem das palavras, dos sentidos que algumas adquirem conforme seu uso e circunstâncias.

Ainda criança manifestou inclinação para a dança e teve a sorte de ser estimulada pelo pai nessa arte. Estreou cedo nos palcos da cidade de Piacenza e pouco depois entrou para o corpo de baile do Teatro Scala de Milão. Aos 19 anos apresentou-se numa temporada de sucesso no Teatro Covent Garden, de Londres e aos 21 já era uma “prima ballerina assoluta”. Pertencia a uma família da alta burguesia da Lombardia. Seu pai -Antônio Baderna- era médico, músico amador e revolucionário do movimento republicano, que enfrentou a ocupação austríaca na Itália. Após o fracasso da revolução de 1848, ela recebeu um convite para se apresentar no Rio de Janeiro. Seu pai, com dificuldades de viver na Itália, aproveitou a oportunidade e vieram para o Brasil.

No Rio de Janeiro, a estreia no Teatro São Pedro de Alcântara se deu em 29/9/1849, com o balé “Il ballo dele fate” (O balé das fadas). foi um sucesso retumbante, tal como ocorria na Europa. O jornal “Correio Mercantil” deu-lhe matéria, chamando-a “a rainha das fadas. Mas a moça, como o pai, era rebelde não apenas na política, mas também nos costumes. Aos poucos, ela passou a gostar dos ritmos afro-brasileiros dos escravos e do povo: lundu, umbigada e cachucha, incorporando-os ao seu balé. Aqui começa a radical transformação da palavra. Segundo seu biógrafo Silverio Corvisieri: “No começo, os cariocas usavam o termo baderna para indicar coisas muito belas. Somente depois de a dança ser considerada fator de corrupção da juventude, a palavra assume os significados atuais”.

A bailarina foi se aclimatando aos costumes da sociedade carioca que se formava. Gostava de festejar, de beber, namorar e, por mais que dançasse nos salões tradicionais, apreciava bastante as manifestações culturais dos negros e do povo da rua. Foi nas ruas que conheceu a resistência dos escravos, e se apaixonou pelas danças e festejos. A sensualidade e a força dos ritmos e danças africanas rapidamente foram assimiladas pela bailarina, que passou a incorporar à delicadeza do balé os passos das danças populares. Ao término das apresentações, seu fã clube, os baderneiros, saiam pelas ruas batendo os pés e gritando o nome da bailarina.

O interesse pela sua história se deu em 1987, com a curiosidade do jornalista Moacyr Werneck de Casto ao consultar a palavra “Baderna” no dicionário e ver a menção sobre a bailarina. Escreveu um artigo fantasiando a vida da bailarina e “sem querer, acertei no essencial. Baderna foi mesmo ativa politicamente. Coloquei-a lutando ao lado de Bento Gonçalves e como subversiva nas ruas do Rio. Mas sua história real é mais interessante”. Em Milão, o escritor (e ex-deputado) Silverio Corvisieri também achou a história interessante e iniciou uma pesquisa de fôlego sobre a bailarina. Tal pesquisa resultou no livro Maria Baderna: a bailarina de dois mundos, publicado pela Editora Record em 2001.

O livro faz uma reconstrução histórica do Rio de Janeiro; do seu cotidiano em meados do século XIX. Relata que a bailarina era bastante conhecida do público; foi amiga do ator João Caetano e era elogiada por escritores e jornalistas, como José de Alencar e José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco. Traça o perfil de uma autêntica heroína que enfrentou o preconceito com sua dança “subversiva” e revolucionou os costumes da época. O autor diz que Marietta, de personalidade rebelde, vivia de maneira excessivamente liberal para o Brasil de D. Pedro II. Há registros de que, certa vez, tendo havido atrasos de pagamento da companhia de danças, ele organizou uma greve e promoveu agitações que foram identificadas como “da turma da Baderna e seus baderneiros”.
Em 2023 sua tetraneta Paula Giannini lançou o livro Baderna: o memoricídio no dicionário pela Editora Palco das Letras. Paula fez um resgate sobre a memória de sua tetravó, uma bailarina de grande sucesso na Europa, aqui teve seu nome torcido e retorcido e continua desconhecido do público.

Maitê Proença fala sobre Maria Baderna:

9 pensou em “AS BRASILEIRAS – Maria Baderna

  1. OBS. NECESSÁRIA:
    O verbete de Maria Baderna foi aqui publicado em março de 2020 com a foto de uma mulher que andou sendo divulgada como se fosse a própria. Fui surpreendi agora há pouco com o lançamento do livro “Baderna: o memoricídio no dicionário”, publicado por sua tetraneta Paula Giannini (Baderna).
    Entrei em contato com ela e consegui a foto real de Maria Baderna. Este fato por si mereceria uma republicação do verbete. Mas temos mais um bom motivo para a republicação: a divulgação do termo “MEMORICÍDIO”, que não conhecia. O termo tornou-se conhecido durante o XVIII Seminário Internacional Mulher & Literatura (2019), utilizado pela professora Dra. Constância Lima Duarte ao referir-se ao apagamento das escritoras da História e da Literatura com o intuito de silenciá-las e invisibilizar suas produções intelectuais.
    Em seguida entrei em contato com Paula Giannini para falar da republicação do verbete e pedir-lhe um depoimento sobre o livro que acaba de se lançado, bem como falar sobre as causas do memoricídio ocorrido com sua tetravó. Estamos aguardando seu depoimento aqui mesmo na seção dos comentários

  2. OBS. NECESSÁRIA II
    Continuando a busca de informações sobe o termo “Memoricídio”, encontrei o livro
    “Memorial do Memoricídio”, vol. 1, organizado pela Dra. Constância Lima Duarte, relacionando as biografias e bibliografias de 40 escritoras brasileiras,

    Destas 40, temos 18 já incluídas em nosso Memorial das Brasileiras e algumas no radar para entrarem em breve no Memorial. Se incluirmos as não escritoras, teremos outro tanto de mulheres que podem se inscrever no Memorial do Memoricídio.

