JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

Eu lhes escrevo estas linhas com a paciência de quem já viu o açude transbordar e o leito secar de vez, moldado pela calma que o chão do Seridó ensina a cada um de nós. Os seus filhos.

Eu penso que se o bom Dr. Paulo Balá estivesse ainda por esses ares quentes, de sua mesa de cabeceira certamente abriria uma de suas célebres cartas para nos lembrar de que a história das nossas famílias, e da nossa gente, não foi feita de pressa; mas de espera, fé e de resiliência.

Porque há um tempo biológico, histórico e sagrado para cada coisa sob o sol que nos tosta. E isso é bíblico.

As intempéries da vida, essas turbulências que chegam sem avisar e nos desassossegam o peito, costumam nos empurrar para o erro do desespero, da ansiedade e da falta de confiança.

Às vezes nós queremos governar o vento, ditar ordens à chuva e controlar o compasso dos segundos. Bobagem de quem ainda não entendeu o tamanho da própria pequenez como homem. Porquanto o homem que se consome na angústia daquilo que não pode resolver gasta a alma e parte da vida em vão, já que o prumo da existência se perde quando tentamos forçar o destino e acabamos desequilibrando o tempo.

Eu lembro agora de Cazuza, poeta da minha adolescência, e me convenço que não adianta o esforço desnecessário de “nadar contra a corrente, só para exercitar todo músculo que sente”. Afinal, essa fadiga orgulhosa não acalma as águas; apenas cansa e pode afogar o nadador.

É preciso o recolhimento da palavra mansa, aquela da reunião na calçada ao cair da tarde, na subida da boca da noite, para compreender que a calmaria também é um direito que nos toca.

Por exemplo, quando o inverno atrasa, não adianta o sertanejo brigar com o céu, esmurrando o ar, ou apunhalando o vento. Antes ele deve ajeitar o arado, limpar as sementes e esperar, sabendo que o ciclo da terra é soberano. E a fé é a certeza do que não vemos.

Diminuir a marcha e trocar o passo apressado pela contemplação dos dias difíceis não é covardia ou desistência. É sabedoria e maturidade. É entender que a dor e a incerteza é um rasgão na consciência, e possuem uma anatomia própria; mas, como um arranhão na carne, também precisam de tempo para cicatrizar.

Olhemos para trás, resgatemos na memória a árvore genealógica de nossas próprias superações. Quantas vezes o mundo pareceu desabar e, no dia seguinte, o sol amanheceu dourando as pedras das serras que nos cercam?

Parece, a mim, que as coisas mudam para o rumo certo quando paramos de agitar o lodo do fundo do poço dos nosso querer, e o vento da boa-sorte chega soprando para a direção correta. Se o peso é maior do que nossas mãos podem carregar, entreguemos ao tempo os quilos da desesperança.

Descansemos os braços cansados dessa correnteza. Guardemos o coração para o dia em que o vento soprar a favor.

Afinal, a vida — assim como uma boa rima ou uma carta de saudade — só encontra a sua verdadeira beleza quando respeita o compasso do próprio silêncio servindo de pedra para alicerçar a esperança, com a fé cimentando a certeza de um novo amanhã.

No mais, é acalmar o coração e esperar que as melhores chuvas molhem o nosso chão.

Nosso açude há de transbordar muitas vezes mais.

E isso não é sobre chuvas, ou açudes transbordando.

É sobre aquietar-se. E esperar.

3 pensou em “AOS MEUS SEIS LEITORES”

  1. Bom dia Amigo!
    Excelente Narrativa Para a Atual Conjuntura Política a qual estamos vivendo. A Paciência e Resiliência é a melhor forma que podemos utilizar para essa situação.

    Abraço,
    Gabriel Marinho.

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