JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Antônia Alves Feitosa nasceu em Tauá, CE, em 8/3/1848. Conhecida pelo apelido Jovita, alistou-se para a Guerra do Paraguai, em 1865 como Voluntária da Pátria. Foi vestida de homem, mas logo foi descoberta e seguiu assim mesmo para o Rio de Janeiro, como 2º sargento. Aclamada pelo público, tornou-se heroína nacional sem ter sido incorporada ao Exército, e foi inscrita no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria através da lei nº 13.423, de 27/3/2017.

Filha de Maria Rodrigues de Oliveira e Simeão Bispo de Oliveira, perdeu a mãe aos 12 anos e foi morar com um tio no Estado do Piauí. Pouco antes dos 18 anos alistou-se no Exército, disfarçada em roupas masculinas. Sua disposição e demonstração de coragem comoveu o presidente da Província do Piauí, Franklin Dória, que a aceitou como voluntária, recebendo farda e embarcando para o Rio de Janeiro. Ao chegar foi recebida como personalidade pública, atraindo a atenção de todos que queriam conhecer a mulher que desejava ir à guerra.

Transformada de repente em celebridade, foi notícia em todos os jornais cariocas, chegando a ser comparada a Joana D’Arc em prosa e verso. Sua fama chegou a causar a publicação de um livreto – Traços biográficos de Jovita: Voluntária da Pátria – escrito por Vivaldo Coaracy e publicado pela Typografia Imparcial de Brito & Irmão, em 1865. No entanto, sua incorporação ao Exército foi recusada pelo Ministro da Guerra. Seus apoiadores tentaram revogar a interdição e chegou a ser recepcionada pelo Imperador Dom Pedro II, em 18/9/1865, pedindo-lhe uma intervenção, que não foi atendida. Para custear seu retorno a Teresina, foi organizado um espetáculo beneficente entre os apoiadores. Ao chegar foi recebida pela família com certa frieza e teve dificuldades em se manter no mundo de onde viera.

Desiludida, voltou ao Rio de Janeiro e passou a levar uma vida precária. Conforme noticiou um jornal “arremessou-se no caminho da perdição e da amargura”. Conheceu o inglês William Noot, funcionário da Rio de Janeiro City Improvements Ltd. e passaram a namorar. Em pouco tempo, o rapaz teve que voltar à Londres e deixou um bilhete de despedida que ela não leu por não saber inglês. Em 9/10/1867 foi até a pensão do rapaz; soube de seu retorno à Londres; ficou abalada; foi até o quarto que ele ocupava e pediu para ficar só por um instante. Como demorou mais que o previsível, foram ao quarto e a encontraram deitada na cama com um punhal cravado no peito. Deixou um bilhete declarando que ninguém a havia ofendido e que se matava por motivos que só ela e Deus conheciam.

O nome de Jovita foi esquecido até os últimos 30 anos, quando reapareceu em livros que mesclam mito e realidade. A prostituição e o suicídio de certa forma desapareceram no imaginário nacional e para muitas pessoas ela morreu em batalha. Sua memória foi também recuperada como heroína da luta das mulheres pela igualdade de direitos. Esta é uma das conclusões a que chegou o historiador José Murilo de Carvalho em seu livro Jovita Alves Feitosa: voluntária da pátria, voluntária da morte, publicado pela Editora 34, em 2019. O livro traz a reprodução de diversos documentos de época, notícias de jornal, depoimento dado à polícia, diversos poemas escritos em sua homenagem, fotografias etc. Sua inclusão no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria revela, de certo modo, os critérios sobre a inclusão de nomes no referido livro.

7 pensou em “AS BRASILEIRAS: Jovita Feitosa

  1. Jovita Feitosa, uma mulher diferente das demais que têm sua biografia aqui; ela não nasceu em berço esplêndido nos idos do século XIX para se dedicar às artes.

    Lá do distante Ceará / Piauí, resolveu que deveria ser voluntária para uma guerra que acontecia a de 3 mil km de distância.

    O Presidente da Província do Piauí, Franklin Dória (olha o nome), resolveu lacrar e a mandou para o RJ.

    Chegando na Capital foi aclamada pela esquerda festiva (sim à época já existia) da imprensa e se tornou celebridade instantânea. Afinal aquela figura exótica para os padrões do Império queria servir como Voluntária da Pátria. Fpi recebida pelo Imperador, que era moderno ao seu tempo.

    Só que existe uma realidade, a da guerra, onde as coisas não são bonitas, especialmente nas trincheiras.

    Só vou dar um exemplo atual, mulheres não estão nas trincheiras na guerra da Ucrânia. Porque? A realidade não permite. Não vou me alongar, porém há inúmeras razões.

    Jovina perdeu a notoriedade, a bigorna da realidade lhe caiu à cabeça, foi mandada de volta ao PI, voltou. Ainda ficou com um gringo que gostou por um tempo da figura exótica, depois deu no pé.

    Amargurada e desiludida, ninguém mais lhe deu espaço, só lhe restou tirar a própria vida para voltar à notoriedade, o que aconteceu somente agora há 30 anos.

    História triste, porém que retrata uma realidade onde a sociedade usa e descarta as pessoas quando não lhe servem mais.

  2. Pois é João Francisco
    E Jovita não foi a primeira mulher a botar roupas de homem, querendo ir para a guerra defender seu país. Antes dela Maria Quitéria (incluída no Memorial em 2019) fez o mesmo nas batalhas pela nossa Independência e, diferente de Jovita, conseguiu participar da batalha

    • Pois é, caro Domingos, talvez a história de M. Quitéria tenha inspirado a jovem Jovita.

      Mas há alguma diferença; Quitéria se sentiu no dever de representar sua família numa guerra de independência na Bahia, seu estado natal.

      Jovita queria ir a uma guerra da qual nem sabia onde era.

      Não vi atos heroicos nas atitudes da Jovita. Entendo que talvez ela queria sair de casa para longe de seu pai que a expulsou quando voltou do RJ.

      São histórias distintas e finais diferentes o destas duas.

  3. Obrigado, nobre Brito, pelo retrato biográfico de Jovita Feitosa.

    Sou fã de mulheres valentes, que não fogem à luta, sem deixar de ser feminina.

    João Francisco, numa explanação magnífica, embelezou o quadro, digo: crônica, escrita pelo nobre escriba.

    Parabéns aos dois.

  4. Mestre José Paulo
    Espero que este manancial não se esgote tão cedo. Faltam muitos nomes ilustres e bem conhecidos que farão parte do Memorial. Tenho dado preferência aos menos conhecidos ou bafejados e, de vez em quando, na dificuldade de encontrá-lo, me “alembro” de um medalhão para ser incluído.

    Grato pelo seu apoio e estímulo reiterados diversas vezes à feitura do Memorial.

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