CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Equipe de artistas da PRA-8, em 1947

Sentados: Dorinha Peixoto, Ziul Matos, (cujo nome era Luiz Campos) Dantas de Mesquita, Abílio de Castro e Mercedes del Prado. De pé: Fernando Castelão, Rildo Uchoa, Oswaldo Silva, Hélio Peixoto e Tavares Maciel, todos do “cast” da Rádio Clube de Pernambuco. Foto no “Palácio do Rádio”, em 1946.

O programa de Rádio brasileiro mais conhecido nos anos 1950 foi o “Repórter Esso”, noticiário que cobrindo boa parte do País dava incomum prestígio às várias emissoras que o transmitiram por quase 30 anos.

Os jornalistas e locutores eram considerados artistas e suas fotos podiam ser encontradas nos jornais, na “Revista do Rádio” e nas famosas Estampas dos Sabonetes “Eucalol”.

Em 1948, quando eu tinha uns 10 anos, fui seduzido pelos vários programas da PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco, único meio de comunicação sonora de massa que se sintonizava no Recife. Por isso me empolgava ouvir aquelas vozes maravilhosas. Era um alumbramento!

Linguajares límpidos e sem erros de gramática eram ouvidos tanto nos noticiários, quanto nas radionovelas, ou anunciando as músicas e propagandas:

Pílulas de Vida do Dr. Ross:
pequeninas, mas resolvem.

No frio ou no calor “Chica Boa” é um amor.

Licor de Cacau Xavier: incomparável.

Aqui quem fala é Seu Kilowatt, o criado elétrico.

Naquele tempo se destacavam em Pernambuco as vozes de José Renato, Abílio de Castro e Fernando Castelão.

Se acaso sintonizássemos as Ondas Curtas, a fim de localizar as demais emissoras do Brasil e do exterior, era maior a vibração, porque se ouviam os locutores brasileiros que atuavam no exterior, dentre eles Aymberê e Luiz Jatobá, ambos da BBC de Londres.

Passei a ter o desejo de ser locutor de rádio. Vivia anunciando os programas da época como se ao microfone estivesse. Parecia um “peãozinho doido” andando por dentro de casa, com a boca próxima a uma lata de leite, para ter a impressão de que era um microfone. Várias vezes mamãe me ouviu falando no banheiro, local em que havia boa ressonância:

E agora vamos ouvir a “Crônica do Meio Dia”, escrita por Xavier Maranhão, na voz de Abílio de Castro.

PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco, Brasil, falando diretamente do Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto.

Amadurecendo, entendi que para ser um locutor primoroso era preciso ter voz de homem e não de menino, dominar bem o vernáculo, pronunciar com perfeição todas as palavras, não deixar transparecer sotaques de diferentes regiões. Para isso se exigia, também, a arcada dentária perfeita, mas eu era bastante dentuço, além disso, fanhoso. Por isso, adeus locução!

Por imposição do destino me dediquei à escrita em jornais, porém nunca deixei de admirar a locução dos grandes noticiaristas que passaram pelo Rádio pernambucano.

Recordo, para conhecimento das gerações atuais, os grandes locutores, apresentadores e atores das novelas do nosso Rádio, imortalizados por sua dicção perfeita, já a partir dos anos de 1960:

Abílio de Castro, Geraldo Liberal, Dantas de Mesquita, Fernando Castelão, Fernando Ramos, José Renato, Barbosa Filho, Aldemar Paiva, Ziul Matos, Samir Habou Hana, Paulo Duarte, Paulo Fernando Távora, Tavares Maciel, José Santa Cruz (recentemente falecido), Geraldo Freyre e Edson de Almeida, este, o locutor que durante 12 anos foi o responsável pela apresentação do “Repórter Esso”, o noticioso de maior audiência em Pernambuco.

A partir dos anos 1970 as emissoras do Recife passaram a oferecer mais jornalismo, esportes e prestação de serviços, ficando com as televisões os espetáculos de auditório, novelas, etc.

Foi o tempo em que apareceram as FM’s, e assim as emissoras de broadcasting tiveram que ser totalmente reformuladas. Em consequência, os melhores apresentadores do rádio foram saindo para a Televisão, dentre eles Fernando Castelão que batia todos os ibopes com o seu “Você faz o show”, no horário nobre dos domingos.

A partir de 1948, quando foi inaugurada a PRL-6, Rádio Jornal do Commércio, surgiram os incomparáveis: Etiene Rodrigues e Aluízio Pimentel, que concluiu sua carreira como locutor noticiarista na TV Globo.

Não realizei meu desejo de criança que seria o de me tornar locutor de Rádio, porém, aprendi a escrever notícias breves – como se fosse para o Repórter Esso – e hoje administro um grupo de comunicação, via WhatsApp, que denominei “Correspondentes Unidos”, interligando pessoas de vários lugares do País e até do estrangeiro.

Recordo, assim, o proveitoso estágio de Jornalismo na PRL-6, a Rádio Jornal do Commercio, onde recebi aulas para aprender a escrever, no padrão exclusivo exigido para o “Repórter Esso”, o mais famoso noticiário de todos aqueles tempos, no Brasil.

Assim os prefixos de radio jornalismo que eu vivia imitando na casa de meus pais, feito um doidinho, tiveram grande influência em minha trajetória, através das notícias escritas. E nunca deixei de entender que os locutores eram também artistas do Rádio.

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