JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Elizabeth Altino Teixeira nasceu em 13/2/1925, em Sapé, PB. Camponesa e ativista política como líder do movimento das “Ligas Camponesas”, em princípios da década de 1960. Viveu 17 anos na clandestinidade após o Golpe Militar de 1964 e foi “ressuscitada” pelo cineasta Eduardo Coutinho em 1984, com o filme “Cabra marcado para morrer”. Ficou conhecida como símbolo da resistência da mulher na luta pela reforma agrária e liberdade política.

O filme é um semidocumentário sobre a vida de seu marido, João Pedro Teixeira, líder das “Ligas Camponesas”, assassinado em 1962, cujas filmagens foram interrompidas em 1964 com o golpe militar. O filme foi retomado em 1981 com depoimentos dos camponeses que participaram da primeira filmagem e da viúva de João Pedro – Elizabeth Teixeira -, que assumiu a liderança do movimento até 1964, quando passou a viver escondida até 1981 e foi encontrada pelo cineasta. Assim, ela pode reencontrar alguns de seus 11 filhos dispersos desde 1964. Premiado no Festival de Berlim e no Festival Cine Realidade, de Paris em 1985, o filme recebeu outras premiações nacionais e internacionais, incluindo o prêmio Hours Concours do Festival de Gramado naquele ano. Foi considerado pela ABRACCINE-Associação Brasileira de Críticos de Cinema como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

Passou a infância numa família modesta, mas remediada com pai comerciante e estudou até o curso primário. Parou os estudos para ajudar a família trabalhando na mercearia do pai. Aí encontrou seu namorado João Pedro, que não foi aceito pela família pelo fato de ser negro e pobre. Aos 16 anos fugiu de casa para viver com ele no Recife. Envolvido no movimento sindical, ele participou da criação do Sindicato dos Trabalhadores da Construção e devido a isto teve dificuldades para encontrar emprego no Recife. A família teve que voltar a viver em Sapé, trabalhando na agricultura. Na década de 1960 participou do movimento “Ligas Camponesas”, institucionalizado em 1955 pelo advogado Francisco Julião, deputado estadual e defensor dos camponeses.

Em 1962, com o acirramento da luta sindical no campo, João Pedro foi assassinado numa emboscada de pistoleiros. Ela reuniu o pessoal das Ligas numa assembleia de mais de 2 mil camponeses e assumiu a liderança do movimento. Sofreu alguns atentados e algumas prisões afim de intimidá-la porém sem sucesso. Numa dessas voltas da cadeia para casa, encontrou a filha mais velha morta. Cometeu suicídio achando que a mãe havia sofrido o mesmo destino do pai. Após o golpe de 1964, tentaram incendia sua casa, mas não a encontraram. Ao saber do ocorrido fugiu pelo mato e conseguiu chegar ao Recife. Depois foi para João Pessoa procurar os filhos e foi presa por 4 meses.

Uma vez solta, passou a viver na clandestinidade adotou outro nome e foi viver em São Rafael (RN) com um dos filhos. Os outros foram viver com os parentes. Para sobreviver passou a dar aulas às crianças pobres em troca de alimentação. Saiu da clandestinidade em 1981, quando Eduardo Coutinho encontrou-a com a ajuda de um dos filhos mais velho, jornalista vivendo em Patos (PB). Assim, o filme foi retomado e ela foi incorporada nas filmagens, assumindo o papel de protagonista no lugar do falecido marido. Auxiliada pelo cineasta, ela conseguiu reencontrar os filhos dispersos pelo Rio de Janeiro, Recife São Paulo e Cuba e foi beneficiada pela Lei da Anistia, em 1979.

A partir daí pode-se dizer que nasceu de novo, agora no papel de uma senhora de fibra e convicta de sua atuação no movimento dos trabalhadores agrícolas 20 anos antes, uma sobrevivente do golpe de 1964. Devido a esta participação no filme o cineasta deu-lhe uma casa em João Pessoa (PB), onde passou a residir. Em seguida, com o sucesso do filme, passou a receber homenagens e convites para palestras em diversas instituições. Em 2006 foi agraciada com o “Diploma Bertha Lutz”, concedido pelo Senado Federal. No mesmo ano recebeu a “Medalha Epitácio Pessoa”, a maior comenda da Assembleia Legislativa do Estado da Paraíba. Em 2011, a casa em que viveu com João Pedro foi tombada e destinada a sediar o Memorial das Ligas Camponesas criado em 2008.

