JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Balduína de Oliveira Sayão nasceu em Itaguaí, RJ, em 11/5/1904. Cantora lírica, reconhecida como uma das grandes estrelas de ópera do mundo e uma das maiores intérpretes do Brasil. Foi aluna de Arturo Toscanini, que a chamava de “la piccola brasiliana” e projetou-a na Europa. Ao se apresentar na Casa Branca, recebeu convite do presidente Roosevelt, para se tornar cidadã estadunidense, mas declinou: “No Brasil eu nasci e no Brasil morrerei”.

Aos 11 anos, o tio pianista, sugeriu que ela se tornasse cantora. Mas que ela queria atriz de cinema, profissão pouco recomendável, na época, para “moças de família”. Foi sugerido, então, que estudasse música, mais especificamente canto. Cantou algumas músicas do tio
e uma amiga avisou-a que a soprano romena Elena Theodorini estava no Rio dando aulas de música. A professora ficou empolgada com a menina, que veio a tonar-se sua melhor aluna. 4 anos depois, a mestre voltou à Europa e sugeriu à família que ela fosse estudar no exterior. Assim, foram para a Romênia, onde prosseguiu nos estudos. Em seguida passou a viver em Nice, França, onde recebeu aulas do tenor polonês Jean de Reszke, um dos tenores mais famosos do mundo, e consolidou sua técnica vocal.

Aos 20 anos, após 4 de estudos rigorosos, estava pronta para encenar o papel principal na ópera Romeo e Julieta no teatro Ópera de Paris. A plateia ficou encantada e recebeu elogios efusivos da crítica. Em seguida partiu para Roma e procurou o Teatro Constanzi, o maior da cidade, onde se apresentou com a ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, em 1926, Nesta apresentação foi consagrada como uma das grandes soprano do mundo. Em 1928, já casada com o empresário Walter Mocchi apresentou-se no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. A plateia lisboeta ficou encantada e orgulhosa de ver uma brasileira, uma quase patrícia, no placo.

De volta à Itália, fez uma apresentação especial para recepcionar o príncipe Alberto e a princesa Maria José, da Bélgica. Mussolini, seu fã ardoroso, exigiu que lhe dessem o papel principal na ópera Don Pasquale. Mas, ponderaram que só artistas italianos poderiam participar da ópera. Mas, como contrariar o “Duce”?. Mais uma vez brilhou no papel de “Norina”. Na década seguinte se apresentou no Metropolitan Opera House, de Nova Iorque, na ópera Manon, de Massenet. A apresentação lhe proporcionou um contrato para integrar o elenco do Metropolitan durante muitos anos. A baixa estatura e o timbre da voz propiciaram uma adequação para papéis femininos mais delicados. Nos anos seguintes apresentou-se no Teatro Colón, em Buenos Aires, Rio de Janeiro, ao lado de Guiomar Novaes e no Recife, junto com o barítono Giuseppe Danise, com quem viria se casar anos depois.

Conta a história que numa apresentação, em 1937, no Teatro Municipal do Rio, quando ela já era famosa na Europa, foi vaiada ao cantar Pelléas et Mélisande. Conta-se, também, que vaia teria sido organizada pela claque da meia-soprano Gabriella Besanzoni, que não estava disposta a vê-la em desvantagem diante do sucesso de Bidu Sayão. O fato causou-lhe tristeza e mágoa justamente por ocorrer em sua terra natal. Logo depois foi confortada pelos aplausos que obteve no mesmo ano, na apresentação que fez no Metropolitan Opera House, interpretando Manon, de Jules Massenet. Só retornou ao seu País, para novas apresentações, 11 anos depois, nas montagens de Romeu e Julieta e Pelléas et Mélissande, em 15 e 17 de agosto de 1946, as últimas em solo brasileiro, e retornou aos EUA, onde vivia.

A apresentação no Metropolitan Opera House e posterior contratação foi possível a partir da indicação feita pelo maestro Arturo Toscanini, de quem foi amiga e, dizem as “más línguas’, amante. A dupla realizou memoráveis apresentações, como a ópera La Damoiselle Elue, de Debussy, no Carnegie Hall, em Nova Iorque. O crítico Olin Downes escreveu: “A srta. Sayão triunfou da forma como uma Manon deveria triunfar, com educação, jovialidade e charme, e também pela maneira como fez de sua voz um veículo de expressão dramática”. Pouco depois, aos 34 anos, foi recebida, na Casa Branca, pelo casal Roosevelt. Um crítico do O “New York Times” disse que “Ela não demorou a mostrar os méritos de sua arte. Sua voz possui doçura, delicadeza e suavidades pronunciadas. Sua escala é excepcionalmente uniforme durante todo o compasso e alcança o Mi bemol mais agudo… Além da suavidade, a técnica vocal… tem absoluto comando do legato delicado e muito acima da média da flexibilidade e agilidade”. Permaneceu 15 anos como a principal soprano lírica do Metropolitan, que mantém um quadro a óleo na galeria dos grandes nomes da ópera. Em alguns momentos, sua voz elevava-se a alturas quase inacreditáveis e ali permanecia -pendurada, como uma cotovia- desabafando seu coração para o céu”, escreveu um crítico do “Winnipeg Tribune”.

