JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Eu gosto da vida na roça, pois foi lá que aprendi tudo que sei e a praticar o bem ao próximo – ali é (ainda) onde moram a verdade e a sensatez. Por isso, meus temas são interligados ao sertão e aos meus avós – minhas raízes fortes e tão profundas quanto as raízes do ipê.

Pobres de valores materiais, mas, abastados de valores morais e religiosos, não tínhamos geladeira (naqueles tempos idos, a maioria funcionava à base de querosene) – em casa. Isso significa dizer que, tudo que comíamos era “natural” e as carnes e peixes eram salgados (salpresados, como falamos no Maranhão) para não estragar. Isso, fez com que quase todos fôssemos hipertensos.

Banha de porco

Durante anos – provavelmente por herança de hábito cultural dos mais antigos – não conhecíamos o óleo como parte da preparação culinária. Nenhum óleo – a não ser o “óleo de rícino” (intragável) usado como purgante para expulsar as lombrigas.

Toda comida era “temperada” com banha de porco, ou a variante, banha de coco. E, até onde sabemos, essas duas banhas são extremamente saudáveis – e vendidas em porções nas bodegas de todo o Brasil. Poucos conseguiam comprar a lata pequena de banha de coco.

Banha de coco

Mas, sabemos também, o que chamam de evolução, um dia chegaria. E chegou trazendo o óleo comestível da marca Pajeú, produzido a partir do caroço do algodão e da amêndoa do babaçu – largamente produzido no Maranhão.

A partir de então, a hispertensão provocada pelo consumo do sal deu lugar a inúmeros problemas de saúde causados pelo consumo dos óleos industrializados – incluindo o “óleo extra-virgem” produzido em Portugal.

Mas, sabemos, nem tudo era tão ruim ou provocador de problemas de doenças. Havia, sim, as vantagens curativas ao ser humano, além do “óleo de rícino”: a banha extraída da galinha caipira. Ou, como dizem alguns, asa galinhas de capoeira criadas soltas e comendo tudo que encontra.

Banha de galinha caipira

Qualquer que fosse o problema de saúde – de crianças ou adultos – recorríamos à um unguento: banha extraída da galinha caipira para curativo. Principalmente para feridas contusas ou inflamação na garganta. Não era degustada. Era usada como massagem. E curava com muita eficácia.

10 pensou em “AS BANHAS E SEUS MILAGRES

  1. ” … na roça, … foi lá que aprendi tudo que sei e a praticar o bem ao próximo – ali é (ainda) onde moram a verdade e a sensatez. ”

    grande José Ramos,
    continue!
    continue com seus escritos, pois são sempre cheios de verdeade e sensatez.
    Sou um modesto apreciador deles.
    Continue!

  2. Aluísio, que bom ter você aqui. Volte sempre que der na telha para saborearmos umas costelas de porco torradas na banha. Obrigado e bom domingo.

  3. Meu domingo só começa quando abro o JBF e entre excelentes articulistas, encontro a coluna do nosso amigo ZéRamos, nordestino, cabra maxo, cearense como eu, mas radicado no Maranhão por “ordem divina”, Me identifico muito com seus escrito, visto que, vivi minha infância e adolescência em Fortaleza. Grato Zé e um bom domingo!

  4. Adorei seu texto, querido escritor José Ramos!
    Na nossa casa, em Nova-Cruz (RN), a banha de porco era usada para frituras e assados. Minha saudosa mãe também comprava, na feira, toucinho de porco para fazer banha e torresmo. Também usava um pedacinho do toucinho no feijão. Mesmo depois que apareceu o “óleo Benedito”, de caroço de algodão, a banha continuou sendo usada, durante muito tempo.
    É emocionante, recordar o passado e os costumes da época.
    Seu texto funciona como um bálsamo, aguçando a saudade do passado, mesmo sem o conforto atual.

    Grande abraço!

    • Violante, por muito tempo eu tive uma pessoa na família, que “matava” porcos. A gente “torrava” o toucinho para tirar a banha. Guardávamos os torresmos. Eu, que cortava o toucinho para torrar, ganhava os dois rins e a passarinha, que juntava para torrar. Sentava numa sombra e saboreava aquelas maravilhas. Ainda hoje, eu só compro feijão de corda para fazer baião de dois ou para comer fazendo “moleque” (feijão amassado junto ao toucinho – mato a saudade). Aos sábados, na minha casa, sempre almoçamos caranguejos. O arroz é temperado com toucinho picado e a banha retirada a gente usa durante a semana. Aqui, a gente chama: “arroz de toucinho”! Experimente fazer na sua casa.

    • Violante, DETALHE: Aqui, fazemos o torresmo, com o toucinho cortado miúdo. Depois acrescentamos o arroz (na panela adequada) e o corante. É uma delícia, para acompanhar caranguejo, siri ou peixe frito.

  5. Parabéns pelo comentário,moro na roça,e até hoje fazemos o uso da banha de porco, é saudável sim, embora muitas pessoas têm até pavor dessa verdade, como toda comida preparada, é claro que vc não vai exagerar no preparo, enfim, PARABÉNS PELO ESCRITO.!!!

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