    Confesso que quando iniciei, em 2019, o “Memorial das Brasileiras”, não estava pensando num “memoricídio”, Porém, é o que estamos vendo. Assim me alegro em saber que estamos promovendo um regate destes nomes esquecidos em nossa memória, alguns deles de modo intencional.

  3. Querido Brito,

    Obrigada por publicar sobre Marietta Baderna.

    Baderna foi febre. Diva adorada nos jornais de seu tempo, não há nas crônicas, propagandas dos espetáculos ou mesmo nas críticas publicadas com seu nome, uma única menção a ela que não com palavras de respeito e profunda admiração por um talento que, sim, a cada milágrimas surge nos palcos. Tratada como Sílfide e Fada, foi cantada como musa nas ruas, e na imprensa por Joaquim Manoel de Macedo, Machado de Assis, pelo Barão do Rio Branco, Gonçalvez Dias, Barão de Taunay, José de Alencar e muitos outros, diletantes, anônimos e fãs.

    Atravessando uma época, a artista esteve presente em toda a história do Theatro Lyrico Fluminense, dançou ali quando era o Provisório, esteve em cena em sua inauguração. E abraçada à bandeira do Império do Brasil, deu por encerrada a carreira daquele que logo levaria o nome de Theatro Imperial Dom Pedro II.

    Marietta ocupou os palcos do Rio de Janeiro até 1873. E seguiu trabalhando, dando aulas de dança em escolas, e para outras meninas em suas casas, até o ano de 1890. Dois anos antes de falecer.

    E apenas pouco antes de sua morte, sapatilhas já aposentadas, que, aos poucos, o verbete com b minúsculo começa a ecoar a balbúrdia de seus antigos fãs. E, também digno de nota, não foram únicos. O teatro oitocentista foi cenário muito agitado. Partidos de fãs ecoando suas paixões aos brados pelas ruas não eram nada incomuns; brigas, confusões, quebra-quebras e até tiroteios nos teatros eram fatos recorrentes desde a inauguração do Teatrinho da Rua dos Arcos, já nos tempos do outro Pedro. O primeiro.

    Providência do destino, porém, quem sabe pela nostalgia dos magníficos tempos em que o Brasil pôde ver uma fada falar a língua dos verdadeiros brasileiros em cima de um palco, foi que sua alma escapou e imprimiu-se em dicionários reproduzidos já há quase duzentos anos na boca das ruas.

    E na memória do tempo.

    Baderna foi confusão.

    E foi arte.

    Obrigada, também, por citar meu livro. Se me permitir, colarei aqui o link para ele.

    Beijos
    Paula Giannini

    • Paula,
      Baderna, pra mim, foi arte finíssima, a dança, o balé. A fusão com a umbigada, lundu, cachucha não foi confusão, foi transgressão.
      Seu Balé encantava a multidão e desagradou parte dela, aquela parte que manda em tudo, incluindo seu memoricídio. E como fizeram isto? Dando um significado ao nome já no dicionário, que explicita uma bagunça, confusão, desordem. Tornou-se um insulto, conf. registra o Dicionário Brasileiro de Insultos.
      Precisamos resgatar e restaurar o nome Baderna.
      Convenhamos, não é todo país que teve sua baderna iniciada com uma grande bailarina.
      Foi uma grande transgressora e deu indicações de uma dança, um balé brasileiro. Deveria ser mais estudada sobre sua influência na Dança, Balé Brasileiro.

  4. Oi querido,
    Como está no livro. Uma palavrinha sobre o memoricídio.

    [Me.mó.ria]
    Substantivo feminino
    Faculdade de reter ideias, sensações, impressões adquiridas anteriormente. Efeito da faculdade de lembrar; lembrança. Recordação que a posteridade guarda do passado.

    [cí.dio]
    Sufixo
    Exprime a noção da ação que provoca a morte. O extermínio.

    “O memoricídio, por sua vez, consiste na eliminação de todo o patrimônio, seja ele tangível ou intangível, que simboliza resistência a partir do passado.” (Fernando Báez)

    Na literatura e no contexto feminino, o termo foi difundido pela professora e doutora Constância Lima Duarte, que fala do apagamento das escritoras da História e da Literatura, silenciando-as e tornando suas obras invisíveis para o cânone.

    Beijos
    Paula Giannini

  5. Beleza, Paula Baderna

    Seus comentários são duas aulas: uma sobre sua tetravó e outra sobre seu memoricídio.
    Agradeço em nome dos leitores
    Brito

  6. Caro colunista: encantada com sua crônica! A partir de agora será impossível esquecer a origem do verbete “baderna”!

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