Em 2012, a EDEPB-Editora da Universidade Estadual da Paraíba publicou uma bela e completa biografia – Eu marcharei na tua luta!: a vida de Elizabeth Teixeira, obra organizada pelas pesquisadoras Lourdes Maria Bandeira, Neide Miele e Rosa Maria Godoi Silveira. Em 2017, ao completar 92 anos, o Memorial das Ligas Camponesas junto com o Centro de Comunicação , Turismo e Artes da UFPb e a Secretaria de Cultura do Estado promoveram a “Semana Elizabeth Teixeira” nos dias 13-18 de fevereiro, no Campus da UFPb, na Usina Cultural Energisa e na Escola de Formação João Pedro e Elizabeth Teixeira/MST em Lagoa Secas com uma extensa programação de homenagens, filmes, debates e palestras sobre seu legado e luta em defesa da reforma agrária. Dona Elizabeth Teixeira ficou conhecida como uma “Mulher marcada para viver”.

9 pensou em “AS BRASILEIRAS: Elizabeth Teixeira

  1. Caro Brito,

    Seu trabalho é uma ajuda maravilhosa à História do Brasil.

    Ademais, por realçar valores praticamente desconhecidos do panorama nacional.

    Portanto, não é apenas um cronistas, mas um historiador de nomeada.

    Um abração do seu leitor atento,

    Carlos Eduardo.

  2. Caros amigos,

    Se o Brasil pegasse todo o dinheiro que já foi gasto com esta porcaria Chamada de “Reforma Agrária” e gastasse em projetos de industrialização, seríamos mais desenvolvidos que a China.

    Essa valorosa senhora, que admira tanto os modelos coletivos de gestão, por que não ficou em Cuba com seu filho, já que lá, supostamente, estaria realizada a mudança que ela tanto deseja nos empurrar goela abaixo?

    • Caro Adônis, esta “valorosa Senhora” era discípula do Francisco Julião – Partido Socialista Brasileiro e L. C. Prestes do PCB.

      O objetivo deste povo não era implantar reforma agrária para democratização das terras, lutar pelo direito às terras e ajudar as pessoas do campo. Isso é o que encontraremos se pesquisarmos na Internet nas Wikileaks da vida.

      O real objetivo era expropriar terras produtivas do grande e médio produtor e implantar um regime semelhante ao cubano aqui no Brasil.

      Cuba era um dos maiores exportadores de açúcar na década de 50 e hoje produz menos do que produzia naquela época.

      Não ficou bem esclarecido como o Marido deste “valorosa Senhora” morreu, mas deve te sido emboscado por divergências internas das facções que faziam a tal “luta do campo”.

      Nossas crianças são bombardeadas nas salas de aula com visões que colocam esta “valorosa Senhora” como um dos ícones da história brasileira.

      É por querer derrubar estas narrativas que querem tirar JB do poder de qualquer maneira.

  3. Carlão

    O “padre” José Paulo Cavalcanti me chamou de arqueólogo da memória, e agora você me chama de ‘historiador de nomeada’. Vocês querem matar o véio?

    Grato e tenha um bom domingo!

  4. Brito, meu Caro.

    O seu artigo, como sempre merece nota dez. Bem redigido, belíssimamente explanado e contém todas as informações necessária, que precisamos
    saber para avaliar uma boa biografia.

    Ora, meu Caro, Seu trabalho é como sempre magnífico, entretanto, essa vadia
    comunista não vale nem dez réis de mel coado.

    Como diz um comentarista acima, porque ela não ficou em Cuba, gozando das
    delicias do regime comunista, que acima de tudo ensina ao povo como passar
    fome com patriotismo e viver na miséria com muito orgulho.

    Arre égua, manda essa vaca pro brejo, sô!

  5. Excelente homenagem, meu caríssimo memorialista Brito. O JBF está de parabéns com a manutenção da sua coluna que o enriquece a cada domingo com personagens dignos da formação literária e cultural e brasileira.

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