Em 1940 esteve no Brasil junto com o tenor Tito Schipa, dirigidos por Toscanini. Em pleno “Estado Novo”, sob o comando de nacionalistas exacerbados, tal como ocorreu com Carmen Miranda, foi criticada devido ao sucesso alcançado nos EUA. Em meados de 1950, conheceu Villa-Lobos e dizem que “a química entre eles foi imediata’. Segundo o biógrafo Dennis Daniel “o relacionamento amoroso foi evidente”. O fato é que os dois se adoravam, e não apenas em termos artísticos. O compositor se referia a ela como “meu violino humano”. Estava falando do corpo da cantora? A versão do biógrafo: “A referência ao instrumento se prende à capacidade que Bidú possuía de cantar uma parte específica das ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ sem a letra, apenas com a boca fechada, sua voz soprano ressonando dentro da cavidade bucal como se saísse pela nariz, uma técnica conhecida como ‘bocca chiusa’”. A cantora acabou agradando o exigente compositor. Fato é que o disco das ‘Bachianas Brasileiras nº 5’ conseguiu ser o mais vendido nos EUA por 2 anos consecutivos.

Não obstante ser apaixonada pelo Brasil – “nada magoava mais Bidú do que ser chamada de antipatriota”, suas relações com a terra natal foram tumultuadas desde 1937, com a vaia que levou no Teatro Municipal do Rio. Mas melhoraram bastante com o convite que recebeu em 1995 para desfilar no carro alegórico da Escola de Samba Beija-Flor, quando sua vida e carreira foram tema do enredo no carnaval. Porém, com tantos anos vivido e a carreira feita nos EUA, naturalizou-se americana em 1960, aos 59 anos, mas não perdeu a cidadania brasileira. Vivia em Lincolnville, Maine, onde faleceu em 12/3/1999, aos 97 anos, sem realizar um de seus desejos: rever a Baía da Guanabara. Havia uma viagem agendada para este propósito no ano de seu centenário, mas não houve tempo.

Seu biógrafo – Denis Allan Daniel -, que tem nome americano mas é brasileiro, lançou em 2019 Bidú: paixão e determinação, uma alentada biografia, lamenta: “É triste ter de aceitar que não há uma só lápide em algum cemitério, ou um monumento no Brasil, para honrar a memória de Bidú Sayão. Encontrei na Internet outro livro, que parece ser uma biografia: Bidú Sayão: o rouxinol brasileiro, lançada por Fernando de Bortoli, em 1992, publicada pela Editora do Autor. Será porque não encontrou editora? E assim lamentamos todos o cuidado que temos com nossos grandes talentos brasileiros. Uma nesga de lembrança da grande soprano restou em Belo Horizonte, com a criação do “Concurso Internacional de Canto Bidú Sayão”, em 1999.

Clique aqui para assistir ao vídeo intitulado “Bidú Sayão – A cantora brasileira que conquistou o mundo!!”

11 pensou em “AS BRASILEIRAS: Bidu Sayão

  1. Excelente panorâmica da cantora lírica Bidu Sayão, meu caríssimo colunista Brito, de uma época que para a mulher sair do ostracismo e mostrar o talento teria de ser ousada, ter peito para romper o preconceito e fazer história.

    Bidu Sayão não foge à regra. Assim como Chiquinha Gonzaga, a pioneira, e as firmes e atuantes Cirlei de Hollanda, Jocy de Oliveira, Marisa Rezende e Vânia Dantas Leite, essas mulheres lindas e belas pela própria natureza disseram a que vieram pelas suas histórias.

    Dercy Gonçalves, a Dama do Teatro, é um das que está aí para provar.

    Parabéns pela minibiografia.

  2. Desde pequeno papai já falava sobre essa magnífica cantora.

    Você fez um grande trabalho mostrando essa personalidade às várias gerações que se sucederam.

  3. Mais uma vez parabéns, Brito, por trazer ao grande público a lembrança de uma grande brasileira, infelizmente esquecida.
    Bidu Sayão, além de primorosa cantora, dona de uma voz delicada e terna – uma das maiores soprano da primeira metade do século XX -, foi uma excepcional intérprete, dando vida às suas personagens com raro talento e graça. Bidu cantava com os olhos.
    Obrigado,
    Airton

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