A “bicada”
Antônio “Não Sabemos das Quantas”, nascido na região cearense dos Inhamuns, terra de gente que não tem o hábito de escutar e levar desaforos para casa, foi literalmente expulso daquelas paragens pela seca. Aquela seca que, sem milagres, consegue mudar até a cor dos camalões (que muitos conhecem como iguanas), transformando o verde brilhante num acinzentado sem bilho algum.
Na fartura que vivera naquela terra, conseguiu amealhar numa mala velha de tábuas, com a ajuda imprescindível da mulher Alzira, os trocados que usaria para o recomeço de vida noutro lugar. Vendeu uns porcos, cabras, bodes e cabritos e não se sabe quantas galinhas poedeiras e pelo menos duas vacas leiteiras, juntou todo o lucro e deixou o que lhe pertencera e construiu na labuta ferrenha e do sofrimento sertanejo na falta de tudo.
A fartura é outra coisa, e até os piores articulistas fazem daqueles lugares a maravilha desejada.
Escolheu morar em Fortaleza. Ali pelas décadas de 50 e 60. Comprou uma pequena residência de duas esquinas, reformou e transformou na sua nova forma de vida: uma bodega.
Na nova vida, aceitou de bom grado a mania do povo fortalezense e ficou conhecido como “Toím da Bodega”. Assim, fez novas amizades e garantiu o respeito da freguesia.
Trouxe dos Inhamuns, algumas manias. Uma delas, a valentia e a pecha de que não escutava desaforos. Com a abertura da bodega, adotou outras manias: ao contrário de outros “bodegueiros”, para fazer amigos, resolveu vender fiado. Perdeu dinheiro investido em mercadorias e alguns amigos que moravam na mesma rua e tinham o hábito de comprar “fiado para pagar quando recebesse”. Nunca pagavam e até mudavam de caminho.
Conhaque de alcatrão “queimando” a dose de cachaça
Mas, “Toím da Bodega” conseguiu aprender coisas novas. Uma delas, foi manter uma bacia com água debaixo do balcão de madeira, onde muitos imaginavam que ele lavava os copos – mas, na verdade, quase nunca trocava aquela água da bacia.
Outra mania que passou a praticar, foi “não vender bebida fiado”. Assegurava que, bebendo fiado, o freguês se embriagava e esquecia de pagar.
Ciriguela “inchada” o tira-gosto preferido do cearense
Excluindo bebidas, “Toím da Bodega” vendia fiado, sim. Entendia que aquela era uma das formas positivas de manter a freguesia – até porque, afastado dali, as outras bodegas vendiam fiado. Ele não faria diferente. Mas, mantivera a posição pessoal: não vendia bebida fiado.
– “Seo Toím”, mamãe mandou comprar meio quilo de açúcar, dois cruzados de banha de porco, um quilo de arroz e um medida de colorau. Disse pro senhor anotar na “cardeneta”!
“Toím da Bodega” atendia, e sem fazer bico, ou cara feia. Tinha certeza que aquela mãe pagaria a dívida, tão logo o marido recebesse o salário na reparticição onde trabalhava.
Mas, bebida, “Toím da Bodega” não vendia fiado. Nunca vendeu.



No quintal da minha casa, tinha dois pés de ciriguela, meu pai tirava todas as “inchadas”, colocava numa cúia de cabaça para servir como tira gosto aos fregueses e tome Colonial, Ypioca, Amansa Corno e outras preciosidades etílicas.
Marcos, quando comecei a beber, por volta dos 18 anos, só bebia cachaça (não suporto beber wisky). Colonial ou Redenção. Tirava o gosto com ciriguela inchada ou com aquela farofa de sardinha enlatada feita em cima do balcão, no papel de embrulho. Mas, não era na bodega do Toím!