Seja em atividades jurídicas, seja em experiências literárias, a palavra é, para mim, uma espécie de ferramenta de trabalho. Por isso, é comum que me chame a atenção quando um termo passa a ser utilizado com maior frequência que a habitual — ou quando assume um novo significado.
Isso já me ocorreu, por exemplo, com o substantivo “transparência”, tema de uma crônica minha há alguns anos (clique aqui para ler). Na ocasião, expus minha tese sobre como o termo, que originalmente remetia àquilo que não se vê, passou a significar justamente o oposto: a possibilidade de tudo ser visto com nitidez.
Hoje, minhas reflexões recaem sobre a expressão “equipe de suporte”. Ela aparece em e-mails automáticos, atendimentos telefônicos e mensagens padronizadas: “Nossa equipe de suporte está à disposição”.
É evidente que, nesse contexto, a mensagem traduz uma oferta de ajuda — geralmente sob a forma de orientação a usuários de determinado sistema ou aplicativo.
Mas há algo ligeiramente deslocado aí.
Até pouco tempo, “suporte” tinha um sentido mais concreto, designando a estrutura que sustenta algo, como, por exemplo, uma prateleira.
[aqui, vamos inserir a imagem de uma prateleira sustentada por suportes tipo mão francesa]
Talvez por isso o substantivo resista a uma transposição natural para o verbo correspondente. Dizemos “ajudar” em vez de “dar uma ajuda”, “elogiar” em vez de “fazer um elogio”, “criticar” em vez de “fazer uma crítica”. Mas quem diria: “espere um pouco que vou te suportar”?
Nesse contexto, percebe-se que “suportar” carrega outro peso semântico (com o perdão do trocadilho). Suporta-se a dor, o atraso, o transtorno. Suporta-se aquilo que não se pode evitar — e que, por vezes, mal se tolera.
Quando se trata de contribuir para que alguém alcance um objetivo, o que fazemos é ajudar. Ou… apoiar!
Yes, here you are!
Tratando-se de uma expressão tão presente no universo da tecnologia da informação, é legítima a suspeita de ser decorrente de um empréstimo mal traduzido do inglês. Afinal, se “to support” significa “apoiar”, não seria surpresa que as support teams tenham sido vertidas, de modo quase automático, como “equipes de suporte”, em vez de “equipes de apoio”.
Uma transliteração apressada, dessas que atravessam fronteiras sem pedir visto ao sentido.
No problem. Já convivemos bem com verbos como deletar, printar e reportar. Não vamos bugar por causa disso.
Ainda assim, há uma ironia silenciosa — ainda que involuntária — nessa hipótese: quando precisamos de ajuda e recorremos ao suporte, somos atendidos por profissionais que nos apoiam?…
Ou apenas nos suportam?